Deixe que me apresente

Por Fernanda Mira Barros

Ia escrever sobre Ibsen, paixão minha, mas pus-me a pensar que, para escrever sobre alguém de tão gigantesca importância para mim, o que devia fazer era ler outra vez todas as peças e, além delas, todos os livros que tenho sobre ele e elas. Depois, deveria googlar ensaios que nunca li, e só depois, e isto muito antes de estar preparada para escrever, sentar-me a digerir como uma vaca toda essa informação.

Gosto de vacas. Gosto de vacas a ponto de não as comer. São animais lindos com olhos duma doçura que entristece. Não que a doçura seja triste, mas a do olhar das vacas é. Então, já que pensar em Henrik Ibsen me pôs a pensar em vacas – esse é um dos poderes das comparações –, fui pesquisar o verbo “ruminar” no meu dicionário de sinónimos. Não que eu tenha usado esse verbo aqui, mas este é um dos poderes das associações de ideias. Significa remastigar; figurativamente, significa cismar, matutar, ponderar, e sinónimos disto são remoer, remascar ou, até, cachimbar. Nesta altura, acendi um cigarro; e já que tinha o dicionário de sinónimos sobre a mesa, procurei a palavra “Teatro”. Não vem lá. “Teatro” é, portanto, uma palavra sem sinonímia. E a avaliar pelo tamanho do dicionário de sinónimos, poucas há-de haver assim. Palavra solitária, palavra excluída. Mas “teatral”, o adjectivo, esse vem. Aparatoso, espectaculoso, afectado, dramático, tudo isto é sinónimo de “teatral”. Na competição entre “Teatro” e “teatral”, zero a um.

Gosto de dicionários, informação desnecessária porque, por esta altura, o leitor já sabe algumas coisas sobre mim: que gosto de Ibsen, enorme dramaturgo, que gosto de vacas, que gosto de dicionários. Para uma primeira introdução, no sentido britânico do “let me introduce myself”, é provavelmente demais. Ou talvez não. Tendo a dramatizar, verbo este – dramatizar – que remete para Teatro, portanto estou relativamente pouco ansiosa com este texto: apesar daquela referência às vacas, não me afastei do tema.

“Dramatizar” é, no mesmo dicionário, representar, exagerar. E logo abaixo desta palavra vem “drapear”, que também remete para Teatro, o Teatro do tempo em que grandes cortinas de veludo, quase sempre cor de sangue de boi (o marido da vaca, para haver consistência nas referências cruzadas deste texto), no tempo, dizia eu, em que havia imponentes cortinas nos teatros. Esse foi um tempo relativamente recente, burguês. Porque muito antes disso havia teatro nos anfiteatros ao ar livre ou nas feiras. “Anfiteatro” também é uma palavra que não tem sinónimo; deve ser por ter “Teatro” lá dentro. Já “feira” tem muitos sinónimos: algazarra, confusão, desordem, baderna, mercado. Mercado! Lá, onde às vezes se vendem vacas.

Não me ocorre agora se nalguma das peças de Ibsen aparecem vacas. Aparecem fiordes e pessoas e casas burguesas com grandes cortinados. Reposteiros, dir-se-ia naquele tempo. E, sendo teatro drama, aparecem catástrofes, fatalidades, desastres, momentos de comoção, momentos graves, e momentos sem grande expressão — porque para captar a atenção do espectador, ou leitor de teatro, não se pode estar sempre lá em cima no clímax das emoções. Ninguém aguentaria. Portanto, não me lembro se há vacas nas peças extraordinárias de Henrik Ibsen. Mas lembrar-me-ei quando as reler.

Uma das mais famosas foi publicada num tempo em que tudo mudou. No final do século XIX, Freud trouxe a peste da sexualidade ao mundo e Marx trouxe outro tipo de peste. É uma época espantosa, ao estudo da qual podemos dedicar toda a vida sem nos entediarmos. Grandes poetas, grandes romancistas, grandes dramaturgos, grandes pensadores, grandes mudanças ou embriões de mudança.

Hedda Gabler foi publicada em Dezembro de 1890, uma peça com o nome de uma mulher.

Nesse tempo, além dos teatros, as casas burguesas tinham grandes reposteiros, criadas, e sinetas para as chamar, flores frescas em jarras decorando as salas que muitas vezes davam, passando os janelões, para jardins. A burguesia, então como hoje, podia ser elegante ou abrutalhada mas na casa de Hedda Gabler é elegante.

“Vaca” também é uma palavra sem sinónimo no meu dicionário de sinónimos, e o meu dicionário de sinónimos não é um qualquer. Mas todos sabemos que vaca tem sinónimos. Um deles é cabra, outro, cadela. Os biólogos sabem que não estou a brincar com eles. Significa puta, ou filha da puta, “aquela vaca”.

E muita gente há-de ter achado isso sobre Hedda Gabler, que, no entanto, não era de todo uma vaca. Nem Ibsen um pastor. A eles voltaremos no próximo texto.

Fernanda Mira Barros
(1967 – ?), editora da Livros Cotovia

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Comments

  1. Ana Maria Ribeiro says

    E brincar com as palavras, achando novos sinónomos, também é muito engraçado.

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