Dora Carvalho (Forum Dança) – Entrevista

O Forum Dança foi criado em 1990 com o objetivo de promover a dança contemporânea através da formação profissional e artística. Encontra-se em atividade continua desde 1991, formando em Lisboa, Porto, Torres Vedras e Algarve, designadamente: Monitores de Dança para a Comunidade, Intérpretes de Dança Contemporânea, Gestão/Produção em Dança, Gestão/Produção das Artes do Espectáculo, Reciclagem de Monitores de Dança, Pesquisa e Criação Coreográfica, Técnicas de Dança para a Comunidade, Dança na Comunidade.

600_PedroMendes_MG_4407Qual o balanço do trabalho desenvolvido ao fim destes anos, e quais os projetos futuros?
São muitos anos… 23. Fizemos no dia 14 de Fevereiro 23 anos de actividade, eu trabalho no Forum há 17. Temos muitos projectos, vocês já fizeram uma introdução daqueles que são os projectos nucleares do Forum Dança: Cursos de média e longa duração em 3 áreas, na formação de professores de dança para a comunidade, na formação de intérpretes e de coreografos\criadores de dança contemporânea e na formação de produtores. Estes são os 3 projectos maiores do Forum Dança e são aqueles que nos exigem mais tempo e dedicação. Somos uma equipa pequena apenas com 3 elementos que se desdobra em inúmeras tarefas.
Ao longo dos 23 anos de actividade fizemos 40 cursos, em média com 16 alunos cada.

Para além destes projectos fazemos outros para um público não profissional. Temos aulas regulares abertas ao público, dança contemporânea, Yoga, Pilates e Ballet para além de muitos workshops. Qualquer pessoa que queira fazer dança pode vir fazê-la no Forum Dança. Também temos um programa de actividades para crianças nas férias lectivas, o Arte Jovem; é um programa semanal em que as crianças têm contacto com várias disciplinas artísticas, com vários géneros de dança, teatro e vídeo, música artes plásticas e voz. É um programa lúdico e com uma forte componente criativa. Durante uma semana trabalham com os professores/artistas e no final apresentam os trabalhos que criaram ao longo da semana. Temos também um centro de documentação especializado em dança que está aberto ao público todos os dias.

O balanço é muito positivo, porque os resultados são bons. Quando fazemos formação e depois começamos a ver as pessoas a trabalhar na área é um prazer enorme, porque é isso o que o Forum Dança faz. Não é uma formação académica, é uma formação profissional que liga as pessoas acabadas de formar noutras instituições, ao meio profissional. Conseguimos ver os resultados, na dança contemporânea muitos dos artistas que são apresentados nacional e internacionalmente são artistas que fizeram os seus primeiros trabalhos quando eram ainda alunos do Forum. Muitos dos professores que fazem um trabalho ligado à comunidade também foram nossos alunos, os produtores também, estão ex-alunos nossos a trabalhar em muitas estruturas culturais e também foram concebidos projectos que os alunos conseguiram implementar (como é o caso do Coffeepaste, entre muitos outros).

Actualmente há muitos profissionais a trabalhar nestas áreas, o que não acontecia há 20 anos atrás, acho que contribuímos significativamente para este crescimento.

Em relação aos projectos futuros estes 3 eixos de formação vão-se manter, o curso de gestão está a decorrer este ano em Lisboa e em Vila do Conde, estamos a  preparar uma nova edição do PEPCC para ter início em Setembro, o curso de Dança na Comunidade está a decorrer desde Janeiro. Basicamente estes 3 eixos estão a funcionar e as aulas para públicos não profissionais estão a decorrer desde Setembro.

Queremos apoiar mais projectos de jovens artistas proporcionando-lhes residências, porque é cada vez mais difícil começar a trabalhar. Não temos muito dinheiro, mas ainda temos alguns meios que podemos disponibilizar aos artistas. Os bailarinos/coreógrafos precisam de espaço para trabalhar e enquanto tivermos espaço podemos oferecê-lo e apoiar a criação de novos trabalhos.

600_PedroMendes_MG_4418Dos projectos que acabaram por não se realizar gostarias de destacar algum?
Vou destacar dois. Houve varios… Houve um Curso que  nós quisemos desenhar, na altura com o Ezequiel Santos, e tive muita pena que não tivesse avançado, que era um curso sobre Análise Crítica. Em Portugal não existe crítica, ou existe muito pouca e muito menos na área da dança. Nós tivemos essa vontade, chegámos a fazer um esboço e depois já não me lembro porquê, acabou por não ir para a frente. Outro foi um curso que construí em 2010 um Programa de Estudos Avançados em Artes. Divulguei-o no final de 2010, no momento em que começaram as más noticias e começaram os cortes na cultura. Penso que as pessoas desta área se começaram a retrair e o curso não era barato pois tinha uma forte presença de professores estrangeiros. Tivemos candidatos mas não os suficientes para suportar os custos do curso. Este era no fundo um “upgrade” do CGPAE, uma formação mais aprofundada e com um cariz mais teórico e reflexivo.

