Catarina Saraiva – Entrevista

Catarina Saraiva é a curadora da edição de 2019 do Festival Verão Azul, que acontece nas cidades algarvias de Loulé, Faro e Lagos. Até dia 2 de Novembro o público tem uma vasta oferta de Teatro, Dança, Performance, Concertos, Artes Visuais, Cinema, Workshops e Masterclasses por onde escolher. Conversámos sobre o seu papel de curadora, sobre as linhas de programação desta edição, sobre descentralizar, e sobre muito mais.

O que esteve na base da decisão para tornar o Festival Verão Azul bienal?
A necessidade de fazer uma ligação mais profunda com o território, de poder olhar, respirar e sentir o que se passa e de estabelecer diálogos que façam sentido. Estamos sempre a ser induzidos a produzir e ter resultados e isso não nos permite fazer as reflexões adequadas no tempo necessário. Um ciclo bienal dá-nos a possibilidade de convidar artistas a deslocarem-se, com as suas criações, em residência ao Algarve, de estabelecer relações com o território, as pessoas e as organizações que as habitam e, através da criação, entender as necessidades da região, ao mesmo tempo que se mapeiam artistas e parceiros.

Qual a tua visão curatorial sobre o Festival?
Pela primeira vez estabelecemos um tema que, não sendo limitador sobre o que programamos, pretende chamar a atenção sobre uma questão social importante. Queremos falar de Antropoceno e por isso, estabelecemos um programa onde muitas das obras abordam este tema desde perspetivas muito distintas: umas diretamente, outras mais poéticas, outras desde outros centros que não diretamente o Antropoceno mas outros conceitos que derivam daí. Nesse sentido, desde 2017 que definimos este rumo porque consideramos que o Algarve é uma região onde o ambiente é altamente influenciado pela ação do Homem. Para mim, uma curadoria deve estabelecer esta relação com o contexto local, sem esquecer quais as questões globais às quais todos nos relacionamos. E creio também importante chamar a atenção sobre como a arte pode e fala, de uma forma muito concreta, sobre assuntos que interessam a todos. Neste sentido, ao desenvolver esta curadoria, que foi feita juntamente com a Ana Borralho e o João Galante, pensamos em espetáculos e artistas que nos interessam e que podem abordar este tema desde perspetivas distintas. Mas também consideramos importante que não seja limitador, isto é, muitos dos espetáculos que programamos e artistas que apoiamos, não tem o seu foco neste tema mas, como este é um tema tão vasto, sempre encontras uma história para contar à volta do que se está a passar no mundo.

Quais as principais linhas de força da programação de 2019?
Tudo é importante no festival. O festival continua a ser multidisciplinar porque é importante poder mostrar narrativas experimentais em disciplinas artísticas diferentes, mas este ano fizemos novas experiências: para além de assumir um formato bienal, coproduzimos artistas nacionais, convidámos artistas estrangeiros para permanecer no festival durante duas semanas e tentámos fazer com que alguns dos artistas possam acompanhar o festival durante alguns dias e estabelecer relações com o público.

Pela primeira vez criámos uma programação alternada entre duas cidades, Faro e Loulé, de forma a provocar o público a deslocar-se e não se confinar ao seu território mais próximo, criámos pontos de encontro em ambas as cidades, para que fosse possível tornar a ideia de festival e de encontro mais fácil. Mas talvez a principal seja a construção de relações com o território que fazem pensar a região e as atividades de uma forma mais parceira. Nesta edição, estabelecemos de uma forma mais alargada várias relações com organizações da região, para além dos nossos parceiros óbvios que são o Teatro das Figuras, em Faro, o Cine-Teatro Louletano e Câmara Municipal de Loulé, e a Câmara Municipal de Lagos. Criámos novas forças com a Associação 289, em Faro, e com o Loulé Design Lab, em Loulé; com várias organizações independentes da região, como a Mákina de Cena e Academia IluminArte; seguimos no fortalecimento das que já existiam com o TEL – Teatro Experimental de Lagos, Companhia de Dança do Algarve e o LAC – Laboratório de Actividades Criativas; e o que nos permitiu ter o festival com esta dinâmica foi o apoio que tivémos por parte do programa 365 Algarve, que alia turismo e cultura, uma iniciativa das Secretarias de Estado da Cultura e do Turismo, com financiamento do Turismo de Portugal.

