Cinco dias em Guadalajara

Por Ricardo Viel

DIA 1: Sábado, 24

«O interesse neste evento superou as nossas expectativas, pedimos desculpas àqueles que não puderam entrar e cumprimentamos os que assistem a partir do lado de fora», escuta-se no átrio do auditório do Pavilhão de Exposição da Feira Internacional do Livro de Guadalajara, a FIL. Quem diz estas palavras é o moderador de uma das mesas que acontecem em simultâneo nesta tarde de sábado, primeiro dia da feira, e que é retransmitida, através de um ecrã, para aqueles que não puderam entrar.

Às cinco da tarde, além do auditório, em quatro das cinco salas montadas (e que têm capacidade para algumas centenas de pessoas cada uma), à porta, um cartaz avisa: lotação esgotada. Numa delas, a diretora da FIL, Marisol Schulz, o escritor Sealtiel Alatriste, que foi editor de José Saramago quando lhe atribuíram o Nobel, os jornalistas Hermann Bellinghausen e Lydia Cacho, e Pilar de Río, presidenta da Fundação José Saramago, estão reunidos para falar da face política do autor de Levantado do Chão. Sealtiel recorda a viagem que fez com o escritor português até Chiapas, no Sul do México, no começo de 1998, meses depois de 43 indígenas (crianças e mulheres incluídos) serem encurralados e executados por forças paramilitares. «Ele disse-me que viria ao México, cumpriria a agenda que nós quiséssemos, mas que eu tinha que lhe prometer que iríamos a Acteal visitar os seus amigos zapatistas». Visivelmente emocionado, o escritor mexicano detalhou as dificuldades daquela viagem e os relatos dilacerantes que escutaram, como o de um religioso que pediu para morrer com os indígenas. «Carlos Monsiváis afastou-se para chorar. Eu também chorava, como hoje», acrescenta.

Hermann, que era correspondente em Chiapas aquando do massacre aos indígenas, explica que só voltou ao local por causa da visita do escritor português. «Eu não queria voltar lá, era muito doloroso para mim, mas quando soube que o Saramago ia…» Conta que viu o escritor baixar-se, apanhar uma pedra e colocá-la no bolso, um gesto de quem não quer esquecer que ali esteve. «É curioso que num ano em que não haja um Nobel de Literatura falemos tanto do Nobel de Saramago, é como se lhe déssemos o prémio pela segunda vez», conclui. Lydia Cacho destaca a visão de José Saramago como alguém preocupado com os direitos das mulheres e com a violência de género. «Só alguém muito feminista poderia casar com a Pilar», brinca. Marisol Schulz termina a sessão com palavras de agradecimento a Saramago e a Pilar, segundo ela personagens fundamentais para que Portugal seja o país convidado deste ano na Feira. «Saramago plantou há anos a semente, e muito fez a Pilar para que se concretizasse».

A Feira começara umas horas antes, com a cerimónia de abertura que apresentou Portugal como país convidado de honra e teve como ponto alto a entrega do prémio FIL da Literatura em Línguas Romances a Ida Vitale, de 95 anos. No seu discurso, a poeta uruguaia fez menção à maneira calorosa como foi recebida no México durante o seu exílio, o que permitiu que se sentisse integrada no país desde o início.

Leio o material de divulgação da feira que me foi entregue e sinto uma vertigem pelos números apresentados: mais de 400 mil títulos disponíveis e cerca de 800 escritores, 450 intelectuais e académicos e 60 cientistas participarão na Feira. Com o mapa na mão tento entender a disposição das salas, dos stands, localizar o pavilhão de Portugal e perceber qual a melhor maneira de percorrer estes imensos corredores abarrotados de gente. Prestes a terminar o primeiro dia, o único que consegui minimamente visitar foi o pavilhão português. Muito bem localizado e com uma decoração de bom gosto, com a assinatura de cada um dos autores presentes em destaque em grandes telas, o espaço luso tem também uma grande livraria e um auditório.

