Carlota Lagido – Entrevista

Em tempos de crise, a sociedade mobiliza-se e organiza-se. A artista Carlota Lagido não cruzou os braços e fundou a “Ação cooperativista de apoio – Artistas, Técnicos, Produtores”. Conversámos com ela para saber mais sobre este movimento, as suas origens, objectivos e iniciativas.

Antes de mais, como estás a viver estes dias incertos?
Começei a confinamento no dia 14 de Março, dois dias depois do cancelamento da Mina no Cumplicidades no São Luiz. Sou grupo de risco por ser asmática e super cautelosa, por isso nem esperei pelo estado de emergência. Fechei-me. Nas primeiras duas semanas dormi tudo aquilo que não pude dormir durante o ano, entrei em suspensão em relação a tudo. Além de dormir começei a desenhar muito, algo que no dia a dia da normalidade nunca tinha tempo de fazer. Comecei a investir na ilustração ciêntifica de pássaros, o que me deu um ânimo muito empoderador. Imaginei múltiplas possibilidades de futuro, ou mais um skill, e voltei a pouco e pouco à atividade possível. Até que embati nesta outra realidade, o dinheiro acabou e vieram os medos – o que vai acontecer ao meu filho se eu ficar doente, como vamos viver, nunca mais vou ver ninguém, o que vai ser o futuro, vamos morrer? Esse embate fez-me ficar alerta, fez-me sair de mim, fez-me ficar mais atenta e tomei consciência do estado em que todos nos encontramos.

Nós estamos habituados à precaridade, acho que muitos de nós não estranham o facto de neste momento estarmos sem dinheiro na conta, mas o que se está a passar vai para além daquilo que podemos continuar a aceitar. Eu já nem olho para nós, como artistas ou profissionais da cultura. Eu olho para nós como pessoas, que precisam de comer e fazer frente a necessidades básicas, antes de tudo somos pessoas que precisam de comer e a quem a proteção social não chegou. No meu caso, sou daquelas privilegiadas que recebem apoio da SS, mas é o cúmulo eu achar que receber 300 euros é um privilégio. Mas é, há muita gente sem acesso a este apoio, há muita gente que não tem suporte familiar, há muita gente que não tem casa. Não dá para continuar a aceitar isto.

Este momento, posso dizer que o estou a passar com uma grande angústia, que vem dum sentimento de impotência e frustração, o que aciona uma grande revolta. A verdade é que a revolta ou a raiva, podem gerar fluxos de ação se forem canalizadas para o lugar certo. É mais difícil lidar com a tristeza porque a tristeza é solitária. Sinto que a minha revolta levou-me a dinamicas outras e a encontros inesperados com pessoas maravilhosas, que têm sido a força do movimento Ação Cooperativista de apoio- artistas, técnicos, produtores.

O que esteve na origem da iniciativa “Ação cooperativista de apoio – Artistas, Técnicos, Produtores”?
A origem da iniciativa veio de um impulso urgente em encontrar soluções de apoio imediato, que pudesse chegar a todos os que necessitam, precisamente porque se vislumbrava (e mantém-se) a inação do Estado. A proteção social de emergência continua a não chegar a todos os trabalhadores independentes, e isto é transversal, não se centra exclusivamente nos trabalhadores da cultura. As soluções que nos apresentam não são inclusivas e abrangentes.

A ideia foi criar uma rede circular e rizomática, de transferência de apoio a vários níveis, tanto apoio direto de bens essenciais, comida, dinheiro, e criar também uma base de dados de informação útil sobre outros grupos e redes de apoio imediato, ou de esclarecimento de problemas com a SS, e que funcionasse numa lógica de cooperativismo. O nome indica a junção de cooperativismo com ativismo.

Por outro lado, o movimento Ação Cooperativista também opera na perspetiva de gerar pensamento, de gerar ação política e pressão à tutela, assim como outras iniciativas que procuram refletir resoluções que contribuam para uma nova forma de pensar e trabalhar na era pós covid. O grupo é fechado e foi inicialmente dirigido a 60 pessoas com relação profissional e afetiva entre si.

O AÇÃO COOPERATIVISTA de 60 pessoas no dia 14 de Abril, passou a quase 2000 no dia de hoje. Essa teia rizomática de ligações e afetos, inimaginável, maravilhosa, foi muito mais longe do que esperávamos e já não a controlamos mais, é livre.

Mas a verdade é, que eu apenas fui a pessoa que abriu o Ação e colocou perguntas: como vamos viver, o que podemos fazer. Sem o grupo de trabalho incrível e resiliente, que se formou naturalmente, o movimento não persistiria nunca. Esse grupo, que agora chamamos de grupo facilitador, tem trabalhado nesta frente sem interrupção e juntos pomos tudo isto em ação, para além da dinâmica que se estabeleceu com outros grupos, como o Intermitentes Porto Covid, o Artesjuntxs, o Independentes, mas pouco!, e com todos os membros do Ação Cooperativista.

