Elisabete Paiva – Entrevista

No ano em que o Festival Materiais Diversos completa a sua décima edição, conversámos com Elisabete Paiva, a sua directora artística. Falou-se dessas 10 edições, do que a mais recente tem de diferente, da relação com o território, dos espectáculos e actividades paralelas, e de parcerias.

O Festival Materiais Diversos comemora em 2019, 10 edições. Que balanço fazes?
Creio que estamos numa boa trajetória! O festival é reconhecido dentro e fora de Portugal e projeta com ele o nome das localidades, projetos e artistas que envolve. As parcerias locais têm-se consolidado e temos públicos mais diversificados e exigentes, somos vistos como um momento de encontro. Vemos frutos do nosso trabalho em muitas vertentes, na economia local, mas escolas e, a minha parte preferida, no alargamento do horizonte de possibilidades dos jovens, alguns dos quais temos integrado na equipa.

O que nos traz esta edição de diferente?
Esta é uma edição mais intensa, em que o festival se concentra em dois fins-de-semana, um em Minde e Alcanena e outro no Cartaxo.
Apostámos mais na utilização de espaços não convencionais e, inclusive, o ponto de encontro será construído de raiz para uma praça.
Também é uma edição mais complexa, em que temas, pesquisas e projetos da programação regular entram pelo festival adentro, cruzando-se com matérias e projectos que chegam só por alguns dias. Espero que se sinta a alegria desse encontro e a subtileza das articulações entre as diferentes partes.
São, à partida, opções para manter.

Como se pretende reafirmar a relação com o território?
Através de um trabalho de coabitação e de colaboração, distendido no tempo. Queremos passar mais tempo com as pessoas, refinar as formas de escuta e as formas de participação, e queremos mais tempo para refletir sobre o que estamos a fazer. Decidimos em 2017, um ano louco em que ao mesmo tempo preparámos a 9ª edição do festival e a candidatura a apoio sustentado, que queríamos ter um programa regular a suportar um festival bienal. Era uma mudança estrutural, mas que agora é acarinhada por toda a gente, e nos está a permitir desenvolver colaborações mais consequentes, projetos de continuidade e garantir um melhor acompanhamento aos projetos, aos artistas e aos públicos.

Fala-nos um pouco da parceria com o Festival Bons Sons.
É uma parceria que reforça a identidade do festival e a sua presença na região. Os dois festivais têm afinidades a nível estratégico e eu uma cumplicidade especial com o Luís Ferreira; partilhamos muito ao nível das práticas, dos conceitos e da política cultural.
Em concreto, cada um programa aquilo que conhece melhor e oferece-o ao outro, o Luís na música e eu na dança — isso garante-nos, de parte a parte, qualidade.
Por outro lado, chegamos a públicos diferentes. A dança, então, explode em Cem Soldos! É lindo de se ver.

Consegues destacar um par de espectáculos, dos que vão encher os 9 dias de festival?
É muito ingrato responder a essa pergunta… são todos incríveis.
Há cinco estreias portuguesas: A Menor Língua do Mundo, um desejado projeto sobre as línguas minoritárias portuguesas, do Alex Cassal e da Paula Diogo; A Viagem a Portugal, novo projeto do Teatro do Vestido; um convite especial à Lígia Soares, sobre hospitalidade — é o Jogo de Lençóis; e as novas criações da Filipa Francisco e do David Marques. Também o regresso do Alessandro Sciarroni e a estreia portuguesa da Silke Huymans e do Hannes Dereere, com Pleasant Island, sobre a história trágica de um dos países mais pequenos do mundo, Nauru.

Além dos espectáculos, o que mais nos reserva a programação?
Uma instalação-performance da Tania El Khoury, de um para um, sobre a crise dos refugiados, no Museu de Aguarela, em Minde — As far as my fingertips take me. Aconselho.
Uma ação pública do coletivo MilM2, o Projeto Pergunta, para descobrir no Cartaxo. Uma nova versão de Para uma Timeline a Haver, da Ana Bigotte, do João dos Santos Martins e do Carlos Oliveira, que é o culminar de três meses de residência na Escola Superior de Dança.
E, no Ponto de Encontro, uma livraria, bar e programação informal diária, inclusive, um debate moderado pelo António Pinto Ribeiro, entre mim e o Tiago Guedes, no sábado, dia 28.

Quais os principais factores que um programador deve ter em conta ao criar um evento com as características do Materiais Diversos?
Acho que ninguém deve replicar nada, as características de cada programa devem ser únicas… Por isso a primeira questão é perguntar-se “porque é que eu quero fazer isto?” e de seguida “para quê?”.
Depois, quanto ao “como” e “com quem”, que também são essenciais, acho que um programador deve passar muito tempo pelos cafés e a andar pelas ruas, a cheirar, a dizer bom dia, a sentir-se em casa… ou fora de casa, dependendo da circunstância, uma não é melhor do que a outra.  Sobretudo tem que gostar de trabalhar em colaboração, porque sozinho não se faz nada; tudo acontece num sistema bastante complexo de interdependências.
E, por fim, há que ser muito resiliente e alegre.

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