Crowdfunding e o fechar do ciclo criativo

crowdfundingQuando Amanda Palmer quis editar um novo disco, não foi bater à porta da sua editora. Foi bater à nossa.

A cantora, compositora e pianista, Amanda Palmer, recorreu à nova tendência do financiamento de projetos artísticos: o crowdfunding. Este mecanismo recorre ao poder das redes sociais para chamar a atenção e para projetos e pedir aos fãs que os apoiem, fazendo pequenos donativos. Em vez de recorrer a business angels ou a mecenas que, unipessoalmente ou em pequenos grupos de doadores, suportem todos os custos de produção, o crowdfunding apoia-se nos grandes números.

E os números não precisam de ser muito maiores. Muitos dos projetos de crowdfunding no campo artístico apoiam-se nos grupos de fãs que já seguem as bandas ou os cineastas que os promovem. A cantora norte-americana, mais conhecida pelo seu trabalho com os Dresden Dolls, cortou os laços com a sua editora depois de lhe ter sido comunicado que as suas vendas, em relação ao disco anterior, tinham caído para apenas 25 mil cópias nas primeiras semanas.

Inconformada, pediu aos seus seguidores mais fieis, esses que eram considerados “insuficientes” pela sua editora, que fossem eles a financiar o lançamento do álbum de estreia da sua nova banda, os Amanda Palmer and the Grand Theft Orchestra.

Os dados da solução

Na era das redes sociais e da comunicação online, o poder do gesto de dar e receber é potenciado ao expoente do milhão. O valor necessário para lançar o novo álbum de Amanda Palmer era de 100 000 dólares. O grupo de pessoas que se dirigiu ao seu kickstarter e deixou donativos foi apenas de 24 883.
Recebeu cerca de 1,2 milhões de dólares.
O que ela fez não foi mais do que acontece quando se cria empatia com o público durante um concerto: pediu aos fãs que mostrassem a sua afeição pela música e pelos artistas. Só que, desta vez, de forma diferente e num momento diferente: antes de o projeto ser lançado, antes sequer de ser produzido. Amanda Palmer explorou os novos limites do financiamento nas artes, pedindo aos fãs que se tornassem mecenas e que a recompensassem não (só) pela compra dos discos, ouvindo-lhes as músicas no Spotify ou fazendo download no iTunes, mas contribuindo para a sua própria produção.

A recompensa pode não ser só a arte

Existem múltiplos exemplos de sistemas de financiamento em que os produtores recompensam os doadores com features exclusivos. Este elemento é especialmente adaptado à realidade das produções cinematográficas, sendo que existem modelos de financiamento em que aos mecenas mais generosos são garantidas visitas ao set, almoços exclusivos com os atores, uma menção nos créditos como “produtores” e cameos ou até papéis secundários no filme. Estes “brindes” estão reservados, obviamente, aqueles que desembolsarem quantias grandes, na maior parte dos casos, na ordem das dezenas de milhares de euros. Há outras recompensas, como o envio de versões do DVD com extras exclusivos ou bilhetes para ante-estreias, destinados a quem participa com quantias mais modestas.

Numa palavra: generosidade

Mas há algo de mais forte, mais profundo neste movimento que liga os artistas ao público e que se gera neste ato de dar e receber. O TED recentemente dado por Amanda Palmer é mais eloquente do que alguma vez poderia ser e toca no dado que torna esta metodologia tão simples quanto poderosa, mesmo que a análise fria dos números possa induzir o contrário.

Para quem recebe tanto e de uma forma tão profunda como quem ama um artista, contribuir é apenas um forma de retribuir. E, nestes casos, não se trata de encontrar forma de levar alguém a dar, mas de confiar e de permitir que se feche esse ciclo de generosidade.

Sobre o autor: Miguel Maia trabalha na area de sustentabilidade e inovação social.

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