Deste Mundo e do Outro: um escritor em Alta voz

Por Ana Margarida de Carvalho

É um pensamento recorrente meu, e provavelmente também acontecerá a muitos outros leitores. Sempre que ocorre algo de aviltante, algum atropelo feroz dos direitos humanos, parar e pensar: o que é que José Saramago diria disto? Porque quando o perdemos, no dia 18 de Junho de 2010, não perdemos só a pessoa e o escritor, não perdemos apenas o único Nobel de língua e da literatura portuguesas: perdemos uma voz. Porventura a nossa voz. Uma voz referencial, de permanente questionamento. Uma voz que não se deixava dominar pelo rebanho das opiniões cautelosas, temerosas, demagógicas, agradistas, estrategas, retóricas, massificadas e estafadas do uso e abuso. Uma voz de constante interrogação, da dúvida sistemática, que perdia o respeito aos cânones fossem da gramática ou do género literário. Que não acatava obediências senão à sua própria verdade. Uma voz que iluminava as zonas sombra da nossa consciência, que colocava em perspectiva. Uma voz desmistificadora, que sempre é para alguns uma voz incómoda. Cheia de lucidez, de assumido comprometimento e contínuo activismo. E também de uma serena inquietação, honestidade desarmante, pacifismo sentenciador, e sabedoria combativa … E a falta que essa voz, original, denunciante, nos faz. Nunca tivemos outra assim, provavelmente nos tempos próximos não teremos outra assim..

O que é que Saramago diria desta tragédia democrática no Brasil, desta auto-agressão, deste suicídio, desta onda auto-destrutiva de tudo o que de bom a civilidade nos trouxe? Deste ódio que rebentou contra os mais desfavorecidos, os pobres, as mulheres, os negros, as minorias? Das maiores deformidades do mundo a eclodirem, o genocídio, a devastação do planeta, o egoísmo, a barbárie das igrejas a manipularem os seus fiéis. Se puderes ver, olha. Se puderes olhar, repara. O que é que Saramago, esse livre pensador, diria disto? E nós, que precisamos tanto, neste momento, de ajuda para entender o ininteligível mundo, este, e toda a sua brutal e rude indecifrabilidade… Tudo tão opaco, tão obscuro, confuso e perigoso.

Pois é, faz-nos falta, perdemos a voz, emudecemos.

Saramago, cidadão e escritor indissociáveis. Ele e o seu imperativo crítico, que nunca se alheou, nunca se distanciou, que intervinha política e publicamente. Há quem diga que Saramago deixou desenhada a sua silhueta no mundo. Dizia e escrevia sobre o que lhe apertava a garganta, o sufocava, a ele e a nós. Por isso, com esta ausência sentimos esta espécie de orfandade ética e reflexiva – irreparável.

Lembro-me de uma vez ir assistir a uma palestra, seria na aula magna ou na Culturgest. Saramago falou durante uma hora. Talvez mais. Os jornalistas sempre à pressa, na busca de um sound bite, abandonaram a sala, já teriam que lhes bastasse para a peça do dia no telejornal. Eu estava preocupada, porque não me encontrava lá em trabalho (ninguém se interessou na revista onde eu trabalhei por esta palestra – a última que Saramago deu em Lisboa –)e, estava, de facto, inquieta, a gerir o meu arrependimento e desassossego, porque levava o meu filho mais novo, pequenino, que acabara de ir buscar à escola. E temia que ele se distraísse, se cansasse, quisesse ir para casa. Nada disso aconteceu. O miúdo ficou sentado, em estado quase de encantamento pelo discurso hipnótico do escritor, pela cadência de rio como as palavras iam sendo encadeadas – palavras que ele até podia não entender na íntegra. Mas foi algo que ele não esqueceu. Lembro-me também que peguei num caderno e escrevi, palavra por palavra, o que Saramago ia dizendo e fiquei com um texto enorme, várias folhas, mas perfeito, completo, sem uma única rasura. Era impressionante a fluidez do discurso, a relevância, a iluminação, a cadência, era um escritor em alta voz que ali estava. A língua então era um fluxo ininterrupto. Admitindo que possamos compará-la a um rio, sentimos que é como uma grande massa de água que desliza com peso, com brilho, com ritmo…

Um escritor em alta voz.

