Carolina Vicente – Entrevista

O Open House Lisboa oferece a um público alargado o livre acesso à arquitectura da cidade. Durante um fim-de-semana, e através de um roteiro novo todos os anos, celebra os melhores exemplos de arquitectura um pouco por toda a cidade, dos espaços privados aos públicos, contemporâneos ou históricos. Conversamos com Carolina Vicente coordenadora do evento.

Fala-nos um pouco do tema escolhido para o Open House Lisboa, “A Rebeldia do Invisível”
Se o exterior dos edifícios está limitado pelas normas urbanísticas para a preservação de uma identidade colectiva, os interiores são do domínio privado, revelando um património invisível que evolui de forma mais livre e que responde a uma diversidade de vivências. Os interiores formam uma segunda linha, um campo de criatividade e transformação do espaço mais expressivo, criando edifícios gradualmente mais ambíguos. O tema centra-se nesta dualidade entre a intervenção interior e exterior.

Alguns projectos de arquitectura propõem novas leituras e interpretações mais contemporâneas, outros são aparentemente mais conservadores e privilegiam uma arquitectura do passado.

As fachadas “da continuidade” são mudas relativamente às novas formas de habitar, apenas visíveis no interior. A lista de espaços que apresentamos nesta 11ª edição do Open House Lisboa dá a conhecer edifícios modestos transformados numa única residência ou subdivididos em apartamentos, palacetes convertidos em hotéis, escritórios, bibliotecas ou até uma quinta setecentista convertida em museu. Esta selecção tem como objectivo revelar vários exemplos de transformações interiores para o conjunto reflectir a cidade onde actualmente vivemos ou trabalhamos. Esta 11ª edição do Open House sublinha esta identidade invisível que também caracteriza as duas cidades que o roteiro abrange: Lisboa e Almada.

Podemos aliás fazer um paralelismo com figuras da literatura. Por exemplo, o Fernando Pessoa na rua era um senhor igual a tantos outros, compostinho, mas depois a sua genialidade expressava-se numa grande explosão interior. Há muitos edifícios que escondem uma explosão interior. Neste Open House, convidamos visitantes a explorar o que está por detrás destas fachadas compostinhas.

Como decorreu o processo de escolha da programação?
A escolha inicia-se com a definição do conceito. A Rebeldia do Invisível foi o fio condutor para a escolha dos espaços bem como dos especialistas que convidámos. Uns vão conduzir visitas aos edifícios para descobrir segredos e curiosidades e outros conceberam percursos urbanos, que são feitos a pé para uma experiência singular da cidade. A exploração da cidade pelo espaço público é também uma das tónicas deste evento internacional que reúne mais de 50 cidades pelos cinco continentes. E podem ainda descobrir um álbum de viagens muito pessoal do Cais do Sodré ao Rossio, através de um passeio sonoro da autoria do fotógrafo Daniel Blaufuks (já disponível https://www.trienaldelisboa.com/ohl/evento/do-cais-do-sodre-ao-rossio/ )

O evento inclui ainda uma programação paralela que conjuga actividades Júnior com visitas sensoriais para pessoas cegas, com baixa visão ou deficiência cognitiva de modo a envolver um público alargado num evento que não quer deixar ninguém para trás.

O processo de escolha da programação privilegia bastante projectos contemporâneos, abrindo portas a um conjunto de espaços inéditos.

Para onde se aponta o foco este ano?
Nesta edição mostramos uma diversidade de exemplos de arquitectura de excelência. Por um lado, põe-se em diálogo duas cidades (Almada e Lisboa), cada uma com a sua identidade. Por outro lado, o programa foca a dualidade que existe entre as fachadas exteriores de continuidade, condicionadas pelas normas urbanísticas, por oposição às intervenções no interior que expressam uma maior liberdade de projectar.

Como se vai processar este fim-de-semana de atividades?
De acesso gratuito, o programa alia visitas a espaços, percursos urbanos, actividades para as famílias, visitas acessíveis e eventos plus. A participação é muito simples: as pessoas escolhem o que querem ver, e entram por ordem de chegada dentro dos horários de abertura de cada espaço. As visitas têm durações variáveis, dentro de um horário que difere de espaço para espaço. Apenas 22 dos espaços requerem marcação prévia, que é feita online. A adesão tem sido sempre incrível e as marcações estão quase todas esgotadas.
Toda a informação está disponível no site www.openhouselisboa.com e, no fim-de-semana são distribuídos gratuitamente mapas e guias com toda a programação.

O que destacas da programação do Open House Lisboa 2022?
Bem é sempre difícil eleger alguns em detrimento de outros.

De novidades, podemos destacar a Sinagoga Shaaré Tikvá, situada no largo do Rato; o surpreendente Museu Militar – Casa dos Gessos que foi construído propositadamente para albergar o molde em gesso da estátua equestre do Rei D. José; a visita em Língua Gestual Portuguesa realizada por Carlos Martins ao Palácio Sinel de Cordes que foi uma embaixada, uma escola e agora é um pólo cultural; o Palácio dos Condes de Tomar onde reside o centro cultural da comunidade Brotéria, nome da revista de ciências naturais criada há 120 anos pelos jesuítas portugueses; o Teatro Thalia por ser um espaço insólito que conjuga uma arquitectura neo-clássica e contemporânea; o Palacete António José Gomes em Almada que alberga uma escola de música onde vais estar a decorrer uma performance em contínuo.

Para as famílias, propomos uma actividade ao Palácio do Ega com desafios descontraídos para crianças dos 6 aos 12 anos que acontece sábado, às 11h.

Conseguiram resposta para a pergunta “Se retirássemos as fachadas, que Lisboa ficaria à vista?”?
Sem dúvida! Mas a resposta será dada pelos visitantes durante o fim-de-semana de 14 e 15 de Maio.

O que define a identidade de uma cidade?
Uma cidade pode ser definida pelos ícones arquitectónicos, como também se pode revelar pela massa anónima construída. Ou seja, uma cidade é reconhecível pela sua métrica, pelas características de luz, cor, escala, materiais ou padrões que têm origens geográficas, sociais, culturais e simbólicas.
Daí que a rua «banal» pode imediatamente ser reconhecida como pertença de uma cidade. Essa identidade está em permanente transformação e cada novo projecto é uma contribuição para este património colectivo. A identidade da cidade é a combinação do que é visível e invisível.

Peço-te um desejo para Lisboa, para os tempos mais próximos.
“Que os filhos da cidade consigam morar nela.” Este é o desejo expresso pelo comissariado do Open House Lisboa 2022, assumido por Sérgio Antunes e Sofia Couto do atelier Aurora Arquitectos.

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