DIA 2: Domingo, 25

Talvez fosse útil que nos folhetos com o programa da feira, e na entrada do pavilhão, figurasse um aviso nos seguintes termos: Cuidado para não pisar os leitores. É muito comum, enquanto se caminha pelo espaço, dar com pessoas pelo chão, sentadas na alcatifa, encostadas a pilares, nas paredes ou sem qualquer recosto, com livros diante dos olhos. E também há os que leem em pé. Antes do início das sessões, folheiam-se livros. Na fila para autógrafos ou para pedir algo no bar, folheiam-se livros. Aliás, a FIL deve ser o único lugar que conheço em que os telefones móveis não são soberanos no «roubo» da atenção das pessoas. Aqui os livros rivalizam bravamente com eles. Filas? Sim. Para tudo: para entrar na feira, para assistir às mesas, para os autógrafos, para comprar uma garrafa de água, para comprar um livro, para pagar o livro que foi comprado, para ir à casa de banho, para apanhar um táxi, para beber uma tequila que é oferecida num dos stands…

Tenho a impressão de que no México tudo é grandioso. Muita gente, muito tráfego, muito ruído na cidade, muito picante a comida, muito simpáticas as pessoas. No hotel em que me hospedo, com grande parte da delegação portuguesa, há uma árvore cuja circunferência do tronco exigiria pelo menos cinco adultos para abraçá-la. Além da grandeza, chama-me a atenção o colorido das coisas (roupas, comidas, casas, natureza etc).

Pela tarde, Pilar del Río, Gonçalo M. Tavares, Ondjaki e Jorge Volpi reúnem-se no pavilhão português para conversarem sobre literatura lusa contemporânea. Gonçalo e Ondjaki, ambos vencedores do Prémio José Saramago, relembram a relação que tiveram com o português Nobel da Literatura e opinam sobre a situação da literatura hoje nos seus países. O angolano Ondjaki defende que cada escritor deve escrever «na sua língua portuguesa» e demonstra preocupação com a situação da nova literatura no seu país. «Faltam nomes, fala-se sempre dos mesmos». Gonçalo vê um panorama mais promissor em Portugal. Pilar del Río tenta defini-los: «O Gonçalo é um filósofo pré-socrático e Ondjaki é um renascentista.»

Do segundo dia da FIL guardarei a emocionante homenagem feita a Carlos Fuentes, que completaria 90 anos, e que contou com a presença de sua companheira de toda a vida, Silvia Lemus. E também a frase de Orhan Pamuk: «Considero-me um escritor feliz, embora não seja uma pessoa feliz.» O escritor turco, Prémio Nobel de Literatura de 2006, recebeu das mãos de Silvia Lemus a medalha Carlos Fuentes.

Dia 3: Segunda-feira, 26

Guadalajara é mais do que o grande quarteirão do pavilhão da FIL. No terceiro dia consigo escapar até ao centro da cidade, dar uma volta pelo mercado de San Juan (vários andares com roupas, artigos de couro, frutas e comidas) e visitar o Hospício Cabañas, belíssima construção colonial que hoje funciona como centro cultural. O maior atrativo do lugar são as 57 pinturas do muralista José Clemente Orozco, um dos maiores artistas plásticos mexicanos do século XX. Por causa da presença portuguesa na FIL, por umas semanas uma exposição sobre a obra mural de Almada Negreiros fará companhia às maravilhas de Orozco.

De volta à Feira…
Se alguém pensa que na segunda-feira há menos pessoas pelos corredores do pavilhão da FIL engana-se. As escolas da cidade de Guadalajara trazem os seus alunos para assistirem aos atos. Jovem com uniformes colegiais enchem de energia e ruído o espaço da feira.

Além do aviso sobre os leitores espalhados pelo chão, talvez fosse útil mais uma advertência: convêm ir à FIL com calçado confortável e uma certa preparação física. São muitos e longos os corredores da feira. Cerca de duas mil editoras estão representadas. Quando o visitante pensar que já percorreu toda o pavilhão descobrirá, atónito e com as pernas cansadas, que só conheceu uma parte da feira, que há outro sector onde estão as editoras estrangeiras e ainda outro andar, onde boa parte das apresentações de livros acontecem.

No final do dia, a editora Mayra González, os escritores Sérgio Ramírez e Jorge Volpi, e Pilar del Río, apresentam ao público mexicano o Último caderno de Lanzarote, de José Saramago. «São cartas aos leitores», resume a presidenta da Fundação José Saramago. Volpi destaca que ler esses diários de 1998 é, também, recordar como andava o mundo naquele ano, e recordar as preocupações que o escritor português tinha com o mundo. «A recuperação desse diário é, também ela, uma história quase literária», diz. Ramírez lê o prólogo que escreveu para Um país levantado em alegria, livro escrito por este que redige estas linhas. No texto o escritor nicaraguense aborda a relação de admiração e amizade que nutriu pelo o autor de Todos os Nomes.