O grupo facilitador inicial, é composto por: Ana Rocha, Claudia Galhós, David Marques, Filipa Francisco, Teresa Coutinho. A Raquel André esteve muito envolvida no grupo facilitador até há pouco tempo e o António Pedro Lopes deu uma mão preciosa.. Seremos mais muito em breve. A ideia é usarmos a rotatividade dos membros para conseguirmos aguentar e para trazer novos posicionamentos e frescura.
É muito trabalho diário, muita pressão diária, muita frustração. Trabalhamos em gestão horizontal e queremos muito promover a autonomia de ação de todos os 2000 membros do grupo.
Diria que neste momento,a função do Ação Cooperativista passa por ser um movimento facilitador, ou agregador de dinâmicas de cidadania livre, de pensamento e pressão no âmbito das políticas culturais, informação e apoio direto a quem necessita.

Quais as principais iniciativas do grupo?
Logo no inicío da formação do grupo, surgiu um excel promovido pelo David Marques que permite que algumas pessoas em carência de bens alimentares e outros, possam contactar com quem ainda pode ajudar.

Quisemos também de imediato promover uma relação de união setorial. Como já disse na pergunta anterior, fomos encontrando pelo caminho outras pessoas, como a Carla Bolito e a Tania Guerreiro, e grupos como o nosso, que batalham nas mesmas frentes, os INTERMITENTES PORTO COVID, o INTERMITENTES, MAS POUCO!! entre outros e chegámos ao diálogo com os grupos mais formais experientes nas lutas políticas e direitos laborais e representativos do setor, como a Fundação GDA; Plateia – Associação de Profissionais das Artes Cénicas; CENA-STE – Sindicato dos Trabalhadores de Espectáculos, do Audiovisual e dos Músicos; Performart – Associação Para As Artes Performativas em Portugal; Acesso Cultura; REDE – Associação de Estruturas para a Dança Contemporânea;, e outros formais e informais como PRECÁRIOS INFLÉXIVEIS, ARTESJUNTXS, ARTISTAS100%, CPA, M.U.S.A.

Surge assim o documento UNIDOS PELO PRESENTE E PELO FUTURO DA CULTURA EM PORTUGAL. A promoção deste encontro e posterior texto, foi a nossa primeira ação de pressão, assim como o BRANCO VIRAL, que o António Pedro Lopes concebeu e que inundou as redes e chegou a milhares de pessoas.

Queremos dar continuidade a atividades que articulem a criação de grupos de trabalho que promovam tanto o pensamento crítico e político, no presente e futuro das artes, e ações concretas de ativismo, como também incentivamos a colaboração com outras estruturas tanto de criação como de ação política.
Fazemos, como tem acontecido até agora, reuniões zoom regulares. A nossa última reunião teve 70 pessoas a assitir e a participar.

Foi difícil chegar a acordo entre as 14 estruturas que assinaram o comunicado“ #UNIDOSPELOPRESENTEEFUTURODACULTURAEMPORTUGAL”?
Foi, claro, demorámos uma semana. Há toda uma experiência de anos destas estruturas, na luta política pelos direitos laborais, há uma argumentação política muito concreta, muito sólida, de grupo para grupo, que se deve respeitar e é preciso chegar a consenso. A nossa primeira proposta de argumentação era demasiado específica e não era abrangente, talvez fruto da nossa inexperiência no discurso político. Mas foi incrível quando se chegou a um texto consensual. Foi uma espécie de respiração conjunta muito necessária nos dias de hoje. Acredito que só será possível mudar alguma coisa se nos mantivermos juntos por aquilo que nos une. Esta relação unificadora tem sido uma aprendizagem muito importante e desejo-lhe continuidade para além da era Covid.

Quais as principais reivindicações deste movimento?
As medidas anunciadas, de proteção da SS para trabalhadores independentes e as medidas de apoio de emergência do Ministério da Cultura, estão a deixar de fora muitos trabalhadores independentes, mesmo sabendo dos reajustes recentes dos apoios da SS. Os apoios de emergência do MC não são suficientes, não são inclusivos devido à sua lógica concursal. Um apoio de 300€ da SS não é suficiente para profissionais que perderam 100% da atividade. Mesmo com as compensações das iniciativas privadas da FCG e da GDA, nunca será suficiente, somos milhares. E não estamos a falar só do setor cultural, a questão da SS e das leis laborais são transversais a todos os trabalhadores independentes

Por outro lado também já sabemos a dramática situação de anos de suborçamentação crónica do Ministério da Cultura, e a situação de hoje deve-se em parte a este factor.
É urgente que as leis gerais do trabalho sejam revistas, retrabalhadas, mudadas e que permitam que todos os trabalhadores da cultura e das artes sejam abrangidos. Temos lógicas de trabalho excecionais e uma delas é a intermitência.

