A Criada Malcriada e muito mais

criadaA Criada Malcriada“, “Verónica, a mulher divorciada” e “Cavaca para Presidenta” são apenas alguns dos projectos deste cartoonista que prefere manter o anonimato. E nós respeitamos. Conseguimos chegar à fala com ele recentemente, e aqui fica o seu contributo numa entrevista cheia de humor, sarcasmo, e outras coisas que tais.

Quando começaste a desenhar?
Gostaria de começar por pedir que não me tratasse por tu. Obrigado.

Queria responder «logo que nasci» mas, na verdade, não foi bem assim. Ficámos ainda na clínica, a minha Mãe e eu, mais uns quatro dias.

Quando finalmente chegámos a casa, inspirado talvez pela decoração neobarroca que tinham escolhido para o meu quarto, lembro-me de me sentar à pequena secretária Louis XIV, impecavelmente feita em Paços de Ferreira a partir da gravura A Senhora Condessa Está Tão Entediada Que Se Sentou ao Bureau do Quarto de Dormir Para Escrever, Pensando, Olha Podia-me Ter Dado Para Pior, de artista flamengo desconhecido. Comecei então a desenhar.

Já a minha primeira exposição individual de desenhos foi nas paredes do ginásio do liceu. Como não me apetecia nada fazer ginástica, nem ter de me despir às oito da manhã nos balneários, que eram gelados, para vestir uns calções azuis e uma t-shirt dos Transformers, convenci a minha Mãe a arranjar-me um atestado médico para ser dispensado das aulas, sob a ameaça de fugir de casa.

criada01A minha Mãe mediu as vantagens e as desvantagens durante cerca de três horas, muito quieta, a fumar, fazendo chocalhar as pedras de gelo no copo do seu primeiro whisky das sete da manhã, a olhar fixamente pela janela para aquele céu sem nuvens dos finais de setembro. E decidiu-se então por ligar ao nosso médico, um tipo gorducho e simpático, com um terrível e desastroso vício de jogo que o fazia passar qualquer tipo de atestado por cinco contos e um convite para jantar ao domingo.

Faltava só escolher o gravíssimo problema que tornaria mais perigoso fazer ginástica que molhar os dedos e enfiá-los numa tomada ou, por exemplo, tomar banho com uma torradeira ligada dentro da banheira.

Como a cegueira poderia comprometer também o resto das disciplinas, optámos por insuficiência cardiorrespiratória crónica. E assim, durante um ano, fiquei sentado num banco do ginásio, a ver os outros saltar, correr, subir por umas cordas, ficar pendurados com a cabeça para baixo, tipo Exorcista, jogar basket, volley, badmington e essas coisas. De vez em quando, tinha de fazer de apanha bolas ou de árbitro, mas, durante a maior parte do tempo, mandavam-me só ficar sentado, com medo que parasse de respirar, ficasse roxo e morresse, suponho.

Foi durante aquelas horas matinais, aos treze anos, que descobri que o que faz o mundo girar não é o dinheiro, nem o sexo, nem o poder, nem sequer a Lei da Conservação do Momento Angular, mas sim o tédio. Quando não estava a apanhar bolas, não me restava mais que ficar sentado num banco, com uma gigante parede branca atrás de mim, mesmo a pedi-las. Depois de conseguir passar uma caneta preta, escondida entre a sola dos ténis e a sola dos pés, dediquei-me à solitária, ambiciosa e monumental tarefa de encher uma parte da parede de pequenos (muito pequenos mesmo) insetos imaginários, sem ser apanhado. A característica comum a todos eles era: terem dois olhos, pelo menos um par de asas, duas antenas de variados comprimentos e um bico.

criada04O primeiro de todos que fiz chamava-se Júri, tinha duas asas, duas antenas e dois bicos, e ficava mesmo atrás da minha orelha esquerda. Servia para me ajudar a avaliar de 0 a 10 os flik-flaks com triplo mortal encarpado dos meus colegas, uma das tarefas de que me incumbia a professora, que me odiava (acho que acreditava tanto na minha doença como nas versões de estúdio da Mariah Carey). Em breve, a minha parede ganhou a forma do que acabei por chamar Insectário de Bestas, ou Bestiário de Insetos.

É incrível que tenha enchido uma parede branca com dezenas e dezenas de insetos de três centímetros, à vista de toda a gente, sem nunca ter sido apanhado, não é? Sim, teria sido incrível. Passei os quatro dias que estive em casa, suspenso das aulas, a ler o primeiro volume de Em Busca do Tempo Perdido, porque o nome me pareceu apropriado.