DIA 4: Terça-feira, 27

No quarto dia adoto uma tática um pouco estapafúrdia, mas que me permite ter uma mínima ideia do que se está a passar na feira naquele dia. Procuro ir ao máximo de sessões possíveis, ainda que isso signifique ficar em torno de quinze minutos em cada uma. Como aquele personagem de Budapeste, romance de Chico Buarque, que caminha pela orla da praia no Rio de Janeiro e apenas escuta fragmentos de histórias, ando pela feira a apanhar pequenas partes de conversa, com o seguinte resultado final:

Juan Villoro, escritor mexicano, autor de livros infantis e para adultos: «A melhor maneira de promover a literatura é por contágio, não por imposição. A literatura está ligada ao afeto, e por isso é importante que os pais contem histórias às crianças (…) Creio que não se dá o devido valor àqueles que escrevem livros infantis.»

Dulce Maria Cardoso, escritora portuguesa: «Não acredito em ativismo na literatura. Acredito em literatura e em ativismo, mas não acredito que a literatura sirva para isso.»

José Eduardo Agualusa, escritor angolano: «Por ser angolano, acredito que a literatura pode mudar o mundo. Em Angola, foi através da poesia que as pessoas foram tomando consciência da exploração que sofriam e fizeram a revolução».

Ida Vitale, poeta uruguaia, numa conversa com estudantes: «O meu conselho para quem quer um dia escrever é: não tenham pressa e leiam tudo o que vos chegar às mãos».

António Lobo Antunes, escritor português: «Li Pedro Páramo [de Juan Rulfo] uma vez e não entendi nada. Li a segunda e não entendi nada. Li a terceira, e não entendi nada. E ainda assim o livro agarrava-me. É muito difícil encontrar um livro tão simples e complexo ao mesmo tempo.»

Ignácio Escolar, jornalista espanhol: «O jornalismo é muitas coisas, crónicas, resultados dos jogos de futebol e muito mais, mas é, sobretudo, pedir contas ao poder. O coração, a parte essencial do jornalismo é essa: cobrar o poder.»

Chama-me a atenção ver o interesse e generosidade de autores e autoras portugueses pelos seus pares. Nas sessões no Pavilhão de Portugal, Afonso Cruz, José Luis Peixoto, Valter Hugo Mãe, Lídia Jorge e muitos sentam-se lado a lado com leitores mexicanos para ouvir Filipa Leal, Ondjaki, Jeronimo Pizarro, Dulce Maria Cardoso, Rui Zink, e muitos outros.

DIA 5: Quarta-feira, 28

No hotel, os funcionários parecem já mais acostumados com o português e o portunhol que ouvem há quatro dias. Ainda assim, uma ou outra vez a comunicação falha. «O que é chirabe?», pergunta um jovem à colega de trabalho. Um hóspede tinha-lhe pedido algo e ele era incapaz de entender do que se tratava.

Hoje é o dia em que apresentarei o meu livro e o nervosismo impede-me de me alimentar adequadamente e de prestar atenção às restantes atividades da feira. Pelo tanto que li e escutei falar deste encontro, por aquelas fotos em que apareciam García Márquez, Juan Gelman, José Emilio Pacheco, Saramago, Poniatowska, Tomás Eloy Martínez, etc, etc, há anos que tinha o sonho de um dia visitar a FIL. Desejava muito estar aqui como visitante-leitor, e agora, suprema alegria, estreio-me na FIL como autor de um livrinho.

Uma hora antes da sessão tomo uma dose de tequila. Talvez não tivesse sido preciso, porque com a presença de vários amigos e a generosidade de Jeronimo Pizarro, que apresentou a obra, tudo correu bem.

Assim termina a minha feira. Levo comigo, além de muitos livros e recordações agradáveis, a alegria de ver como um encontro literário pode atrair tanto público e ser tão abrangente. A FIL aproxima quem lê dos que escrevem, homenageia escritores e escritoras, apresenta painéis de discussões sobre vários assuntos (política, imigração, feminismo, colonialismo, papel do jornalismo), serve de montra para novos nomes, de feira de negócios e também de palco para festas e encontros.

Sobre a presença portuguesa, pareceu-me que esteve à altura da Feira. Havia público, interesse, e uma ampla cobertura por parte da comunicação social mexicana. José Luís Peixoto, por exemplo, estampava a capa do caderno de cultura de um jornal. Acima de uma foto do escritor português, lia-se: «O Magalhães da Literatura». A mim parece-me um título muito acertado, ou não são os livros um instrumento para chegar ao desconhecido?

ste artigo foi publicado ao abrigo da nossa parceria com a Fundação José Saramago. Foi publicado originalmente na Revista Blimunda de janeiro de 2019.

Deixa o teu Comentário

Este site utiliza o Akismet para reduzir spam. Fica a saber como são processados os dados dos comentários.