Na minha perspetiva, penso que numa situação de calamidade mundial como esta, todos os governos deveriam ter pensado num tipo de sistema de apoios de emergência inclusivos e incondicionais

Quanto às principais reivindicações do texto #unidos, apela-se à criação de uma estratégia a curto, médio e longo prazo para a Cultura e para as Artes, passo a transcrever:
A implementação de medidas de emergência que garantam uma efetiva proteção social, tendo em vista a consagração legislativa da especificidade de intermitência do trabalhador da Cultura e das Artes; A disponibilização de um Fundo de apoio de emergência com valores dignos, adequados à dimensão e ao impacto da situação de emergência no setor. Paralelamente, este é o momento da criação das bases para: Legislar, adequando a uma perspetiva de futuro, as medidas específicas geradas pela situação de emergência, incluindo também a contratação pública; Mapear o território cultural e artístico e a construção de uma verdadeira política cultural.

Já se notam resultados da iniciativa?
Acho que o grande resutado da iniciativa é, numa primeira instância, a materialização de uma união setorial. Ainda não percebemos ao certo se há resultados concretos sobre o texto #unidos, mas tenho a certeza que o MC e os grupos parlamentares tiveram acesso ao texto. Sabemos que a ação viral do facebook a branco foi mediática, chamou à atenção da sociedade civil para o problema dos traballhadores da cultura e das artes. Houve muitas figuras públicas a aderir. O grupo no facebook, agrega muita gente de todas as disciplinas artísticas (exceto toureiros por razões éticas óbvias, eles entram e eu saio) e profissões técnicas inerentes às artes, que estão mobilizados e com muita vontade de mudança e união.

O que é que as pessoas podem fazer individualmente ou em grupo para ajudar quem está a passar dificuldades?
É importante estarmos muito atentos aos outros e a sinais de precaridade. Não é óbvio, há muita vergonha em assumir que precisamos de ajuda. É preciso disponibilizar ajuda e torná-la visível. DaÍ os grupos virtuais, que são as plataformas mais imediatas a que se pode recorrer, serem importantes, porque há muita informação sobre todos os recursos. Desde a caixa solidária, grupos privados de ajuda a trabalhadores do setor, cantinas solidárias, crowdfundings, o excel de contactos que temos no grupo, há muita coisa a procurar. É preciso ter consciência que somos todos nós, sociedade civil, que estamos a tomar conta uns dos outros, quando também todos estamos em carência, o que é absurdo, quando é o estado que deveria estar em ação. Mas é preciso que ninguém largue a mão de ninguém. O Estado Social não está a cumprir a missão na sua totalidade quando não nos encara a todos como trabalhadores com os mesmos direitos apesar de ser implacável no que diz respeito ao cumprimemto das nossas obrigações.

Como antevês o futuro próximo do sector cultural e dos seus trabalhadores?
O verdadeiro embate ainda está para vir, ainda estamos a esgotar os poucos recursos que temos, e ainda não conseguimos perceber muito bem qual a verdadeira dimensão da situação. Daqui a uns meses vamos perceber. Pessoalmente não me encontro com motivação nenhuma para criar ou para entrar em processos de criação e trabalho habituais e encará-los como se não tivessemos a atravessar uma crise única. A minha especificidade profissional e artística, por exemplo, implica pessoas, corpos em contacto. A minha peça tem 13 pessoas. A peça do Francisco Camacho, na qual sou bailarina, tem quase 20 pessoas e muitas delas grupo de risco pois são idosos. Não faz sentido trabalhar nesta configuração e relação, palco-público, enquanto não existir tratamento ou vacina. Não é sequer ético. Acho importante olhar para toda esta impossibilidade como uma forma de questionar os moldes em que trabalhamos, tanto numa perspetiva artística, como política, laboral ou relacional. Interessa-me muito uma lógica cooperativa, mutual, de partilha de recursos, interessa-me pensar no RBI, e penso que já há muita gente a pensar nisso.
Entretanto há também muita gente a passar fome, muita gente sem recursos, muita gente a perder tudo. Precisamos de ajuda mas também sabemos como podemos ajudar.
Se o Estado não investir numa proteção social efetiva imediata, entraremos em estado de calamidade social sério, entraremos em colapso.

Acabei de saber que o Novo Banco recorreu a um emprestimo público de 800 milhões.
I rest my case.

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Comments

  1. Teresa Milheiro says

    Concordo com tudo o que é dito, revejo-me em quase tudo, partilho das mesmas preocupações e quero saber como posso ajudar e participar.

  2. João Pedro Gomes Rodrigues says

    Excelente iniciativa. Estamos juntos. Vou tentar através do Facebook integrar e perceber como posso ajudar. grande abraço-

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