Caminhos do Cinema Português – Entrevista

Conversámos com Tiago Santos, João Pais e Vitor Ferreira, da organização do Festival Caminhos do Cinema Português, que acontece em Coimbra de 22 a 30 de Novembro, e que vai na XXV edição.

Que balanço fazes dos 25 anos do festival Caminhos do Cinema Português?
O festival passou de uma mostra de cinema português, com um intuito programático mais académico, primeiro para um formato Festival, com competição entre cinema e vídeo, evoluindo para o que hoje consideramos ser uma referência no conjunto dos festivais nacionais. Este crescimento de edição para edição, forneceu-nos as ferramentas essenciais para nos tornar especialistas sobre a produção de eventos e da produção cinematográfica nacional. É um conhecimento que se desenvolve e materializa ano após ano. O festival ganhou o referido reconhecimento, relativamente consensual, de que é a grande montra de Cinema Português com uma programação que apresenta uma filmografia para todos, sendo que esse crescimento obrigou a executar o projecto em mais recintos, com uma logística maior e sobretudo uma reciclagem de conhecimentos técnicos que radicalmente acompanharam a transição da película para o DCP. A legítima expectativa dos nossos espectadores e criadores, e as exigências inerentes à produção de um festival com qualidade, carecem sempre de apoios financeiros cada vez mais difíceis de obter. O grande desafio destes últimos anos tem assim sido a tentativa constante de profissionalizar o festival, para que se reconheça condignamente quem anual e diariamente trabalha para que ele aconteça. Desta feita, podemos afirmar que o balanço destas 25 edições de Caminhos é positivo, na medida em que continuamos como o único festival primordialmente focado na cinematografia nacional, olhando tanto à arte como ao contributo técnico, mas limitado. Limitado na medida em que nos moldes actuais se torna humanamente impossível fazer melhor uma actividade deste encargo por franca falta de possibilidades de nos dedicarmos ao projecto ao longo de todo o ano. É um limite que se multiplica de acordo com as políticas culturais autárquicas que numa sede de municipalização da cultura vem promover uma política de gosto, de curadoria e de quais são os projectos associativos que merecem sobreviver em Coimbra ao levar a chancela da co-organização municipal.

Quais os principais objectivos do Festival?
O nosso escopo principal é apresentar anualmente uma programação que respeite todos os géneros cinematográficos e disponibilizar um mapa com vários caminhos pensados em todos e para todas as idades. O estímulo de novos hábitos de consumo culturais precisa sempre de um consumo concreto, de uma ida ao cinema e de uma introdução ao mesmo. O festival, apesar disso, não tem como objetivo de encaminhar pessoas para um género ou tipo de estética. O que temos como grande finalidade é sim mostrar cinema português de qualidade, mostrando cumulativamente a sua diversidade tanto quanto ao narrativa como criadores. Acreditamos que o nosso nome “Caminhos do Cinema Português” transmite per se essa mesma finalidade plural.

É importante descentralizar?
O festivais de cinema per natura são já um objecto de descentralização cultural do que nos é imposto pelas variáveis do mercado de exibição cinematográfica. Uma festa faz-se com os consagrados de mãos dadas com os novos valores, reforçando o sentido de comunidade da população com os seus espaços de hábito e fruição. Só pela definição mais académica um evento que abre esta possibilidade já efectua um deslocamento do fluxo de gostos promovidos comercialmente para a experiência de usufruir do novo, do desconhecido e do prazer da descoberta. O facto de dos 26 dos festivais se localizam em Portugal, apenas 7 se realizarem fora das áreas metropolitanas de Lisboa ou Porto vem corroborar a importância destes eventos como montras referenciais para o consumo de uma cultura não normalizada. Mesmo que o festival se realizasse numa das duas áreas metropolitanas do país, considerando que não falta nessas grandes cidades uma programação anual constante de cinema português, julgamos que a sua importância não seria diminuida, tanto porque é o único que realiza uma premiação aos técnicos e artistas que permitem a execução de um filme, por oposição a um reconhecimento formal somente à produção e realização, como é o evento que o faz há mais tempo em Portugal junto de um público ávido de curiosidade pelas novas produções que nos chegam ano após ano.

