Despacito

Por Patrícia Portela

Há um milhão de palavras na língua inglesa– a que tem mais palavras no mundo, acredita-se.

Aproximadamente 170 000 destas palavras são de uso corrente.

Um dicionário vulgar pode ter até 500 000 palavras, aproximadamente.

Um cidadão médio de vinte anos conhece aproximadamente 40 000 palavras mas usa apenas 20 000 para se expressar. Uma criança começa por conhecer 3000.

Há quem sugira cortar o número de palavras a constar nos dicionários. Se não se usam, porque se guardam?

Há quem se preocupe enormemente em escolher cada palavra que usa antes de o fazer. Há quem nos encante com o seu vocabulário e quem nos assuste com a sua rudeza. Há ainda quem se deixe colonizar pelas palavras do momento: draconiano, no tempo da crise de 2008, uma palavra que servia para descrever qualquer medida do governo, ou alavancar, entre os  “empreendedores” e mediadores de conteúdos e outras profissões intermediárias que surgiram logo a seguir a essa crise, ou ainda confinamento, uma palavra que se usava para denominar o processo de procriação bovina, em que os animais estavam presos, em isolamento, e que hoje usamos para nos referirmos ao nosso recolhimento em casa, a quarentenas médicas ou à vida dividida entre o teletrabalho e o supermercado.

Há ainda palavras novas que acabam por ser introduzidas no dicionário. Por exemplo: há uns anos a palavra LOL entrou no dicionário de Oxford. , e, em 2018, considerou-se incluir a palavra despacito num dicionário de língua inglesa depois do sucesso da canção com o mesmo nome.

Em 2019 a palavra covid-19 entrou no dicionário e nas bocas do mundo.

Prefiro guardar palavras que não uso nem percebo a usar palavras que todos conhecemos e que, a despacito, nos tornam lolizáveis perante o confinamento também verbal no qual aceitamos viver para conseguirmos dizer tudo o que queremos nos 280 carateres de um tweet.
Ando resguardada em vez de confinada e estou estupenda em vez de ok. Mas guardo o despacito, nunca se sabe… talvez seja um bom ritmo para 2021. Para as palavras e para o que elas têm de teimar em dizer.

Patricia Portela
Nascida pela altura da Intentona das Caldas, Patrícia Portela aprendeu a respirar pouco antes da revolução. Interessou-se por livros e bonecos já livre da ditadura. Segue à risca a máxima grega: transforma o mundo sem estrondo mas com esperança. Gosta de formigas físicas e metafísicas, de viajar e de olhar e ouvir a filha.” (por Raul J. Contumélias)

Esta iniciativa resulta de uma parceria Coffeepaste / Prado. A Prado é uma estrutura financiada pela DGArtes / Governo de Portugal para o biénio 2020/2021.

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Comments

  1. O primeiro passo para inviabilizar o sentido crítico. Se não conheceres a palavra que melhor assenta no que pretendes transmitir, podes optar entre apresentar uma versão deturpada do teu pensamento ou, jogar pelo seguro e não dizer nada. É o famoso “em terra de cegos, quem tem olho é rei”, mas na possível versão em que, havendo olhos, devem estes ser cegados para que o último olho possa experimentar a vantagem.

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