Contudo, creio que a grande força é continuar a fazer-se, sem desistências, procurando novos formatos de aproximação entre arte e sociedade, e experimentando também esse lado.

“A Laura Quer!”, de Sílvia Real em co-criação com Grupo 23:Silêncio! e Francisco Camacho / © Filipe Farinha

Em que se traduzem as co-produções nesta edição?
As coproduções traduzem-se em 3 espetáculos que foram apresentados no festival: “Colecção de Artistas”, de Raquel André, “Entre Cães e Lobos”, de Gustavo Ciríaco e “A Laura Quer!”, de Sílvia Real em cocriação com o Grupo 23: silêncio! e Francisco Camacho. Há duas coisas que são importantes para nós, podermos aliar este ciclo bienal ao apoio à criação, mais fácil quando temos parceiros como o Cine-Teatro Louletano e o Teatro das Figuras que nos apoiam no acolhimento destes artistas e inclusivamente se tornam também coprodutores, ao se aliarem connosco neste desafio. Por outro lado, trazermos artistas ao Algarve (Loulé, Faro e Lagos) com criações que necessitam de estabelecer uma relação com as pessoas e, dessa maneira, em fazê-las também entender o que significa criar e como podem, de alguma forma participar nesse processo, ter as suas vozes aí dentro.

Para além destas coproduções, o ano passado também tivémos a Cátia Pinheiro em residência em Lagos e Loulé, para que fizesse um “The Walk#2” especificamente para as duas cidades e fizémos um shock lab – um encontro entre criadores (locais, nacionais e estrangeiros) de onde resultou a apresentação, nesta edição, de um dos processos que foi apresentado nesse laboratório, da jovem criadora polaca Paulina Szczesna.

Queres fazer um destaque nacional e um internacional?
Não é possível fazer esses destaques, não acho justo para com os artistas e as pessoas definir o que devem ver e o que pode ser melhor ou pior. Prefiro que cada pessoa procure no programa aquilo que lhe pode dizer mais. O programa é tão variado que é impossível que não haja algo que lhe diz ou com o qual se pode conectar: há música, cinema, teatro, performances, dança, espetáculos infanto-juvenis, exposições e projetos de rua.

Destacamos as nossas coproduções porque são apostas que fizémos em artistas que gostamos, mas também nos alegramos em apresentar grandes nomes internacionais, ao lado de nomes totalmente desconhecidos, músicos com uma relevância a nível nacional que são locais e não só, projetos fora do comum. Creio que nesta região, as pessoas não ligam a nomes da mesma forma que em Lisboa, assim que dizer que temos um Leão de Veneza na programação significa tanto como ter um performer local que é o máximo no seu bairro. É um programa em que as pessoas têm que assumir que podem fazer escolhas e é o melhor porque não há nada que seja ininteligível.

Fala-nos um pouco da ligação com a comunidade local
Creio que ao longo desta entrevista já mencionei essa importância que estabelecemos de distintas formas durante este ciclo bienal mas também continuamos essa ideia durante o festival. Por exemplo, o André Uerba fez um espetáculo cujos intérpretes são locais, a relação que as intérpretes (porque eram todas mulheres) estabeleceram com formas de fazer arte foi muito importante para as mais jovens; o coletivo chileno Mil M2 (Mil Metros Quadrados) esteve durante duas semanas a trabalhar com várias comunidades em Faro e Quarteira, fazendo perguntas para dar voz às suas angústias. Este trabalho resultou em ativações na rua de um grande dispositivo para colocar perguntas, mas também num fanzine que estão a terminar, para que enviemos a todos os que participaram e à Câmara Municipal de Faro e Loulé.

