Carlos Ramos – Entrevista

No dia em que começa a edição de 2020 do festival de cinema IndieLisboa, trazemos-vos uma entrevista com o seu Director e programador Carlos Ramos. Falou-se de realizar um festival em tempos de pandemia, da edição deste ano, de música e de cinema infantil, e do estado do cinema independente. O IndieLisboa decorre até dia 5 de setembro.

Antes de mais, como estão a viver estes tempos únicos?
A uma semana do festival começar a pandemia está presente diariamente, até pelos novos desafios que se nos colocam, mas acaba por ficar para um segundo plano, com a equipa focada em colocar o festival em marcha e a garantir que tudo está preparado no dia 25. Tem sido assim depois de um primeiro momento em que tal como toda a gente nos confrontámos perante algo desconhecido. Apesar de ainda seguirmos em terrenos incertos e desconhecidos, a pandemia acabou por fazer parte da rotina.

Que adaptações tiveram de fazer à edição de 2020 do Festival?
Desde o primeiro momento a energia foi colocada em arranjar alternativas para fazer uma edição física do festival. Ao conseguirmos fazê-lo nas novas datas tivemos de adaptar o festival ao novo contexto. Mantemos toda a programação, que já estava fechada em Março. Mantemos também todas as sessões em sala, acrescentando este ano 2 salas ao ar livre (terraço do Capitólio e esplanada da Cinemateca) por sentirmos que as pessoas procuram também esta opção e porque estaremos em pleno Verão. Em sentido inverso cancelámos a secção IndiebyNight, festas e concertos do festival, e também não podemos ter a parte do IndieJúnior relativa às escolas, uma vez que neste período decorrem as férias escolares, o que muito nos entristece porque um dos eixos do IndieLisboa passa pela formação de público, sendo que temos habitualmente cerca de 9000 crianças e jovens nestas sessões. De qualquer forma mantemos as sessões para famílias no IndieJúnior. Finalmente todos os eventos relativos a indústria e talks, com excepção de um momento, migraram para o formato online. A juntar a estas alterações irá haver obviamente uma diminuição do número de convidados internacionais presentes e obviamente tornámos o festival seguro para o público, cumprindo todas as normas e recomendações da DGS que passa, por exemplo pela diminuição a 50% da lotação das salas de cinema, uso obrigatório de máscara em todas as sessões, disponibilização de gel desinfectante nos espaços e promoção do distanciamento social com criação circuitos de entradas e saídas separadas nas salas. Estamos a aprender a fazer um festival novamente.