O caminho que percorremos é, assim, inverso – trazemos dessas grandes cidades criadores e filmes que proporcionarão para muitos um primeiro contacto e na sua maioria em ante-estreia. Em Coimbra conseguimos criar um palco de encontro entre criadores nacionais e internacionais, onde o público se envolve por nove dias e conhece o melhor do cinema português do ano.

Como se estabelece a relação com a população do concelho de Coimbra?
A relação do festival com a população é efectuada por três vectores: a academia, as escolas e a generalidade do público. Este evento é o único festival de cinema produzido num contexto universitário. Nesse sentido é normal identificar-se um sentido de pertença ao evento por parte de um leque alargado de estudantes das áreas de humanidades, artes ou do design e multimédia, por outro lado na generalidade não sensibilizada para as artes é complicado atrair os estudantes. Nesse sentido é uma relação que se combate pela especificidade temática de cada obra em função dos planos curriculares de vários cursos da Academia. No âmbito de serviço educativo os Caminhos promovem várias sessões temática com foco nos juniores, com cinema de animação, e juvenis, com obras passíveis de serem incluídas no Plano Nacional de Cinema do 3.ª Ciclo e Secundário, procurando estimular uma ligação emocional, lúdica e também crítica com o mundo do cinema. Cremos que o caminho da pedagogica é fulcral para sensibilizar as novas gerações para o cinema português, formando novos os espectadores e também criadores. Com a generalidade da população sentimos e temos dados analíticos que nos apresentam um público com idades superiores aos 25 anos, com formação secundária ou superior que nos acompanha fielmente, contudo cremos que pelas vias da comunicação e sobretudo dos méritos do Cinema Português alargar o impacto que o evento tem na cidade e região, trazendo novos espectadores, outras formas de estar em sala e sobretudo responder à avidez de conhecer e saber como é que foi produzir cada um dos filmes em competição.

Como vês o panorama do Cinema português em 2019?
O Panorama será sempre complicado na medida em que há produtores que insistem que é estratégico não lançar os seus filmes nos Caminhos do Cinema Português, colocando-os em sessões fora de competição em outros festivais das áreas metropolitanas. Por incrível que pareça essas decisões isolam o Cinema Português do seu público em vez de activar estes filmes em pontos especializados onde há espectadores exigentes de outras formas de ver cinema e ter a possibilidade de ouvir e questionar os intervenientes de cada filme. Tirando esses casos minoritários, cremos que o Cinema Português continua a viver de uma dicotomia entre a excelência técnica, artística, de ensaio, capaz de conquistar os mais exigentes júri de festival, como de produzir alguns filmes que não sendo tão sustentados estético-narrativamente atraem centenas de milhares de espectadores.

Felizmente 2019 é um ano em que se conjuga em alguns casos a competência artística com a competente resposta dos espectadores e, nesse sentido, é possível ver há reflexos na nossa história contemporânea nacional a atrair espectadores suficientes para garantir a sustentabilidade económica das produtoras nacionais. Claro é, que são excepções honrosas e o Cinema Português vive quase exclusivamente do que é possível obter junto do ICA e RTP, verificando-se honrosas excepções junto de alguns grupos privados, que depois não encontram os fluxos de distribuição necessários para ter os espectadores que merecem. Também nesse caso estamos com novos intervenientes no mercado que fruto da sua actividade especializada em festivais, circuitos de curta-metragem ou cineclubes começam também a trabalhar como distribuidores de cinema “alternativo” ao exibido nos multi-plex.

A nossa resposta formal sobre o panorama cinematográfico nacional é que temos confiança na qualidade do cinema português, seja de hoje ou amanhã. Sabemos e conhecemos a produção existente para além dos números apresentados pela tutela quando existem 317 filmes nacionais propostos e dos quais conseguimos reunir 114 na nossa programação (36% aceitação nas 3 secções competitivas). Os melhores, entre os melhores, são conhecidos a 30 de novembro às 21h45 no Teatro Académico de Gil Vicente.

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