Estabelecemos um grupo de conversas e escrita sobre os espetáculos que foi coordenado por mim e pela Fulvia Almeida, artista e jornalista de Faro e que permitiu uma ligação forte do público com o festival. Fizemos vários workshops e masterclasses, que é também uma forma de fazer com que os artistas do festival possam expôr as suas práticas a outros e trocar ideias sobre as mesmas. Todo o festival pensa, desde há muito tempo, em estratégias de envolvimento com as comunidades locais através das artes. É um processo longo porque muita coisa está adormecida…

“Colecção de Amantes”, Raquel André / © Tiago de Jesus Brás

Porque é que é importante descentralizar?
Precisamente porque todos devem ter acesso a arte. O Festival Verão Azul é um objeto estranho no Algarve porque concentra durante um período de tempo uma programação que não é mainstream, que trabalha discursos críticos, que pretende provocar as pessoas a sair da sua zona de conforto. O festival foi montado há 9 edições precisamente sobre a ideia de que a Ana Borralho, que é de Lagos, ter crescido numa cidade onde não existia acesso a este tipo de linguagens mais experimentais ou críticas (prefiro esta palavra). Desde o seu início, o festival nunca foi paternalista, mas teve sempre cuidado em criar um espaço para se relacionar com as comunidades e públicos com que trabalha. Em Lisboa e Porto acontece muita coisa ao mesmo tempo. Não há espaço para que toda a gente veja tudo, os espetáculos ficam muito pouco tempo em cena, enquanto que fora destes centros, há um marasmo muito grande de programação e, como tal, as pessoas habituam-se a fazer outras coisas. O trabalho de sedução é mais difícil precisamente por isso: porque vou sair de minha casa, onde tenho uma série para ver, se amanhã já não tenho mais nada para ver? Se existir uma política real de descentralização, os públicos aparecem e a massa crítica desperta. Por outro lado, como é difícil para os artistas locais encontrar parceiros e financiamentos, há muitas pessoas que trabalham em arte que o fazem em part-time, o que não permite que sejam desenvolvidos mecanismos de aprofundamento da produção artística.

Como vês o estado atual das artes performativas em Portugal?
Existe uma produção muito interessante, um pensamento real sobre o que é arte e como se relaciona com a sociedade. Portugal tem criadores com muita qualidade e que facilmente podem circular nacional e internacionalmente, isto é, se quisermos usar uma linguagem mercantilista, temos artistas muito bons “para exportar”. E, sabemos todos, este é o destino de muitos artistas porque não existe um circuito nacional a sério, a não ser que agora o projeto para a Rede de Cine-teatros funcione de verdade.

Infelizmente, não existe uma compensação por esse trabalho. A maior parte das pessoas que trabalham em arte são muito precárias, ainda que façamos todos um serviço público, com os nossos anos de experiência e educação recebemos menos que qualquer funcionário do estado.

Assim que, enquanto há cada vez mais e melhores artistas, continuam a faltar mecanismos nacionais e locais de apoio a esses intervenientes. Por exemplo, podemos ver o que aconteceu com o programa de Apoio a Sustentados, que deixou de fora projetos com grande potencial e qualidade por falta de dinheiro. Como é possível esta falta de visão? Por outro lado, pelo país, existem algumas câmaras que têm linhas de apoio ao associativismo local ou a atividades culturais mas que estão muito fora do entendimento do que é um trabalho profissional em artes. Creio que no Algarve, nomeadamente em Loulé, Faro e Lagos temos muita sorte em ter intervenientes de qualidade e com um entendimento muito claro do que significa apoiar as artes mas isso não se passa em todo o lado.

Resumindo, creio que os políticos devem ser educados a entender a sensibilidade e o significado deste setor na sociedade e os profissionais das artes devem começar a recusar trabalhar na precariedade.

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Foto de destaque: “Proyecto Pregunta”, Mil M2 / © Filipe Farinha

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