Diana Ferreira – Entrevista

A bienal Aveiro Síntese 2020 decorre de 27 de Agosto a 20 de Setembro com 10 concertos de música electroacústica em vários espaços da cidade. Conversámos com a programadora Diana Ferreira para saber um pouco mais sobre o evento.

Antes de mais, como estás a viver estes tempos únicos?
De forma única. Nas primeiras duas semanas, pensava que ia conseguir aproveitar o tempo para fazer imensas coisas. Ao fim de algum tempo fechada em casa, estava viciada em filmes e livros e também um bocado desmotivada, porque é muito difícil programar sem ter noção de quando será possível regressar. Foi óptimo o Teatro Aveirense desafiar-nos a redesenhar o programa da bienal para uma edição de verão.

Como tem vindo a evoluir a Aveiro_Síntese desde a sua criação em 2002?
Não sei se se trata de evolução, mas tem sido um processo dinâmico. Primeiro houve um longo período de inactividade. Em 2016, sem qualquer apoio financeiro, mas no seguimento de pequenas iniciativas de divulgação, percebemos que era urgente retomar este espaço onde damos a ouvir a música que nos interessa. Conseguimo-lo com a cedência de espaço do Museu Arte Nova, com equipamento de som da Universidade de Aveiro e com a colaboração cúmplice dos poucos músicos envolvidos. Em 2018, a bienal foi acolhida no Teatro Aveirense e obtivemos apoio sustentado da DGArtes. Mudámos de escala. A bienal passou a contar com o apoio da equipa técnica do Teatro, pudemos ocupar várias salas em simultâneo, ter instalações sonoras ou multimédia, fazer encomendas a compositores portugueses… Fizemos mais música de câmara e demos novo fôlego a um projecto que havíamos começou em 2017, em parceria com o Atelier de Composição, em que convidámos uma série de compositores a escrever peças para instrumento solo e electrónica (em 2018 também para agrupamento e electrónica) destinadas a crianças e jovens estudantes de música de diferentes níveis – Nova Música para Novos Músicos

Para esta edição de verão, de 2020, tivemos que fazer adaptações de última hora e, apesar de contarmos com a participação de alguns portugueses que vivem no estrangeiro, concordámos em adiar as actividades em que trabalharíamos com músicos de outras nacionalidades.

Em que é que a música electroacústica marca a diferença em relação aos outros estilos musicais?
Não vejo a electroacústica como um estilo, mas antes como um meio muito abrangente. Não temos sequer a pretensão de programar um pouco de tudo. Há muita gente a fazer projectos muito diferentes em electroacústica, em Portugal. Se fizermos um festival de quartetos de cordas, só precisamos de 4 cadeiras e estantes (e de critérios para conceber bons programas com bons músicos). Num festival de electroacústica, além de uma programação criteriosa, precisamos também, no mínimo, de muitos cabos e altifalantes, que costumam ser o mais pesado que temos que carregar e montar.  Para além disto, o equipamento vai variando consoante o que se quer fazer. E tanto podemos fazer música tonal (como Wendy Carlos), como serial (como Milton Babbit), ou muitas outras técnicas e estéticas… não há limite. Um dos aspectos fascinantes da electroacústica é a expansão dos limites fisicamente impostos pelos instrumentos tradicionais, é o trabalho sobre o som como matéria prima. …Mas também os limites dos instrumentos tradicionais têm sido expandidos no trabalho de compositores e intérpretes.

