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Mónica de Miranda: entre memória, ficção e os vestígios do colonialismo

Por

 

COFFEEPASTE / Pedro Mendes
April 1, 2025

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Mónica de Miranda: entre memória, ficção e os vestígios do colonialismo

Mónica de Miranda é uma das vozes mais marcantes da arte contemporânea portuguesa. Artista visual, cineasta e investigadora, o seu trabalho cruza fotografia, vídeo, instalação e performance para explorar temas como memória, colonialismo, identidade e diáspora. Nascida em Portugal, com raízes angolanas, vive e trabalha entre Lisboa e Luanda, refletindo sobre as interseções entre geografia, história e pertença.


Depois de representar Portugal na Bienal de Veneza de 2024 com o projeto Greenhouse, Mónica de Miranda apresenta agora Profundidade de Campo, a sua nova exposição na Galeria Municipal do Porto. Neste projeto, através do vídeo, da performance e da instalação, propõe um olhar simultaneamente ficcional e documental sobre os vestígios do colonialismo na atualidade.


Nesta conversa, falamos sobre o seu percurso, a forma como a sua prática artística se desenvolve e o que podemos esperar desta nova exposição.

 

Como é que a Arte entra na tua vida e como é que se afirma como sendo o que irias fazer profissionalmente?

A arte sempre esteve presente na minha vida como uma necessidade de expressão e de entendimento do mundo. Comecei com a escultura, que foi a minha primeira formação, e foi através dela que comecei a explorar o espaço, o corpo e a memória. Ao longo do tempo, fui integrando outras linguagens — como o vídeo, a fotografia e a instalação — porque senti que precisava de expandir as ferramentas narrativas para contar as histórias que habitavam em mim. A arte afirma-se como caminho profissional no momento em que percebo que é também um território de pesquisa e de construção de conhecimento, um espaço onde posso conciliar o pessoal e o político, o íntimo e o coletivo.


O teu trabalho cruza diversas linguagens artísticas, como vídeo, fotografia, instalação e performance. Como descreverias a essência da tua prática?

A essência da minha prática está na construção de narrativas visuais que operam entre espaço e tempo, corpo e território, história e memória. Interesso-me por criar ecossistemas visuais onde as imagens não existem isoladamente, mas como parte de uma experiência imersiva e sensorial. O meu trabalho é também uma prática de escuta — dos lugares, dos arquivos, das histórias esquecidas. Uso o storytelling e a fabulação crítica como ferramentas para dar corpo a essas histórias, muitas vezes silenciadas pelas narrativas hegemónicas.



Exploras muito a interseção entre ficção e documentário. O que te atrai nesta abordagem híbrida?

A interseção entre ficção e documentário permite-me trabalhar com a memória e a história de forma sensível e poética. Muitas das histórias que investigo não estão presentes nos arquivos oficiais, foram apagadas ou silenciadas. A fabulação crítica oferece uma possibilidade de reimaginar esses passados, projetar futuros e propor novas narrativas. Através da ficção, consigo aceder a verdades emocionais e espirituais que o documentário tradicional nem sempre consegue alcançar.


Sendo uma artista de ascendência angolana que vive entre Lisboa e Luanda, como é que estas geografias influenciam o teu trabalho?

Estas geografias fazem parte da minha identidade múltipla e são territórios afetivos e políticos no meu trabalho. Nasci no Porto, vivo em Lisboa e estive muitos anos em Londres, mas Luanda é o lugar onde o meu corpo se reconhece. A diáspora, para mim, não é apenas deslocamento, mas também um lugar de imaginação, de reconstrução e de pertença. Trabalho a partir dessas encruzilhadas, criando pontes entre espaços físicos e simbólicos, entre memórias individuais e histórias coletivas.


O Hangar, que fundaste em Lisboa, tem sido um espaço importante para artistas do sul global. Como vês o impacto deste projeto na cena artística contemporânea?

O Hangar nasceu da necessidade de criar um espaço de encontro, pesquisa e partilha entre artistas de diferentes geografias, com especial atenção ao sul global e às narrativas pós-coloniais. O seu impacto mede-se pela capacidade de criar redes, de fomentar colaborações e de proporcionar visibilidade a práticas artísticas que muitas vezes ficam à margem. É também um espaço de escuta, de aprendizagem e de construção coletiva.




A questão do colonialismo e da diáspora é um eixo central da tua obra. Acreditas que a arte pode ser um veículo de transformação social e política?

Acredito profundamente que sim. A arte tem o poder de criar espaços para a escuta e para a reflexão, de reconfigurar imaginários e de propor outras formas de ver e de sentir o mundo. Pode ser um gesto de resistência, um lugar de cuidado, um canal de transformação. Não é apenas sobre denunciar, mas também sobre curar, sentir, refletir, (re)imaginar e regenerar.


O título da exposição, "Profundidade de Campo", sugere um olhar abrangente sobre o tempo e o espaço. Como é que esse conceito se reflete nas obras apresentadas?