Quais as grandes linhas de programação este ano?
Além das várias secções competitivas onde durante todo o ano que precede o festival uma equipa de programadores trabalha para escolher aqueles que acha serem os melhores filmes, podemos destacar um eixo de programação construído por duas retrospectivas: Ousmane Sembène e 50 anos do Forum Berlinale e um foco: Mati Diop. Podemos ver estes 3 nomes com os vértices de um triângulo em permanente diálogo. Pensámos estas duas retrospectivas e foco de forma a formar uma unidade conceptual de forte carga política, social e humana. Ousmane Sembène, que começou a fazer filmes nos anos 60, é um realizador do Senegal, um dos pioneiros do cinema africano, que aborda o cinema como um instrumento de descolonização e revolução. Os filmes deles estão intimamente ligados à luta de classes, veja-se por exemplo Borom Sarret, o feminismo, Emitai ou Ceddo, ou a permanente luta pela descolonização não só física, mas também cultural e mental, como em La noire de… ou Camp de Thiaroye. A outra respectiva celebra os 50 anos do Forum Berlinale, cuja primeira edição decorreu em 1971. De todo o conjunto de filmes que passaram nessa edição escolhemos 12, cuja temática e contexto político e social dialogam directamente com os filmes de Sembène. Daí a escolha de filmes como Eldrige Cleaver, Black Panther, de William Klein, ou Angela – Portrait of a Revolutionary, de Yolande du Luart, que retratam dois activistas e militantes dos Black Phanters, Monangambee, de Sarah Maldoror e Soleil Ô, de Med Hondo, que abordam as questões coloniais ou The Woman’s Film e Eine Pramie Fur Irene, filmes no feminino que abordam as discriminações laborais e as condições de vida das mulheres. Finalmente o foco Silvestre deste ano é dedicado à realizadora e actriz Mati Diop que ganhou o grande prémio de curta metragem do IndieLisboa em 2014 com o seu filme Mille Soleils. Diop é também ela de origem senegalesa, uma realizadora que temos acompanhado desde o seu início e em que depositamos um futuro brilhante. Falar de política em Diop significa criar um universo sobrenatural que se mistura com a realidade, com a questão dos refugiados muitas vezes presente, tal como na sua primeira longa Atlantique, vencedora do Grande Prémio do Júri do Festival de Cannes de 2019. Uma palavra ainda para o novo cinema português, eixo central da programação de cada edição do IndieLisboa. Inúmeros filmes portugueses espalhados pelas várias secções do festival, com destaque para as cinco longas metragens da competição nacional, A Metamorfose dos Pássaros de Catarina Vasconcelos, O Fim do Mundo, de Basil da Cunha, Entre Leiras, de Cláudia Ribeiro, Ana e Maurizio, de Catarina Mourão e A Arte de Morrer Longe, de Júlio Alves, as quais curiosamente acabam por andar à volta das relações pessoais, sejam elas familiares, de amizade ou sentimentais, e para um conjunto de 17 curtas metragens também em competição maioritariamente constituída por um conjunto de nomes que apontam uma nova geração do cinema português

Qual tem sido o papel da música no IndieLisboa?
O IndieMusic tem sido uma secção com grande crescimento de público nos últimos anos, fruto de uma programação muito cuidada e que aponta não só a nomes consagrados, mas dando também espaço à descoberta. Não nos procuramos focar apenas num determinado género ou movimento, mas procurar diferentes linguagens, histórias e gerações. Sentimos que é uma secção muito acarinhada pelo público, também porque começamos a dar maior visibilidade aos filmes e artistas nacionais (temos este ano 4 filmes portugueses no IndieMusic) e conseguimos atrair algumas estreias mundiais como o filme sobre os Swans e outro sobre os WITCH em 2019, que depois adquiriram uma grande circulação pós Indie. Além disso a música tem estado sempre presente em performances e concertos que acontecem durante o festival e que dialogam com os filmes das várias secções. Este ano a programação é novamente variada, acabando por ter curiosamente vários filmes sobre os anos 60 e 70, período de maior actividade no nosso retrospectivado Ousmane Sembène. A programação da secção musical viaja assim do jazz de Billie Holiday, em Billie, à electrónica de Jocy de Oliveira (grande descoberta), pioneira da música electrónica brasileira, em Electronica:Mentes, ou dos standards de Charles Aznavour, em Aznavour by Charles, à música industrial e avant-garde dos Throbbing Gristle, em Other, Like Me, entre outros filmes. Na música nacional destaque para os filmes SOA de Raquel Castro, um documentário sobre o som, em todas as suas vertentes, o retrato tirado à música improvisada portuguesa, aqui e agora, por Pedro Gonçalves no filme Caos e Afinidade, o mocumentário Ricardo, sobre Ricardo Bueno, bailarino que irrompe pelos concertos dos Sensible Soccer e também A Vida Dura Muito Pouco, documentário sobre a lenda da música popular portuguesa José Pinhal. Finalmente destaque para mais dois filmes importantes na programação. Gimme Shelter, documentário sobre a fatídica digressão dos Rolling Stones que culminou com a morte de um fã no concerto em Altamont às mãos dos Hell’s Angels, filmes que celebra este ano 50 anos de existência e por isso o passamos numa sessão especial daquele que é considerado um dos melhores, se não o melhor documentário musical de todos os tempos e White Riot, filme sobre o movimento musical Rock Against Racism, criado em 1976 em Inglaterra, que juntou músicos e bandas como os Clash, Buzzcocks, X-Ray Spex ou Sham 69, em resposta ao aumento da tensão racial no país, procurando combater pela música a ascensão da frente nacional e da extrema direita e a sua ideologia, importante documento de tempos do passado que infelizmente encontram ecos nos tempos actuais.

