Dobra, Dobra, Estica, Estica

Por Andréa Zamorano

Para Nivaldo Tenório

A instrutora insistia dobra, dobra, estica, estica. Bem me esforçava, os tornozelos inchavam, os joelhos se queixavam, quando não era a coordenação que falhava. Persistia obstinada, dobra, dobra, estica, estica. Me empenhando em fletir o corpo e mover as cadeiras de um lado para o outro no ritmo das batidas dos sucessos de Blaya e Anitta, filhas tardias das mesas de mistura de Afrika Bambaataa e The Soul Sonic Force que desde a juventude me arrancavam beats sem swing. Eu não desistia.

A minha natureza jamais foi propícia à atividade física menos ainda para a dança. Os movimentos que obrigavam as minhas nádegas afiambradas a se moverem de forma alternada, independentes do resto do meu corpo, em nenhum momento da minha longa existência haviam-me pertencido. Aquela aula de grupo era a minha oportunidade.

“Faz bem”, afirmou o meu cardiologista em mais de uma oportunidade alertando também sobre a iminência de uma diabetes tipo II por conta do meu perímetro abdominal acima do expectável. Não esquecendo de mencionar o incremento da probabilidade de doenças cardiovasculares. Há anos era hipertensa. O exercício físico contribuiria para a produção de bom colesterol e controle da insulina, reforçou o médico.

Me imaginei outra vez vestida com as leggings de lycra colante, uma t-shirt escura larga na parte de cima do corpo para disfarçar o tal perímetro. Me lembrei das figuras que fazia em trajes desportivos e do desgosto que infligia: do meu pai a dizer para a mãe que desistisse de fazer qualquer coisa daquela menina; da minha mãe se resignando com a sina de ter uma filha daquelas; de ser obrigada a passar dias inteiros fechada, sem poder sair do meu quarto, muito menos para ir à cozinha, lendo com os headphones postos. No volume mais alto,  Run DMC, Rob Base & Dj Ez Rock, Salt-N-Pepa, Grandmaster Flash e the Message entravam com “ don’t push me ‘cause I’m close to the edge”.

Em tempo algum estive à beira da mesma ruína que os intérpretes das canções que ouvia, mas estar à margem nos igualava em sentidos que desconhecia. Um dia saberia caminhar no Harlem em que me encontrava sem nunca ter estado lá. Fui para a dança.

Talvez por esse meu talento especial ou quem sabe por ser diretora geral de um conglomerado de comunicação, responsável pelo maior grupo editorial do país, estar constantemente nas páginas das colunas sociais, ser frequentadora dos desfiles da moda, habitué em festivais de música pelo país, às vezes também no exterior, acabei despertando o interesse de um jovem com menos de metade da minha idade que frequentava as aulas no estúdio ao lado do meu. As paredes de vidro permitiam a contemplação da sua fisiologia em exercício e que trabalheira, pensei. Em breve, aquela seria outra vergonha para juntar à lista dos meus progenitores para quem eu era um paradoxo.

Desde menina fui entroncada, bastante desajeitada, constrangendo os meus pais em circunstâncias várias. Fenotipicamente decalcados das capas das revistas que por ironia eu viria a controlar anos depois, pareciam-se ambos mais a um casal de galgos ingleses do que em alguma proporção à mim.

Não conformados com a sorte de uma filha daquelas, em pequena tudo fizeram para que me transformasse numa figura longilínea: ballet clássico, ginástica rítmica, esgrima, equitação e até karaté. Os intentos não lograram mais do que tentativas falhas. Ao fim de poucas semanas, eram os próprios monitores dos exercícios a sugerirem que a menina cultivasse as atividades de leitura, os jogos de tabuleiro ou quiçá até o bordado. Teria preferido qualquer uma dessas ocupações, não tive escolha.

Quando a minha aula terminou, lá estava o meu futuro namorado à espera para exibir os versos tatuados no corpo em minha honra. Fingi que me encantava. Durante anos a minha vida amorosa fora uma ribanceira muito íngreme, aprendi a escalá-la. Por fim, galgava dias felizes sem as inconveniências e as mazelas do amor afetivo. O carnal me parecia de novo aprazível.

À noite depois do trabalho, em frente da agigantada televisão desligada, num dos quartos no meu apartamento virado para a praia que nunca frequentei, procurava o reflexo da minha imagem na tela. Queria corrigir os movimentos, dobra, dobra, estica, estica. Repetiria aquele exercício dias a fio até alcançar a perfeição na arte do quadradinho. Outro desprezível feito para os meus pais.

Orgulhosa, passei a frequentar mais aulas e a aceitar as investidas do meu atual namorado. À medida que a relação evoluía, os meus movimentos também: sabará, cruzada e twerk aconteciam com maior frequência e velocidade na minha sala de enormes janelas envidraçada para o mar.

Sentia-me leve, já não escondia o meu jovem namorado que pedia a minha aprovação para os versos escritos no seu caderninho quando lia com a cabeça apoiada nas minhas ancas generosas. Resolvi dar a última punhalada no que restava da relação com os meus pais, convidei o meu namorado para morar lá em casa. Nunca mais me falaram.

Pão de sete sementes, manteiga com flor de sal, uma omelete só de clara com ervas da Provence, finíssimas fatias de peito de peru e um café preto, tudo isso servido numa bandeja pela manhã na cama como numa publicidade. Os lindos, ricos, jovens, bem sucedidos e felizes amavam-se com café, ame-se com Segafredo, afinal a vida podia ser muito boa. Só era pena não me enquadrar em todas as categoria do comercial que inventei para mim mesma.

Outra consulta médica confirmou uma perda acelerada de densidade óssea, receitaram-me CalcimedD3. Um pastilha mastigável repugnante todas as noites, só tolerava em prol da minha recém conquistada competência para a dança. Não a perderia, não tão cedo.

Cheguei do trabalho, fui direto à cozinha, um hábito antigo. Encontrei um bilhete do meu namorado, avisando que chegaria tarde da faculdade, colado no micro-ondas. Ninguém mais escrevia bilhetes, estava maravilhada com as banalidades da vida quotidiana. Terminei o meu lanche de pé, olhando para a sua letra no papel autocolante, ouvi o barulho de uma mensagem chegando ao telefone que o meu namorado se esqueceu em cima da  bancada da cozinha, junto com as chaves do apartamento.

No Iphone, presente meu pelo seu aniversário, as mensagens apareciam em catadupa. Li uma por uma. Poderiam ter sido escritas pelos meus pais se eles tivessem a idade da amiga do meu namorado que lhe escrevia.

Pedi que levassem as suas malas para a recepção do prédio, fiquei com as chaves e o telefone. Fui para frente da TV desligada, dobra, dobra, estica, estica, dobra, dobra, estica, estica, dobra, dobra, estica, estica, dobra, dobra, estica, estica.

Este artigo foi publicado ao abrigo da nossa parceria com a Fundação José Saramago. Foi publicado originalmente na Revista Blimunda de abril/maio de 2019.

Foto de Scott Webb

Deixa o teu Comentário

Este site utiliza o Akismet para reduzir spam. Fica a saber como são processados os dados dos comentários.