Como produzir/ser uma arma falsa

Por Ivo Saraiva e Silva

Ruiz Alonso disse a Miguel Rosales: <<Fizeram mais dano com a caneta do que outros com a pistola>>., in SOREL, Andrés, 1998, Eu, García Lorca, trad. Luís Filipe Sarmento, Navarra: Editorial Txalaparta s.l.

Os dispositivos tecnológicos que fazem parte do quotidiano têm-se revelado ferramentas cruciais no modus vivendi de uma qualquer pessoa. Em pouco tempo, e ultimamente mais intensamente, estes dispositivos assumiram-se como protagonistas da atividade principal de um indivíduo.

O charme da cibernética passa por permitir a atuação em sociedade através da sua intermediação: a realização de compras, transferências, carregamentos e pagamentos através de aparelhos pessoais com os quais se fazem chamadas telefónicas ou em vídeo, se enviam áudios, mensagens e se comprova a existência de uma voz na realização de posts nas redes sociais. Depois dos emails e dos downloads, tornou-se vulgar as videoconferências, as reuniões em videochamadas, os eventos em live streaming, as performances online, o teletrabalho, os diretos e os fóruns virtuais. Toda esta circunstância possibilitou igualmente uma nova linguagem relacionada com a cibernética – neologismos como twitar, snap, comentário, app, seguir, on, like, reel, meme, partilha, entre outros, são agora parte integrante de um vocabulário comum e essencial no relacionamento com as outras pessoas. Se no princípio era o verbo, esta nova aceção de uma renovada linguagem quotidiana acaba por determinar contornos outros à identidade do indivíduo e moldá-la rumo a um futuro comum e planetário.

A provocação de que os dispositivos e aparelhos eletrónicos assumem indiscutivelmente um lugar de excelência e até de dependência naquilo que é a atividade principal de uma pessoa, é também o lugar da provocação de que esses mesmos mecanismos parecem rever uma ideia de prótese humana. Aquilo que comummente se entende por prótese é a de um acessório que compensa necessidades do indivíduo quando este se encontra numa circunstância física que não corresponde à conjuntura reinante, ou, noutros casos, para suprir carências que dificultam o funcionamento de um corpo – estas próteses podem estar preparadas para corresponder a impulsos nervosos ou não. Ora, no que concerne à relação das pessoas com os dispositivos e aparelhos tecnológicos atuais, a necessidade de uma prótese está a par de uma impossibilidade de alguém se conseguir inscrever num qualquer circuito social sem que esteja conectado e familiarizado com os modos de operar tecnológicos. Isto porque o humano, ao testar as infinitas possibilidades que a descoberta do virtual pode oferecer em diversas disciplinas da sociedade, investiu na projeção de uma série de modos de operar tecnológicos e os elegeu como preferenciais – porque é mais vantajoso ao nível da velocidade, da economia, da simplicidade, ou por puro gosto – em detrimento de todos aqueles que se desenvolvem até então. De facto, o facilitismo vigente, proporcionado pela tecnologia, em interagir com outras partes do globo a uma rapidez instantânea, onde uma mesma pessoa consegue estar em vários sítios ao mesmo tempo e em comunicação com diversas pessoas, verifica uma evolução e eficiência nas ações que se executam. Mais ainda, os mecanismos tecnológicos prolongam as nossas ações na existência – são continuação de nós próprios – como se passassem a validar a nossa presença, e a nossa presença em vários lugares do mundo. É, segundo esta premissa, que se pode entender os dispositivos e aparelhos tecnológicos com que hoje convivemos como próteses humanas – os computadores, os smartphones, os tablets, etc., sustentam a nossa atividade no mundo e a nossa existência em rede. Em consideravelmente pouco tempo, a tecnologia passou a fazer parte da nossa vida.

Não obstante, esta existência em rede é sobretudo isso mesmo, uma rede de contactos, de locais, de entidades, de estruturas, de associações – o quotidiano a que se estava acostumado continua a acontecer como anteriormente mas já não é preciso deslocar-se para lado nenhum, basta estar num local ao acaso e sozinho, de preferência, reforçando uma ideia de individualismo de que a pessoa vem padecendo há algum tempo. É aqui que nos lembramos que <<rede>> também significa <<armadilha>> ou <<cilada>>. Na esperança de se contactar com um maior número de pessoas e na impossibilidade de comunicar com toda a gente, o sujeito vai cedendo à tendência de criar o seu próprio grupo social, como se fosse a sua própria ilha constituída pelos elementos com os quais se identifica. Afinal, o veículo que promete expandir, globalizar e desbloquear bolhas sociais parece ser o mesmo que enclausura e polariza.

E, no vaivém acelerado de encetar os dispositivos e de os fazer funcionar a nosso favor, a prótese “privada” inquire-nos: Você é um robot? – Faça uma cruz no quadradinho aonde está escrito “Não sou um robot”. A pessoa apressa-se a cumprir o que nos diz, o que nos pede, o que nos exige, na ânsia de chegar à próxima etapa. E num estádio à frente, a pergunta regressa para voltar a saber da identidade de quem existe: <<Você é um robot?>>, uma e outra vez. <<Faça uma cruz no quadradinho “Não sou um robot”.>>, mais uma e outra vez. É assim, desta forma, que se avança nesta existência mediática que parece preferir os humanos a robots, desde que eles ajam como robots, desde que se sirvam das suas próteses para tentarem ser… humanos!

A metáfora de que se parte para assumir os dispositivos eletrónicos como próteses humanas leva-nos a concluir que o Homem criou a máquina à sua imagem e semelhança até passar a construir-se ele mesmo à imagem e semelhança da máquina – então já não se conseguirá distinguir os humanos das máquinas. Por analogia, a metáfora da prótese humana transforma-se numa postiça arma mas que não deixa de ser real.

Aquando do totalitarismo franquista, um dos seus militantes acusou os poetas de serem mais perigosos com uma caneta do que muitos com um revólver; hoje pode devolver-se-lhe a pergunta de uma outra forma: quem será mais perigoso? Alguém com um computador ou alguém com uma arma? A resposta parece não deixar dúvidas.

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Abram bem os olhos. Agora fitem este pêndulo. Não parem de fitá-lo com o olhar. O vosso olhar começa a humedecer-se. Estão a ver tudo muito turvo. Estão a começar a sentir sonolência e apatia? Não desistam. Conseguem ver para além dessa fumaça? Conseguem perder-se no labirinto de espelhos? Agora repetimos tudo outra vez, mas de olhos fechados. Oiçam apenas o som da nossa voz: Isto é tudo smoke and mirrors. Uma rubrica dos SillySeason em parceria com o Coffeepaste, na eminência dos perigos hipnóticos da sociedade atual.

Foto: Alípio Padilha

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