O que podemos esperar da edição de 2020 da bienal?
Penso que o que caracteriza esta edição é a diversidade de propostas. Cada um dos dez concertos obedece a uma lógica própria, embora haja pontos em comum entre alguns deles e, no geral, procuremos criar espaço para a apresentação de algumas obras “históricas” e do trabalho de criadores portugueses. Temos um recital para guitarra e electrónica, que gravita em torno de John Dowland (1563 – 1626) com música de Natasha Barret, o guitarrista Hugo Simões e Nádia Carvalho na informática musical  (Igreja das Carmelitas, 27 Agosto); uma dupla performance de electrónica ao vivo, com Carlos Santos e com João Carlos Pinto (Claustro da Misericórdia, 28 Agosto); um cine-concerto que assinala o centenário d’O Gabinete do Dr Caligari, com Tiago Cutileiro e Marta Navarro (idem, 29 Agosto); um recital de música de quarteto de cordas com e sem electrónica, em que cabe também uma obra acusmática, com o ars ad hoc a estrear obras de João Carlos Pinto e Ricardo Ribeiro (idem, 30 Agosto); um concerto com uma única obra para violino e electrónica, que é uma obra histórica de Luigi Nono que há muito queríamos apresentar, com A. Gaio Pereira e Ricardo Guerreiro (idem, 3 Setembro); um recital de música de câmara com electrónica, vídeo …e Beethoven, também com o ars ad hoc, mas desta vez a estrear obras de Carlos Caires e Kristine Tjøgersen (Teatro Aveirense, 4 Setembro); um concerto com uma formação reduzida e heterogénea pela Orquestra XXI, com o seu maestro fundador, Dinis Sousa (Pátio do GrETA, 5 Setembro); um concerto de estreias de peças mistas compostas especificamente para jovens músicos em formação, com direcção de Nuno Aroso e assistência de Nádia Carvalho (Teatro Aveirense, 6 Setembro); um concerto para percussão electrónica em que até há obras sem instrumentos, dirigido por Nuno Aroso (idem, 19 Setembro) e um concerto de música acusmática, com música histórica, música nova e uma selecção de jovens compositores portugueses – Música em Criação, com obras de Xenakis, Ludger Brümmer, Marta Domingues e Cláudio de Pina (idem, 20 Setembro).

De que forma é que a música electroacústica casa com um filme centenário?
Creio que pode “casar” de múltiplas formas. Neste caso, confesso que não é um projecto original, na medida em que estes mesmos músicos já o apresentaram nas Curtas de Vila do Conde em 2019. Para quem não assistiu à estreia, aqui está uma óptima oportunidade de fruir a proposta de expressão sonora que Marta Navarro e Tiago Cutileiro fazem para este expoente do expressionismo do cinema.

Cerca de metade dos eventos tem lugar em igrejas e claustros. Foi uma escolha deliberada?
Por norma, o Teatro Aveirense está fechado durante o mês de Agosto. Como contamos com o apoio total da equipa do Teatro, acolhemos de bom grado a ideia de ocupar diferentes espaços. Apesar de não sermos nós a andar com o equipamento às costas, não seria muito prático alargarmo-nos por mais espaços do que os 5 que ocuparemos, porque o tempo de montagem nunca é muito breve.

O recital de guitarra e electrónica, com música do Renascimento e contemporânea, fica mesmo bem na Igreja das Carmelitas. Esperemos que as últimas noites de Agosto nos deixem usufruir do Claustro da Misericórdia sem termos que accionar nenhum plano B.

Podemos dizer que hoje em dia a tecnologia é indissociável da música, mesmo fora da electroacústica?
Há muito tipo de tecnologia, mas também há muitas abordagens e muitas formas diferentes de fazer música. Ainda há muita gente a escrever à mão, sem recurso a nada que não seja papel e lápis. Há compositores que não compõem música electroacústica, mas usam o computador como apoio à pré-composição, como gerador de informação ou para análise de dados em processos de sonificação. De resto, não sei se um violino e um arco não serão só por si uma tecnologia de extrema sofisticação. E a tecnologia nunca é garante de qualidade. Procuramos criar espaço para dar a conhecer obras históricas que desafiaram o seu tempo (impulsionando inovações tecnológicas ou, “simplesmente”, sonhando novas formas de pensar a música) e, simultaneamente, criar condições para que os compositores do nosso tempo possam, eles próprios, fazer a nossa história. Sabemos que uma parte das encomendas que fazemos não chega a concretizar-se em algo que possa merecer o panteão, mas não temos medo de apostar nos nossos contemporâneos que dêem provas de seriedade no trabalho que desenvolvem. O caminho faz-se caminhando.

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