Catarina Molder – Entrevista

Conversámos com a Diretora Geral e Artística do Operafest Lisboa, Catarina Molder, para saber mais sobre este festival dedicado à ópera, que surge com o objectivo de colocar Lisboa no mapa dos festivais de verão deste tipo de arte. Falou-se sobre as origens do festival, sobre a edição inaugural que acontece de 21 de agosto a 11 de setembro, sobre o que esperar da programação e sobre atrair novos públicos.

Antes de mais, como estás a viver estes tempos únicos?
A tentar levar as coisas para a frente da melhor maneira possível. Não sou pessoa de entrar em pânico, prefiro utilizar essa energia em ter cuidado, estar atenta e avançar.

Fala-nos um pouco do teu percurso artístico.
Tenho uma formação de cantora lírica, sou um soprano, também fiz formação fora do país como bolseira da Fundação Calouste Gulbenkian e do governo alemão. Mas um cantor lírico continua a ter de ir ao treinador, é como um atleta de alta competição e é actor. Adoro a faceta de ser uma actriz cantante ou uma cantora atriz. O enredo, o personagem, a fusão do personagem vocal e físico, é um trabalho apaixonante, onde se vai fundo em nós próprios, é uma viagem que nunca acaba. Gosto de lançar os meus próprios projectos, sempre me preocupei com o facto de sentir a minha forma artística muito fechada sobre si própria, e estarmos sempre a cantar o mesmo repertório, estarmos distantes do público de hoje. Ainda em formação comecei a questionar, a criar os meus próprios espectáculos que seguem também as minhas preocupações estéticas e artísticas. Sou uma cantora lírica, directora artística, gestora, gosto de interferir no processo da encenação, porque o cantor lírico, que é um cantor/actor deve e pode nele participar. Os grandes encenadores sabem muito bem utilizar as soluções que os cantores colocam ao seu dispor, ao longo do trabalho. E embora não seja habitual um cantor também pode encenar. Passámos de uma supremacia das divas e dos divos – do cantor, para a supremacia do encenador e o cantor foi parar ao fundo da cadeia. E de encenadores de teatros que muitos vezes não fazem ideia do que é a ópera e pensam que ao destrui-la estão a ser muito originais e vão captar novos públicos , falo a nível internacional. Em países como a Alemanha, o país que mais ópera produz no mundo, com mais de 100 teatros em funcionamento, tem-se perdido imenso público da ópera, nos últimos 20 anos por causa desta estirpe de encenadores que tornam a ópera uma coisa caricata e sem sentido. Claro que os grandes encenadoresde ópera, são grandes pessoas de teatros, mas conhecem muito bem a matéria prima em que se movem, tornam-se altamente especializados, é como em tudo na vida, só conhecendo muito bem se consegue ser muito bom e visionário.

Como surgiu a ideia para o Óperafest Lisboa e qual o seu principal objectivo?
Já há muitos anos que queria finalmente colocar Lisboa no Mapa dos Festivais de Ópera de Verão, fruída ao ar livre, tirando partido da sua escala equilibrada, do seu excelente clima e património arquitectónico, numa altura do ano em que normalmente não existe oferta e em plena época alta turística, no mês de Agosto e ainda apanhar a reentré dos teatros. Um Festival com vários parceiros de programação, uma Festa da ópera na cidade e para todos!

Os principais objetivos é dinamizar o mercado operático português muito estagnado, aposta a 100% no talento nacional: cantores, músicos, criativos, estimular novo repertório, novas óperas, novos compositores, estreitando a relação da ópera com o público de hoje. Estamos a fazer serviço público, com dinheiro do nosso bolso.

O facto do festival surgir num ano atípico é um risco ou uma oportunidade?
É um grande risco, não saber se o festival vai mesmo acontecer, trabalhar com plateias a menos de 50% quando cerca de 65% do nosso rendimento vem do retorno de bilheteira. Estar a tentar fazer arte com todos os condicionantes e ansiedades do distanciamento e o fantasma do contágio. Mas também é uma oportunidade, conseguimos trazer dois tenores fantásticos, que num ano normal jamais poderiam vir porque estariam a cantar noutros locais. Também ficamos felizes por pensar que num ano tão difícil conseguimos trazer ópera a Lisboa, ao país e mesmo a nível Europeu somos dos pouquíssimos festivais que até agora resistiu ao covid, pela nossa escala, altura do ano em que nos propomos acontecer, flexibilidade e vontade.

O mote desta primeira edição é «Quanto pior, melhor». Em que sentido?
Criei uma série televisiva Super Diva ópera para todos, para a RTP2 e várias vezes saiu-me esta frase para explicar que na ópera quanto mais trágico melhor. A matéria trágica funciona particularmente bem neste género, tão intenso. As dores humanas, o sofrimento, a traição, o engano, quanto pior, melhor, mais a catarse “opera” a sua magia. A ópera vem da tradição da tragédia grega, tem esse pilar primordial e humano.

O que destacarias da programação?
A nossa programação cruza tradição e vanguarda vai da Tosca de Puccini (21-28AGO) que Lisboa não vê à doze anos, um triller operático a não perder, uma ópera perfeita para introduzir alguém a este género, ao um concurso de ópera contemporêna – Maratona Ópera XXI (30 AGO a 4 SET), com 7 breves óperas em estreia absoluta para se ficar a conhecer as novas da nova geração de compositores talentosos, passado por uma gala de ópera com muita traição e engano, com o tenor Rodrigo P Garulo (25 AGO), uma Rave operática com distanciamento social em que o mundo da ópera funde no pop (5 SET) e Cine-ópera (7-11 SET) com versões emblemáticas de grandes óperas.

A que actividades paralelas poderemos assistir?
No que chamámos Ópera Satélite: às conferências da filósofa Maria Filomena Molder – o Jogo da Vida , em torno do tema desta primeira edição do Operafest da traição e do engano (9 SET, 18h00) ou “Mulheres à beira de uma ataque de nervos”em torno das heroínas mortíferas pelo musicólogo Rui Vieira Nery ou ainda um Debate sobre a Dramaturgia na construção do libreto, com vários intervenientes (6 SET)

O festival cruza influências com outros estilos musicais e também com outras disciplinas artísticas. Fala-nos um pouco desses cruzamentos.
Sim o ciclo ópera satélite apresenta novos olhares e cruzamentos com a ópera e a Rave operática faz a fusão do mundo pop com a ópera, trazendo para o palco misturas líricas que já tinha experimentado na minha série Super Diva, com músicos de vários quadrantes, mas também hapenings operários, homenagens a Klaus Nomi e Nina Hagen e terminamos com a micro-ópera orgástica Prazer, em torno da sonoridade/intensidade emoção do orgasmo, composta pela compositora Ana Seara.

De que forma se podem conquistar novos públicos para a ópera?
Com uma programação variada, ultra abrangente que quer ir ao encontro de todos, sempre com qualidade, ousadia e amor!

Mais sobre o festival em http://www.operafestlisboa.com/pt/

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Comments

  1. António Lourenço says

    Penso que estas iniciativas, são algo de muito revolucionário na ópera, organizadas e geradas por alguém que tem no sangue, a grande paixão pela ópera!!!

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