Ciclo Antipríncipes, de Cláudia Gaiolas

Todos os dias somos bombardeados por feitos heroicos de personagens ficcionadas que deitam raios laser pelas vistas ou cuja força é capaz de parar um comboio em pleno andamento. A elas se juntam, já extemporâneas, as divas dos contos de fadas cujo pó se torna cada vez mais premente sacudir. Apesar de assistirmos a um crescente esforço, da parte dos grandes franchises, para tornar cada vez mais inclusivas as histórias que contamos às gerações mais novas, ninguém o faz como Cláudia Gaiolas.

Para gáudio de muitos professores e famílias – pese embora a preocupação de um ou outro tutor mais conservador – pude assistir, no mês de junho, à estreia da mais recente coletânea da intérprete e criadora do aclamado ciclo Antiprincesas que levou, no passado, narrativas de emancipação de ícones femininos da nossa era a vários pontos do país, e para públicos diversificados.

Continuando na senda de contar as vidas que merecem ser contadas, a criadora apresentou agora o Ciclo Antipríncipes sob a mesma premissa do anterior: revelar as histórias dos que tiveram de lutar, mais em público ou em segredo, pela sua arte, pela sua vida e pelo direito universal de amar o Outro.

Antipríncipes estreou na Base Aérea nº11 de Beja sob o signo de Alan Turing. Tendo como público as escolas das planícies alentejanas envolventes, Cláudia Gaiolas serviu-se de um dos hangares da Força Aérea Portuguesa para apresentar uma sólida dramaturgia que abordava a importância do segredo, quer num cenário de guerra, invocando o contributo de Turing para a vitória dos Aliados, quer no plano pessoal e íntiMo.

Segui logo logo para Serralves — não sem antes parar para almoçar no Lado B — onde assisti a Antipríncipes: Keith Haring. Nele, através das gravuras do próprio artista ­— para uns, minimalista, para outros, simplista — a criadora contou, na sombra de uma pandemia, a história de uma outra, uma mais silenciosa e socialmente menos democrática, a pandemia do HIV. Apesar do tema sensível, foi notável o uso da iconografia do artista, sendo oportuno sublinhar o momento no qual, após ter pedido à sua plateia que colorisse várias figuras haringuianas, Gaiolas deixou aberta a pergunta: qual destes, se é que me conseguem dizer, é portador de HIV?

Na semana seguinte teve lugar a terceira performance do Ciclo. O deslumbramento e a curiosidade dos jovens ao entrarem, pela primeira vez, numa prisão do Estado Novo (Forte de Peniche) serviu de mote para introduzir a narrativa simultaneamente deslumbrante e decadente de Oscar Wilde onde a artista, num registo mais próximo de um De Profundis, refletia com a plateia sobre temas como a liberdade artística e a homossexualidade, sem qualquer tipo de preconceito ou facilitismo.

Fechando o mês com grande pompa e reservando o tchanan para o lugar que é seu por excelência, terminou o périplo na afamada discoteca lisboeta Finalmente, onde deu corpo e voz – e que voz! – a Malcolm Michaels Junior, mais conhecido pela sua persona pública Marsha P. Johnson, ativista negra não binária mais conhecida pelo seu envolvimento nos motins de Stonewall. Num espetáculo de luz, cor e purpurinas, com um texto simultaneamente Pedagógico e provocante, Cláudia Gaiolas deixou o púbico pré-adolescente que a acompanhou completamente extático. De sublinhar que a credibilidade e o poder do espetáculo apresentado fizeram mesmo com que uma família, arrastada por um patriarca mais inseguro relativamente aos temas expostos, abandonasse o bar a meio do segundo playback de I will survive.

Cláudia Gaiolas mostra-nos assim, novamente, a importância de contar histórias de forma original, criativa e contundente, sem nunca perder a pertinência e o sentido de humor. São vidas que, por ultrapassarem contingências inimagináveis, transbordam poética e grandeza – conceitos que a criadora sabe tão bem apreender e devolver.

Critic@ Sombr@
sombra.critic@gmail.com

@ autor@ não escreve ao abrigo do acordo com a realidade.

Para o comprovar reveja as críticas anteriores:

V, dos auééu

A Batalha de Aljubarrota, de Ricardo Neves-Neves

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