Quais as repercussões que vos têm chegado da existência do IndieJunior, ano após ano?
Uma das missões primordiais do IndieLisboa passa pela formação de públicos, contribuindo o IndieJúnior para a formação estético-cultural de crianças e jovens, com uma programação criteriosa e cuidada conforme a faixa etária. Este trabalho é feito não só durante os 11 dias do festival, mas ao longo de todo o ano com iniciativas como o Cineclube ou Eu Programo um Festival de Cinema. O festival vai na 17ª edição. Esta secção é actualmente aquela com maior número de espectadores do festival. Além do público fiel ao festival é necessário formar e criar novos públicos, que serão o público do Indie daqui a 10, 20, 30 anos. Temos nesta altura conhecimento de vários espectadores actuais do IndieLisboa que começaram a ver cinema em sala através do IndieJúnior. Muitas crianças têm o seu primeiro contacto com o cinema em sala no festival, fruto do trabalho que fazemos com as escolas. Esperamos também que alguns destes casos possam vir a ser futuros realizadores, produtores, profissionais de cinema.

A que actividades paralelas poderemos assistir?
Dentro da secção IndieJúnior haverá lugar a um conjunto de workshops com ligação ao cinema e aos filmes que vamos mostrar, dado pela equipa educativa do IndieLisboa e também com a presença da realizadora e ilustradora Aliona Baranova, cujo filme A Folha motivou a criação de um workshop onde cada participante vai contribuir para fazer um filme de animação supreendente. Existirá também um piquenique familiar no dia 29 de Agosto no jardim do Palácio das Galveias. As LisbonTalks decorrerão este ano no formato online, acessível de forma gratuita a todo o público que estiver interessado, sendo este ano dedicadas aos actores e à representação no audiovisual nacional. A excepção será um debate sobre as restrospectivas: Forum 50 & Ousmane Sembène: O Cinema como forma de reflexão e acção política, que decorre na esplanada da Cinemateca no dia 27 de Agosto às 18h. Finalmente teremos um conjunto de iniciativas de indústria: Lisbon Screenings, Fundo de Apoio ao Cinema e Cine Cerca, que decorre também online e reservado a profissionais. Apesar de não existir este ano o IndiebyNight existirá no dia 3 de Setembro no Maat uma parceria com o Indiefrente, onde a partir do filme Caos e Afinidade, do IndieMusic, criámos uma programação que inclui a escuta de um álbum do Gabriel Ferrandini, seguida de um dj set do próprio e performance da Violeta Azevedo.

Em que é que o IndieLisboa marca a diferença em relação aos outros festivais de cinema que acontecem todos os anos?
O IndieLisboa assume-se como um festival generalista, que aposta da mesma forma na longa e na curta metragem. Podemos encontrar no IndieLisboa ficções, documentários, animações e filmes experimentais, conseguindo cada espectador construir o seu próprio caminho dentro do festival. É um festival com inúmeras hipóteses e percursos individuais, ao qual o público tem respondido de forma entusiasmante.

Como vai o cinema independente?
Na verdade quando falamos de cinema independente, estamos a falar de liberdade, ou melhor liberdades, quer sejam criativas, estéticas, temáticas ou formais. Tem sido esse o nosso caminho. Todos os anos ficam de forma do festival inúmeros filmes que se enquadram neste espírito e que gostaríamos de mostrar, o que é um bom indicador de como vai o cinema dito independente.

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