Diogo Freitas – Entrevista

Diogo Freitas é um jovem actor e encenador. Estreia dia 5 de abril, em Gondomar, o espectáculo “Dilúvio”. Falou-nos do espectáculo, da companhia inskène, do projecto “FORA”, de Ricardo Neves-Neves, e do Teatro em Portugal.

Podes falar-nos um pouco sobre a companhia “inskène”?
A inskène foi uma companhia de teatro fundada em 2009, com o objetivo de ser um veículo de integração social em Gondomar através do Teatro. É a companhia residente do Auditório Municipal de Gondomar desde 2017, local onde apresenta regularmente os seus espetáculos. Ja levou a cena espetáculos de Jean Paul Sartre, Jean Gennet, Luigi Pirandello, entre outros. Em 2018 foi a co-produtora da primeira residência artística em Gondomar. Projeto este que deu continuidade no presente ano, com o nome Fora. Esta residência artística pretende ser uma plataforma de criação de fluxos teatrais dentro e fora de Portugal.

No que consistiu o projecto de residências “FORA”?
O projeto Fora nasceu no ano passado em 2018 através da inskène. Foi uma parceria Portugal-França, com o encenador convidado Alexi. Começou com uma grande vontade dos inskène e de Gondomar de criar uma rede, um circuito de espetáculos e oportunidades ligadas ao teatro. Na minha experiência pessoal, neste segundo ano do projeto, este é um lugar com tempo e espaço para criar. O projeto contribui para a possibilidade de criação. Algo também muito escasso, infelizmente. Foi possível juntar um grupo elegido por mim, e lutar contra tudo e todos para levar isto avante. Somos a resistência.

O que podemos esperar do teu novo espectáculo, “Dilúvio”?
Eu gostava muito que as pessoas se sentassem e parassem um pouco as suas vidas que estão a mil à hora e que nos escutassem. Porque o que está a ser dito aqui neste palco é um alerta, uma chamada de atenção. Existem mil e uma formas de dilúvio: pessoais, comunitárias, literais, metafóricas. Espero que isto ecoe, seja de que maneira for.
Este espaço é um espaço muito marcado mas com margem para a individualização de cada espetador.

Como foi trabalhar as palavras de Ricardo Neves-Neves?
Recentemente estive a trabalhar em Lisboa e fui ver alguns espetáculos da autoria do Ricardo. E o que me fascinou foi a megalomania que vi em cena. Falei com o Ricardo e pedi alguns textos, pois fiquei com a vontade de os ler e fazer. Adoro o trabalho de pormenor. O gesto, a sonoridade. Nada é por acaso e é trabalhado ao pormenor. Tudo tem uma intenção. Até a própria sonoridade da própria palavra. Trabalhar textos que não são, à partida, ligados, cria um maior leque de oportunidades dramatúrgicas, que, de mãos dadas com estes desejos (que vêm aliciados pelo trabalho do Ricardo mas também do tipo de trabalho que me identifico) originam este projeto. Um verdadeiro dilúvio.

É importante mostrarem o trabalho fora dos grandes centros urbanos e circular pelo país?
É sempre importante mostrar o nosso trabalho, seja ele dentro ou fora nos centros urbanos. Quando este projeto surgiu, a ideia era fugir da saturação do público do Porto. Ou seja, o público no Porto está maioritariamente preso a duas grandes salas e é necessário sair e ver mais variedade. Ver que existem outros espaços, outras pessoas, outras microculturalidades.

Como vai o teatro em Portugal?
Acho seriamente que, no geral, estamos com uma grande falta de critério, atualmente. Sem querer falar das questões monetárias, existem também as questões de desvalorização do nosso trabalho. Trabalhar com arte ou na arte é estar constantemente inquieto com alguma coisa. E é isto que me move a fazer este e outros espetáculos: algo dentro de mim que me inquieta. E por vezes acho que os espetáculos em Portugal não comunicam com o público. Estão tão fechados em si mesmos que não passam para cá. Claro que esta opinião é pessoal, mas faz-me confusão, pois sempre que faço algo tento chegar a alguém. Enfim, no geral, acho que está a faltar esta linha que liga o intérprete ao espetador.

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