Colégio das Artes, Coimbra. Entrevista a António Olaio e Ana Rito

Texto: Joana Duarte
Fotos: Vitor Garcia

Um lugar onde Arte e Universidade se encontram. Um lugar dedicado aos estudos avançados em Arte, que não é exatamente um lugar de ensino mas sim um lugar de investigação e experimentação, que se abre para fora, para lá dos espaços da própria Universidade. O Colégio das Artes da Universidade de Coimbra é uma unidade orgânica, um lugar que desafia os criadores e a própria Arte.

O Colégio começou com uma vontade do reitor Fernando Seabra Santos de encontrar um lugar para a Arte no ensino da Universidade de Coimbra. Algo que já acontecia como algo periférico, mas importante, na vida da Universidade através do Círculo de Artes Plásticas. “Não existiria o Colégio das Artes se não existisse o Círculo de Artes Plásticas”, refere António Olaio, atual diretor do Colégio das Artes.

O Colégio seria assim um lugar para estudos avançados em Arte onde os artistas, ou as pessoas que se queriam ocupar das práticas artísticas como objeto de reflexão ou como prática, encontravam um lugar para se relacionar com a Universidade no seu todo.

A Arte seria, portanto, uma espécie de ponto de ligação entre saberes. A Arte enquanto disciplina de uma enorme abrangência, já que, como refere António Olaio, “o artista é um especialista em coisa alguma, interessa-se por tudo sem ter que ser especialista em coisa nenhuma”.

“Queríamos um doutoramento baseado na prática, na investigação artística, numa abordagem direta aos processos e à forma como os artistas, cineastas, curadores, designers, etc., enfrentam a sua prática e se relacionam com a sua dimensão teórica e problemática. A nossa missão é salvaguardar que os artistas também têm algo a dizer, que têm um pensamento estruturado e muitas vezes sistematizado sobre a História da Arte, sobre a longa duração da contemporaneidade. Não são apenas elementos passivos aos quais os historiadores, os teóricos de arte, vão buscar informação e conteúdos. Pelo contrário, ativam, questionam e têm uma perspetiva revisionista desse próprio conteúdo, apropriam-se dessas narrativas, desconstroem-nas e desmontam-nas. Esta valorização do artista como um ser ativo e pensante na sua comunidade é uma das nossas premissas”, evidencia Pedro Pousada, subdiretor do Colégio das Artes e coordenador do Doutoramento em Arte Contemporânea.

E acrescenta, “Os artistas enquanto doutorandos conseguem pensar, discutir e problematizar a sua prática de uma perspetiva que não é meramente confessional, dogmática ou soberana, mas que é capaz de entrar em debate com os seus colegas e professores e que lhes permite repensar a forma como se relacionam com ela”.

Para além do Doutoramento em Arte Contemporânea, existe também um Mestrado em Estudos Curatoriais. E é no âmbito do Mestrado que surge o Laboratório de Curadoria. Um espaço profundamente experimental, onde os alunos estabelecem uma relação com artistas, curadores, investigadores, ou com os próprios doutorandos e docentes.

“Pensamos neste espaço como um espaço de construção de saberes, como uma sala de aula. Este pensamento começou com o projeto d’ Os Espacialistas, A E I O U : Os Espacialistas em Pro(ex)cesso, que teve lugar no ano passado, mas o facto é que tem vindo a ser uma espécie de linguagem adotada. Quer com o Laboratório, quer com as Galerias, quer com o Mestrado, quer com o Doutoramento, existe uma procura em fazer uma espécie de cruzamento híbrido entre linguagens diferentes, partindo essencialmente do fazer. É nesta desconstrução do saber efetivar que, fazendo, as coisas acontecem e são pensadas. Portanto, essa relação endémica entre o pensamento e a ação parece-nos ser a nossa essência”, afirma Ana Rito, subdiretora do Colégio das Artes.

Com um corpo docente essencialmente composto por artistas com diferentes abordagens, linguagens e universos, e alunos oriundos das mais variadas áreas, como o teatro, o cinema, a dança, as artes visuais, a curadoria, o design, a história de arte ou a museologia, o Colégio das Artes reúne as mais diversas “constelações de aprendizagem” e estrutura-se a partir de uma matriz de relação entre vários saberes. Esta matriz reflete-se na multiplicidade das linhas de atividade que desenvolve, que vão desde as aulas propriamente ditas, a exposições, conferências, e a uma extensa atividade editorial.

Encontra-se disponível online o histórico com o conteúdo de todas as exposições já realizadas (www.colegiodasartesexposicoes.pt), assim como a plataforma “Motel Coimbra” (www.motelcoimbra.pt), onde é possível encontrar as biografias dos doutorandos.

Das publicações, destaca-se a revista Homeless Monalisa, dedicada a obras de vários artistas, e o projeto futuro de uma revista dedicada à arte brasileira associada ao site Terra em Transe, nome retirado do filme de Glauber Rocha, cujo responsável pela sua edição é um doutorando do Colégio, Ricardo Martins, curador e artista brasileiro.

O trabalho dentro da Universidade estende-se ainda ao exterior. O programa Off Campus pensa a Universidade como comunidade, estabelecendo parcerias com outras entidades, tais como o Teatro Académico de Gil Vicente (TAGV), a Bienal Anozero ou a Umbigo LAB.