“Profundidade de Campo” é, antes de mais, um convite a olhar para além da superfície. No cinema e na fotografia, esta expressão técnica refere-se à nitidez simultânea de diferentes planos — primeiro plano, plano médio, fundo — mas, no contexto desta exposição, ela funciona como metáfora para uma visão expandida do tempo e da história, olhar em simultâneo sobre o passado, o presente e o futuro. Nas obras apresentadas, essa profundidade traduz-se na coexistência de várias temporalidades e geografias — passado, presente e futuro estão justapostos, como camadas que se entrelaçam e contaminam. Não há uma linha narrativa única, mas sim múltiplas perspectivas que habitam o mesmo espaço visual. É também uma proposta de escuta: escutar o território, escutar as vozes ancestrais, escutar as história esquecidas e os desejos do futuro. As obras pedem ao espectador que permaneça nesse espaço intermédio, onde o tempo não linear, é cíclico e a memória se faz e desfaz continuamente. É um convite a olhar em profundidade para os territórios que habitamos — sejam eles geográficos, afetivos ou simbólicos.


A exposição articula passado, presente e futuro, explorando vestígios do colonialismo. Podes falar-nos sobre como construíste essa narrativa através do vídeo, da performance e da instalação?

A construção da narrativa nesta exposição parte da ideia de “arquivo vivo”. Não se trata de um arquivo fixo ou fechado, mas sim de um organismo em movimento, que se abre à fabulação, à escuta e à multiplicidade. Os vídeos apresentam personagens que são ao mesmo tempo figuras históricas e ficcionais, e que atravessam espaços simbólicos — florestas, desertos, rios — em busca de sentido, de memória e de transformação. A performance aparece como um gesto ritualístico e íntimo, que liga o corpo ao território e ativa o espaço como lugar de memória. A instalação, por sua vez, envolve o espectador numa composição imersiva, onde corpo, escultura e luz criam uma experiência sensorial profunda. A narrativa não é linear: propõe antes uma cartografia poética, onde cada obra é uma ilha ligada por correntes invisíveis. O colonialismo está presente nos edifícios, nos gestos, nos corpos, mas também está em processo de descolonização simbólica — de reapropriação, de regeneração e de futuro.


De que forma esta exposição dialoga com trabalhos anteriores teus?

Esta exposição é claramente uma continuidade e um aprofundamento de questões que venho explorando há mais de uma década. Trabalhos como Era Uma Vez, Contos de Lisboa ou Panorama são marcos importantes que estabeleceram a relação entre o corpo, a casa e o território. Em "Profundidade de Campo", essas relações expandem-se para pensar também o planeta, a ecologia e as cosmologias africanas, que têm vindo a influenciar a minha prática, levando-me agora outros planos artísticas de conexão entre  diversos territórios, o corpo e a ecologia.




A ecologia e os processos de escuta e cuidado também fazem parte do projeto. Como é que estas dimensões se entrelaçam com as questões pós-coloniais no teu trabalho?

Acredito numa ecologia expandida, que não separa o humano do não humano. As feridas da terra são também as feridas dos corpos colonizados. O cuidado, a escuta e o respeito pelos ciclos naturais são práticas de resistência e de reconfiguração. As minhas obras mais recentes refletem essa preocupação, tratando a natureza como um corpo vivo, feminino e materno, um arquivo de histórias e como um espaço aliado  na luta contra a lógica extrativista e colonial.


O que gostarias que os visitantes levassem da exposição "Profundidade de Campo"?

Gostaria que levassem um sentido um olhar mais atento — à história, à natureza, ao outro. Que se sentissem parte dessas narrativas, que fossem tocados por uma memória que não é só minha, mas coletiva. E, sobretudo, que saíssem com a vontade de imaginar futuros possíveis — mais justos, mais plurais, mais sensíveis.


Como foi representar Portugal na Bienal de Veneza de 2024 e que impacto teve essa experiência na tua prática?

Foi uma experiência transformadora e profundamente simbólica. Com Greenhouse, pude explorar a ideia da casa como um espaço de encontro, de cuidado e de resistência. Levei comigo não só o meu percurso individual, mas também a história e a memória de muitas outras vozes. Foi também o momento em que assumi, pela primeira vez, certos aspetos da minha herança familiar ligados à espiritualidade, à relação com as plantas e com a floresta. Esse gesto de exposição íntima abriu claramente novas portas na minha prática.


Podes adiantar-nos algo sobre futuros projetos ou investigações artísticas que estejas a desenvolver?

Estou a continuar a série de filmes que explora elementos da natureza e das lutas da resistência africana como arquétipos e agentes históricos, em documentário e ficção. O mais recente, Como Se o Mundo Não Tivesse Oeste, foca-se na planta Welwitschia e no deserto do Namibe, e questiona as formas de conhecimento que escapam às epistemologias ocidentais. Estou também a desenvolver um projeto que reúne os textos, artigos de jornal e especialmente fotografias históricas ou de paisagens de bairros periféricos da cidade de Lisboa dos últimos anos, com o objetivo de criar um pós-arquivo — Black Archive — onde podemos encontrar o centro afetivo da minha prática artística e dos lugares que ela habita.


Foto de Mónica de Miranda: © Courtesy of Jahmek Contemporary Art

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