Achei aquilo um bocadinho a atirar para o parado, por isso, para animar a coisa, enchi as páginas de desenhos de insetos e de palavras obscenas («fosses mazé comer madalenas pó caral…. » e assim). Lá em casa, nem por uma vez me falaram disso, o que aumenta a minha suspeita de que nunca ninguém abriu o livro sequer.

Como o karma, como se sabe, é uma grande cadela, a minha gravíssima condição inventada não impediu que me obrigassem, mesmo assim, a despir-me todos os dias às oito da manhã nos balneários, que eram gelados, para vestir uns calções azuis e uma t-shirt dos Transformers. T-shirt que usei, religiosa e vingativamente, durante um ano inteiro, sem nunca a tirar, nem para dormir, nem aos fins-de-semana, colecionando as mais variadas e crescentes nódoas, que usava ufanamente, como medalhas de guerra.

 

criada02De onde surgiu a ideia para A Criada Malcriada?
No sentido estritamente clínico do termo, surgiu de um ligeiro desfasamento entre o hemisfério esquerdo e o hemisfério direito do meu cérebro. Trata-se de uma questão médica amplamente estudada, com bastante literatura científica publicada (posso mandar uma pequena bibliografia não exaustiva). Ou pode simplesmente dar uma googlada básica por interhemispheric communication disturbance (aparecem mais resultados em inglês).

No sentido mais prosaico, vou responder «são muitos anos a virar frangos», porque quero depois ir ler a entrevista no Coffeepaste e mostrar aos meus amigos e dizer: Olhem, olhem! Eu respondi «são muitos anos a virar frangos» e eles publicaram mesmo! E depois rimos todos muito, até eles começarem a abanar a cabeça e ir saindo um a um, para ir ao bar.

Há algum cartoonista que admires?
Lá está outra vez esse tratamentozinho por tu…

Bom… Eu cresci com a Mafalda, o Tintin, o Astérix e o Obélix. O Tintin, na verdade, andava um ano à nossa frente, mas costumávamos ir todos juntos para casa, nos dias em que ele não tinha ballet depois das aulas. Por acaso é pena, a coisa morreu um bocado. Ficam as memórias dos dias ao sol quando nos baldávamos a Introdução à Sociologia, dos charros atrás da Igreja de Santa Isabel, ali ao Rato, das promessas de amizade eterna. Mete-se a vida, sabe? Isto do Facebook ajuda um bocadinho, e às vezes jantamos os cinco numa tasca do Bairro Alto. Mas já não é a mesma coisa.

A vida real é a melhor inspiração?
Para lhe responder a sério, teria de sair da medicação, pelo menos durante um mês, e os médicos que me seguem desaconselharam-no vivamente.

Vejo a vida real e as pessoas reais com o interesse com que um entomologista vê um insecto (é um cientista que estuda insectos), assim de fora. E suponho que me inspiro nas coisas e nas pessoas que vejo e oiço todos os dias. As fontes de inspiração são inesgotáveis. As pessoas são tantas coisas ao mesmo tempo, e a graça está em pegar nesses bocadinhos todos e juntá-los numa só personagem. É por isso que é fundamental para mim estar sempre rodeado de pessoas. Bom, na verdade, eu… eu trabalho em casa. L Passo o tempo inteiro de pijama. Há dias em que a única pessoa com quem falo é a D. Alzira da padaria (também serve cafés). Nem ao supermercado tenho coragem de ir, com o pijama de ursinhos que a minha Mãe me deu quando fui operado ao apêndice. Há dias em que atendo o telefone às seis da tarde, quando um amigo me liga sem querer, porque o meu nome vem logo a seguir ao do bate-chapas na lista de contactos, e a voz me sai rouca e embargada porque ainda não tinha aberto a boca. Bom, mas perguntou-me de onde surgiu a ideia, não me perguntou se gosto da minha vida, não foi? Olhe, não sei…

veronica01O atentado de Paris criou uma serie de Charlies e pôs uma grande parte dos portugueses a falar de liberdade de expressão e nos limites do humor. Qual a tua opinião sobre este assunto?
Eu não gosto de me meter nessas coisas, porque tenho muitas coisas de valor em casa e hoje em dia é facílimo descobrir uma morada, com a internet. Eles agora até os códigos dos cartões de crédito descobrem, o raça dos hackers! Mas olhe, assim sem dizer nomes, acho que a liberdade de expressão pressupõe também o direito à estupidez e ao mau gosto, e ainda bem. E a religião é sempre um assunto complexo. Às vezes faço piadas com a Igreja Católica (é com letra grande?), mas isso, para mim, não é fazer piadas com a fé dos outros, é fazer piadas com o establishment, com o dado.