O espaço LX Factory de que fazem parte é propício à criação de sinergias entre os diversos ocupantes. Que parcerias já foram criadas e o que é que gostaria de ver surgir neste espaço?
Em 2008, quando viemos para cá, tínhamos mais contacto com outras estruturas. Havia menos empresas, havia uma ligação maior entre nós. O tipo de empresas que cá estavam tinha mais a ver com a nossa actividade, mais criativa e artística. Havia uma dinâmica engraçada na LX mas isso foi-se perdendo, porque cada vez mais o espaço começou a ser ocupado com projectos mais distantes da nossa actividade. E também, aqui na LX acontece um fenómeno que é estar sempre tudo a mudar. Tão depressa está uma empresa como está outra, como um espaço está ocupado e depois já não está. É difícil criar sinergias com tudo a mudar constantemente.

A maior “sinergia” é com O Rumo do Fumo, estrutura produtora dos coreógrafos Vera Mantero e Miguel Pereira com quem habitamos este espaço há quase 5 anos e ao qual chamamos Edificio, é uma relação muito forte e muito boa. Aliás, não queremos deixar de estar com o Rumo do Fumo, já achamos que não faz sentido não estar com eles. Duas estruturas complementares, aliamos a criação e a formação no mesmo espaço.

Descentralizaram recursos ao longo dos anos e expandiram os cursos para outra zonas do país que não Lisboa. Como correu a aposta, e que recepção encontraram por parte das comunidades?
Fomos muito bem recebidos. Na altura tínhamos condições bastante diferentes, os cursos eram financiados pelo Fundo Social Europeu, as pessoas não pagavam para fazer as formações o que era uma grande vantagem. É bom trabalhar fora do nosso centro e é interessante perceber que existem grandes diferenças em relação ao acesso e ao interesse pela área cultural. Sei muito pouco sobre o que aconteceu com os alunos a seguir. A desvantagem de fazer cursos fora de Lisboa é a distância que temos dos alunos, em Lisboa temos uma proximidade muito grande com eles e é bom ter essa proximidade.

Voltámos este ano a fazer um curso de gestão em Vila do Conde que está a decorrer em colaboração com  o Circular Festival, que é uma estrutura que surgiu exactamente de um projecto realizado num CGPAE feito no Porto.

600_PedroMendes_MG_4425Ao longo deste tempo já passaram por diversos períodos económicos. Estamos desde há uns anos para cá numa conjuntura de crise. Em que medida é que foram afectados, e que passos tomaram para a enfrentar?
Estamos em crise há muitos anos, é verdade, mas nós sentimo-la abruptamente em 2010. Foi quando o Estado deixou de cumprir com o contrato que tinha connosco. Somos uma estrutura apoiada pelo estado desde há 20 anos. Em 2010 efectivamente tivemos um corte, no nosso subsídio quadrienal, de cerca de 12% em relação ao orçamento que tínhamos para esse ano. Em 2012 tivemos um corte de 38%, foi mesmo muito forte.

Que medidas é que nós tomamos? Uma delas foi tentar tornar as nossas actividades acessíveis a mais pessoas, por exemplo o curso de gestão teve uma descida de número de horas semanais proporcional á descida de preço. Do espaço que tínhamos na LX Factory  a dividir com o Rumo do Fumo com 600 metros quadrados, passámos a ter só um terço reduzindo a renda na mesma proporção. Só o fizemos no segundo semestre porque tínhamos o  PEPPC a decorrer até Julho. Conseguimos com muito esforço aguentar o espaço e cumprir o programa do curso. Estas foram as medidas mais fortes, mas estamos a cortar em tudo o que podemos, mesmo nos ordenados (que nunca foram altos), porque isto só não é suficiente.

Agora estamos num momento aflitivo, fizemos uma candidatura à DGArtes para 4 anos e ainda não sabemos os resultados, não sabemos se seremos apoiados no próximo quadriénio nem com que quantia, estamos com quase 4 meses de actividades que não sabemos se é apoiada ou não. Isto é um risco muito grande para quem é responsável por uma estrutura.

Fizemos tentativas para receber outros apoios, mas está cada vez mais difícil obtê-los. Fazemos planos A,B,C,D,E,F,G,H, e por aí fora, mas nada está garantido neste momento.

Que conselhos darias para os artistas de amanhã?
Não vou dar conselhos… tenho um desejo, que os artistas tenham condições para continuarem a criar.

No Universo da formação para as artes do espectáculo em Portugal, o que falta implementar?
Neste momento não sei responder a essa pergunta. Falta-nos público, falta implementar hábitos de fruição cultural na população portuguesa. Acredito que se as pessoas fossem mais ao teatro, à dança, a exposições, lessem mais, fossem mais ao cinema seriam mais felizes.

Em 2013 há espaço para arriscar?
Eu espero que sim, para o bem de todos, que haja. Neste momento acho que estamos todos paralisados com medo. A situação é assustadora, muitas coisas mudaram e muito depressa e não sabemos com o que podemos contar num futuro muito próximo, é arriscado fazer projectos e o risco e o medo nem sempre são bons companheiros. O medo paralisa. Espero que não paralisemos todos.

http://www.forumdanca.pt

Entrevista: Coffeepaste (feita a 26/02/2013)
Fotos: Pedro Mendes

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