Destaca-se a parceria com a Bienal Anozero, sendo que na última edição os alunos do Colégio desenvolveram um plano de ativação da Bienal e encontram-se de momento a preparar vários projetos cartoriais para a próxima edição, ainda a anunciar.

Para além das parcerias nacionais, o Colégio estabelece também protocolos internacionais, como é o caso do Museu Estadual Russo de São Petersburgo. O ramo virtual do Museu Russo encontra-se num espaço no Colégio das Artes, onde é possível aceder a exposições e obras que se encontram em São Petersburgo. Para além disto, o Colégio organiza exposições, eventos e publicações a título colaborativo com o Museu, como é o caso da exposição Rrevolução, que teve lugar em 2017, Victória sobre o Sol – from Black Square to Loophole (2018-2019) ou o livro Na Sombra do Quadrado Negro, lançado em 2019.

A propósito desta colaboração, Pedro Pousada refere que “É notório que há um domínio anglo-saxónico sobre as atividades que decorreram nesse espaço geográfico e geopolítico durante o século XX. Através deste contacto percebemos que há uma certa resistência da academia anglo-saxónica em dar espaço e dar voz ou presença aos académicos russos. Nós estamos também interessados em mostrar e proporcionar outras leituras, abordagens e aproximações a realidades que são de uma enorme complexidade, que por vezes caem em notas de rodapé ou em apenas dois ou três parágrafos. É importante termos uma atitude mais porosa e permeável à visão que o Sul tem da sua própria história, que a Euro Ásia tem da sua própria história. Penso que fazemos o nosso trabalho em contrariar a homogeneização ou a banalização das narrativas sobre a História da Arte do século XX e também sobre a Arte Contemporânea. Creio que esse é o nosso esforço, não sei se bem-sucedido, mas é um esforço importante.”

O Colégio das Artes é, portanto, “um espaço de produção onde grande parte da investigação desenvolvida é pensar as coisas, fazendo-as. Não é exatamente no ensino que nos focamos, mas no pensar a arte, no produzir, no fazer. Temos até uma certa dificuldade em chamar alunos aos doutorandos. Um artista neste enquadramento não deixa de ser um artista”, como refere António Olaio.

Ana Rito acrescenta, “Procuramos trazer a urgência do experimental à academia. Experimentalismo que é tornado operativo pelas práticas artísticas, sendo elas investigação em si mesmas, ao invés de se tornarem investigação. A ideia de que a prática artística é em si mesma investigação é a razão da nossa luta, da nossa militância. Trata-se de trazer as práticas artísticas para o campo da universidade sendo a sua essência o experimentalismo, o laboratório, o questionamento e, no fundo, a liberdade. O Colégio das Artes é um espaço de liberdade.”

“Os artistas descobrem formas de existir na criação artística. Não só enriquecem e fortalecem a consciência da sua prática, do saber fazer e do pensar sobre esse fazer, como também descobrem que a sua prática está integrada numa constelação, numa rede de outras experiências, de outros modos de ver o problema artístico. E é isso que nós valorizamos, o artista que se questiona sobre a sua prática porque é obrigado a dialogar com os colegas e com os professores a propósito dela. E portanto está numa situação de afirmação, mas também de vulnerabilidade. Parece-me que esta é uma das riquezas pedagógicas do ensino no Colégio das Artes”, refere Pedro Pousada.

Cita ainda Immanuel Kant, resumindo o que é proposto aos alunos do Colégio: “Pensamos bem, mas pensamos melhor pensando com os outros”.

Mas não são apenas os alunos que enriquecem e fortalecem a sua prática. Os próprios docentes, na sua grande maioria artistas, reconhecem que é algo recíproco.

“Da minha parte, faz-me questionar muito daquilo que fiz até agora. É uma experiência que tem esse impacto. Perceber que há tantas visões do mundo tão diferentes, e se calhar mais atuais que a minha, obriga-nos a uma espécie de revisitação da própria ideia de ser artista”, refere Pedro Pousada.

Ana Rito diz que a sala de aula se tornou o seu estúdio, “não necessariamente para a minha prática artística, mas para a minha prática curatorial. E uma não está separada da outra, portanto a sala de aula não está separada da sala de exposição nem do estúdio”.

“Precisamos de ter vida para além da Arte, e depois descobrimos que essa vida também é Arte. Precisamos de estímulos e volto a referir a frase de Kant que o Pedro citou, já que comporta esta ideia de não pensar sozinho, a ideia de não prescindir do Joie de Vivre de Matisse, ou da pintura como uma bela poltrona, ou da coisa que aparentemente não serve para nada”, conclui António Olaio.

Um ensino – ou antes uma experiência – que sem dúvida se distingue, atraindo pessoas de diversos pontos do país e das mais variadas áreas, não apenas para os cursos que o Colégio proporciona, mas também devido à vastidão de exposições, eventos e atividades que organiza. Motivos mais do que suficientes para estar atento à programação e visitar o Colégio das Artes ou os locais que lhe estão associados, em Coimbra.

Este artigo foi publicado ao abrigo da nossa parceria com a Umbigo Magazine. A UMBIGO é uma plataforma independente dedicada à arte e cultura, que inclui uma revista trimestral impressa, uma publicação online diária, uma rede social virada para arte e um programa de várias atividades de curadoria.

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