Aliás, aproveito a oportunidade para dizer uma coisa sobre religião: em relação ao Papa Francisco, que todos consideram um homem muito progressista, acho que a sua escolha foi um grande retrocesso para o Vaticano. É o primeiro Papa heterossexual em mais de quinhentos anos… É triste. Assim vai a glória do mundo.

veronica02Publicas no Facebook, na Revista Sábado, e no portal Maria Capaz. Quais os próximos planos?
Eu? Acho que têm a pessoa errada. Estão a falar da minha loja no Facebook, certo? Os Docinhos da Avó? Agora fiquei um bocado baralhado… Já agora, fica o telefone, 918877152. Fazemos de tudo, brigadeiros, broinhas de mel, coisas regionais. Salgados é que não. Como diz a minha Avó: «Ai, credo, ficar com a casa a cheirar a fritos para vender croquetes a cinquenta cêntimos? Não me convidem…»

Estou a brincar. Sei perfeitamente que era sobre a Criada Malcriada, a Cavaca para Presidenta e agora a Verónica. Certo?

Todos os dias tenho mais ideias. Todos os dias invento mais um projeto. Adorava ser aquela mulher de Vila Real que tem milhões e milhões numa conta no HSBC na Suíça, para poder ter o tempo todo do mundo para fazer só o que me apetece. Brinco, por acaso não adorava nada. Vi outro dia na televisão a aldeia de onde ela vem, acho que se chama Garganta, e é sinistra de dar gritos até conseguir partir copos da Marinha Grande com a voz (daqueles grossíssimos). Mal por mal, prefiro ser eu, que da minha janela se vê o rio e um bocado da ponte. Ou a ponte e um bocadinho do rio, já não me lembro, que ainda não desentaipei as janelas desde aquele aviso de tufão que depois não deu em nada.

Mas os projetos que tenho agora já me ocupam o tempo todo. Depois do convite incrível da Sábado para fazer uma tira da Criada, continuo todas as semanas a desenhá-las, a cores, que é a coisa mais divertida do mundo, e onde me dão liberdade toral. Estou a pensar em pedir à Dulce Garcia, a subdiretora, que me deixe ter uma secretária na redação da Sábado, com um computador, um telefone e uma daquelas canecas a dizer I Hate Mondays. Estou um bocado farto de trabalhar em casa. Só me falta arranjar uma boa desculpa. Já pensei em incendiar a minha casa e dizer-lhe que não tenho mesmo mais onde fazer as tiras, porque a minha família emigrou para a Nova Zelândia quando eu era muito pequeno, para criar um pequeno negócio de criação de avestruzes para abate, que se transformou num império que um dia espero herdar, e me deixou aos cuidados de uma vizinha já muito doente… Bom, abreviando, que a Dulce é a única pessoa que conheço em Lisboa e que vai mesmo ter de me ajudar.

criada03Quero também continuar a inventar mais histórias da Verónica. Já tinha tido a ideia para esta personagem, uma mulher divorciada que convive mal com a vida em geral e a felicidade em particular das amigas solteiras, casadas, viúvas. Bom, das amigas. Então, quando me convidaram para desenhar uma tira para a Maria Capaz, pensei que era uma ótima ideia dar finalmente vida à Verónica. Como a Maria Capaz é uma plataforma que junta as vozes mais variadas de mulheres, e as mais variadas visões do que é hoje ser feminista, lembrei-me de ir à primeira reunião vestido de mulher, para deixar claro que sou dos que acredita que feminismo também pode e deve ser uma causa dos homens, que também quero participar nesse longo caminho até à igualdade de género. E depois pensei: «vestido de mulher», lá estou eu com as minhas construções machistas. Uma mulher veste-se como quiser, e não há nenhum tipo de roupa em especial que deva ser atribuído exclusivamente às mulheres. Da mesma maneira, um vestido de sereia nunca matou nenhum homem. [Fui googlar, e não é totalmente verdade. Houve, de facto, um homem em Shakopee, no Minnesota, que, ao acender um cigarro, terá incendiado o vestido de sereia fúcsia de poliéster que trazia (por motivos que não se conhecem), morrendo horas depois, devido à gravidade dos ferimentos, no único hospital da cidade.]

Para além também do livro da Criada, que a Objectiva publicou em 2013, estamos a preparar mais um, que estará para breve e que, mesmo antes da publicação, já está shortlisted para inúmeros prémios internacionais que a modéstia me inibe de especificar, mas que podem, ou não, incluir uma viagem à Suécia.

E tenho um projeto secretíssimo de que ainda não posso falar. Pois, é isso que secretíssimo que dizer, não é?

Comments

  1. Adoro!

  2. isto é humor a sério!

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