Eduardo Frazão – Entrevista

EduardoFrazaoComo te meteste no mundo da representação?
Tive o meu primeiro contacto com a representação em 1994, no centro cultural de Benfica, da Junta de Freguesia, nas aulas com António Feio.

Que tipo de formação tiveste?
Depois de dois anos na Junta de Benfica entrei para Évora, para a Licenciatura em Estudos Teatrais, para além da formação académica tento fazer formações específicas que me vão mantendo em forma e que me permitam trabalhar diferentes técnicas e metodologias.

Enquanto actor já experimentaste cinema, teatro e TV. Quais são para ti as maiores virtudes e desafios de cada um desses meios?
O Teatro para mim é a experiência dramática por excelência. Mas digo isto para mim enquanto actor, pela efemeridade daquele momento, pela proximidade e relação com o público, que não tens na tv ou no cinema. No cinema tens mais tempo para estudar as cenas e trabalhá-las do que na televisão, mas nunca o mesmo que se tem em teatro durante o processo de criação de um espectáculo. No entanto, a rapidez e a exigência temporal do trabalho em televisão, tal como a necessidade de muitas vezes encontrar soluções rápidas para diversas cenas da-te uma capacidade de improviso muito boa. O problema é ficarmos presos a essa dinâmica e depois não conseguirmos sair dessa “bola” que nos puxa para o centro.

Tambem participas regularmente como actor em dobragens, e já deste aulas. Um actor em Portugal têm que ser forçosamente polivalente?
Um actor tem que ser forçosamente polivalente. Em Portugal e em qualquer parte do mundo. Um actor tem que ser capaz de assumir muitas personagens diferentes, algumas longe da realidade, outras tão carnais que assusta. Mas para isso tem que ser versátil e disponível. Despreconceituosos com o seu trabalho e com o dos outros, e acima de tudo viver, todos os dias. Para depois poder jogar com isso. ” brincar à vida”. Em Inglês play…

Como é a experiência de dar vida a um personagem apenas com a tua voz?
Quando gostas de brincar, e em teatro tens que gostar de brincar, é muito divertido. Para além disso, as personagens normalmente já existem e, salvo alguns casos específicos, trabalhas sempre com uma referência, que é a voz original.

Actor marioneta ou criador?
Criador sempre. Criador da sua arte enquanto representação, comunicação e partilha com um mundo de uma idéia. Ou várias. Um artista é alguém que não consegue viver sem criar. Há os profissionais, que têm a sorte de conseguir viver do seu trabalho artístico. E depois há outros, não menos importantes, que para poderem fazer a sua arte têm que encontrar outras formas de subsistência. Mas resistem e fazem-na.

Qual foi a melhor e a pior experiência que tiveste no teu percurso artístico?
Vou so falar das melhores. No teatro foi o espectáculo “Dois” com Milton Lopes, no Cinema o “Capacete Dourado”, e na televisão foi este projecto que agora termina d’os Filhos do Rock.

Quais são os teus próximos projectos?
Posso dizer que no início do próximo ano estarei a apresentar uma criação minha, interpretada pelo Carlos Malvarez e pelo Miguel Raposo. Estou a desenvolver, com os meus amigos Joao Tempera, Cristóvão Campos, Ricardo Preto, João Fanfas, Gil Fidalgo e Cristóvão Carvalho, um projecto novo que temos muita esperança que não fique preso na gaveta, mas ainda está no segredo dos deuses. Há possibilidade de uma nova produção televisiva para a segunda metade do ano. Uma participação no filme do Miguel Gomes, “mil e uma noites”. Saiu agora o filme “matraquilhos”, onde tenho uma personagem que é o Beto. Estou à espera também de algumas respostas que podem influenciar o resto do ano. E para além disso, esperamos andar na estrada com os Barões, a tocar pelo pais. Para alguma coisa ando a aprender bateria.

O que é que gostarias de ver alterado nos próximos anos a nível de políticas culturais?
Gostaria que houvesse, primeiro, uma mudança de pensamento, porque uma mudança de política que não esteja assente numa nova forma de pensar a Cultura, o seu papel na sociedade e mais que isso na economia portuguesa não passará. Uma mudança que não esteja assente numa nova forma de pensar a própria sociedade, dificilmente passará, porque as “as forças da constância” tentarão de tudo para que nada mude. É preciso perceber a importância das Artes na evolução do homem enquanto ser, que existe aqui e agora, enquanto ser que se faz representar no mundo. Gostava que as crianças todas tivessem contacto com a arte desde pequeninos, com o movimento que dará lugar a dança, com a expresso dramática que dará lugar ao teatro, com os rabiscos que darão lugar à pintura, com a construção criativa (ex: legos) que pode dar lugar à escultura, à arquitectura. Temos que dar às nossas crianças ferramentas, não só para que possam apreender o mundo de uma forma mais emocional, mas para que o possam “representar” simbolicamente. Uma Arte de todos e para todos.

Que palavras sábias tens para as novas fornadas de jovens actores que aí vêm?
Nao tenho palavras sábias, até porque não sou sábio, mas posso lhes dizer que esta minha luta me deu a certeza que se querem mesmo uma coisa, não desistam, percebam qual é o vosso papel neste jogo da vida, mesmo. E insistam. Procurem sonhar e fazer os outros sonhar, “o sonho comanda a vida”.

Deixa o teu Comentário

Este site utiliza o Akismet para reduzir spam. Fica a saber como são processados os dados dos comentários.