Tal como é um escritor em alta voz que já comparece neste livro Deste Mundo e Do Outro, um mosaico de cerca de 60 crónicas, escritas entre 68 e 69, publicadas na Capital no tempo das meias palavras, dos subentendidos, das sugestões (da censura, portanto), – («a crónica adiada, a minha guerra contra as indiferenças, as abdicações»). Já aqui era o escritor que nos falava. Nenhum jornalista escreve assim, nenhum escritor repara assim. Se puderes olhar, vê. Se puderes ver, repara. Saramago chama-lhes crónicas, mas a larga maioria são contos. Deste mundo, e ele está em estado de híper-vigilância, praticando sempre a atenção, o já então vício de pensar historicamente (condensado na frase de Pessoa, Ah, quem escreverá a história das coisas que nunca foram). A arte de reparar, até no não romantismo das estrelas «duras, nítidas, implacáveis, quase ferozes». E do Outro e aqui surgem, algumas angústias, pesadelos, uma sua quase religiosidade laica, a ameaça da noite, o freio gelado do medo perante uma árvore isolada e alta, o não olhar das estátuas, pensamentos, meditações íntimas («pior do que ter tido e não ter, é ficar aquém do que se sonhou») que nos habituámos a reconhecer no escritor. Já lá está muito do futuro romancista. Na própria forma de escrever, na linha de raciocínio, na linguagem parentética, nos apartes reflexivos, sobre o mundo, o tempo, «a serenidade de saber-se transitório e sorrir disso», e as inquietações existenciais e políticas que lhe era permitido à época escrever.

Nestas crónicas/contos estão, não o embrião do escritor, mas o próprio escritor que ainda não se revelara. como se Saramago cronista ainda não tivesse sido apresentado ao Saramago escritor – no entanto, co-existiam. A sua voz e os temas que lhe foram caros ao longo da sua obra estão lá. Pensava ele que ainda não tinha dado o salto, da margem do jornalismo para a da literatura, mas já lá estava, e talvez até o próprio, no fundo, já o suspeitasse. Logo na primeira crónica, A Cidade, uma parábola de um cerco em que o homem está fora de si e tem de forçar a entrada dentro de si próprio, lê-se: «Ninguém sabe nada de si antes da acção em que tiver de empenhar-se todo. Não conhecemos a força do mar enquanto ele não se move. Não conhecemos o amor antes do amor».

Tal como já então comparecem as suas considerações, algo melancólicas, algo irónicas sobre esta estranha coisa que é estar vivo: «A história das pessoas é feita de lágrimas, alguns risos, umas tantas pequenas alegrias e uma grande dor». Sobre isto de sermos humanos: «Uma máquina complicada, em que os fios do presente activo se enredam na teia do passado morto, e tudo isto se cruza e entrecruza de tal maneira, em laçadas e nós, que há momentos em que a vida cai toda sobre a gente e nos deixa perplexos, confusos, e subitamente amputados do futuro».

Em certa crónica, escreve: «A vida é uma longa violência. Houve um tempo em que achei que era uma longa paciência – era mais novo e mais céptico». Em seguida acrescenta: «Com a idade descobre-se que só vivendo violentamente se enchem os dias de vida».

As memórias tão marcantes da infância, da Azinhaga, o campo («todos nós, diz ele, devíamos ter nascido e vivido no campo), Lisboa (uma «aldeia de um milhão de vizinhos») os avós, as árvores que são tão nossas conhecidas do livro de 2006, Pequenas Memórias. Um texto comovente dirigido à avó Josefa, então com 90 anos, que é porventura a mais emotiva homenagem: «Não sabes ler. Tens as mãos grossas e deformadas, os pés encortiçados. Carregaste à cabeça toneladas de restolho e lenha, albufeiras de água. Viste nascer o Sol todos os dias. De todo o pão que amassaste se faria um banquete universal. Criaste pessoas e gado, meteste os bácoros na tua própria cama quando o frio começava a gelá-los». Mais adiante: «Como tu, não vi rir ninguém. Chegas ao fim da vida, e o mundo ainda é para ti o que era quando nasceste: uma interrogação, um mistério inacessível, uma coisa que não fazia parte da tua herança: quinhentas palavras, um quintal a que em cinco minutos se dá a volta, uma casa de telha vã e chão de terra batida» E ainda: «Mas porquê, avó, porque te sentas tu na soleira da tua porta, aberta para a noite estrelada e imensa, para o céu de que nada sabes e por onde nunca viajarás, para o silêncio do campos e das árvores assombradas, e dizes, com a tranquila serenidade dos teus 90 anos e o fogo da tua adolescência nunca perdida: ‘o mundo é tão bonito e eu tenho tanta pena de morrer’».

E o avô Jerónimo: «Era um homem, um homem igual a muitos desta terra, deste mundo, um homem sem oportunidades, talvez um Einstein perdido sob uma camada espessa de impossíveis, um filósofo, quem sabe?, um grande escritor analfabeto, alguma coisa seria, que não pôde ser nunca». É aqui que Saramago conta pela primeira vez o último dia do avô, na premonição de que o fim chegara e que irá, de árvore em árvore, do seu quintal, abraçar os troncos, despedir-se deles, dos frutos que não voltaria a comer, das sombras amigas.

Fala do seu desgosto pela velha casa destruída pelas “bondosas” – era assim que as pessoas da terra chamavam aos bulldozers – «perdi uma casa velha mas ganhei uma palavra nova»… «Então deitaram a baixo as sagradas e centenárias paredes da Velha Casa, essa que me tem sido pretexto para evocações e lirismos». «Na vida de cada um de nós há sempre uma Velha Casa. A minha já não existe. Demoliu-a uma história de partilhas e ódio fraterno, uivada diante do espanto de um rosto velho. Desta maneira é que morrem as infâncias, quando os regressos já não são possíveis».

Se algumas crónicas são contos, outras são reflexões, cintilações, alucinações, divagações, primeiras impressões, memórias que ficam, risos, lágrimas, umas mais melancólicas, outras mais irónicas, outras muito emotivas (a da criança que pinta a neve de preto porque a mãe morreu), mas nunca sentimentais.

O autor refere-se-lhes enquanto crónicas, «como pontes lançadas no espaço vazio à procura de solo firme onde possam assentar a sua esperança de duração». Outras, porém, poderiam ser esboços de romances. Na crónica A Vida Suspensa evoca-nos as Intermitências da Morte, «e no dia seguinte ninguém morreu». E a crónica São Asas, em que fala da estátua de Luís de Camões, e da sua voz, «trancada nos lábios de bronze» – «A estátua é uma justificação, o remorso de um desamor», e acrescenta mais adiante «delego também nos pombos a tua coroação», remete-nos para O que Farei Com este Livro.

Para além do interesse literário dos textos, também pode haver aqui uma bolsa de curiosidade académica para os estudiosos. Há crónicas profundamente intimistas, com acesso directo ao que se passava na cabeça por Saramago nos finais dos anos 60, e até temos as impressões da viagem do primeiro homem à Lua – uma crónica histórica. E também para um Portugal sufocado, amordaçado, que largava um cheiro a mofo e a desesperança. Já aqui encontramos uma certa suspeita inconsciente de posteridade e de que isto não ficaria por aqui: «Que figura seria a minha, daqui por cem anos, se um excêntrico qualquer se lembrasse de desenterrar as minhas crónicas…»

Em todas está patente a sua luta com a matéria bruta. «As palavras são boas. As palavras são más. As palavras ofendem. As palavras pedem desculpa. As palavras queimam. As palavras acariciam. As palavras são dadas, trocadas, oferecidas, vendidas e inventadas. As palavras estão ausentes. Algumas palavras sugam-nos, não nos largam: são como carraças: vêm nos livros, nos jornais, nos slogans publicitários, nas legendas dos filmes, nas cartas e nos cartazes. As palavras aconselham, sugerem, insinuam, ordenam, impõem, segregam, eliminam. São melífluas ou azedas. O mundo gira sobre palavras lubrificadas com óleo de paciência. Os cérebros estão cheios de palavras que vivem em boa paz com as suas contrárias ou inimigas. Por isso as pessoas fazem o contrário do que pensam, julgando pensar o que fazem».

Este artigo foi publicado ao abrigo da nossa parceria com a Fundação José Saramago. Foi publicado originalmente na Revista Blimunda de novembro/dezembro de 2018.

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