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Nesta conversa, exploramos o universo criativo de Salomé Nascimento, a artista que impulsiona a exposição ORDEM DAS COISAS, apresentada no Museu Nacional de História Natural e da Ciência (MNHNC). A mostra, que combina arte, ciência e filosofia, reflete sobre temas como a homeostase e a ecologia profunda, oferecendo um diálogo entre o humano e a natureza.
Ao longo da entrevista, Salomé revela as inquietações que a movem, desde a exploração ambiental até à desconexão humana com o corpo e o meio natural. Compartilha também o processo criativo por trás da exposição, que combina elementos naturais e materiais reciclados em instalações integradas ao espaço museológico, ampliando as fronteiras entre o orgânico e o inorgânico.
Nesta troca, compreendemos como a arte, para Salomé Nascomento, é uma ferramenta de resistência, reflexão e conexão, que busca resgatar uma visão integrada da existência — unindo razão, emoção e o sentido profundo de interdependência com o mundo que nos rodeia.
Que inquietações te levam a criar?
Crio para resistir e existir num lugar seguro, para procurar soluções, trazer justiça, apaziguamento e beleza. Crio para reivindicar uma participação, um compromisso, um olhar crítico, sensível e consciente.
Inquieta-me a posição hegemónica do ser humano em relação a tudo o que o rodeia, a exploração do meio ambiente, da natureza, dos animais e do mais fraco.
A falta de equidade, os abusos de poder, a rentabilização desenfreada, os serviços que não servem, a forma como vivemos desintegrados e desligados do corpo, da natureza, ao ponto de não a defendermos, nem ‘estarmos em nós’.
No limite, criar é para mim uma necessidade, a forma possível de existência. É em si um processo homeostático.
O que está na génese da exposição “Ordem das coisas”?
Para além das inquietações gerais referidas, neste projecto em concreto, posso apontar a necessidade neste momento da história de ‘gritar’ a importância de nos reconhecermos como biologia, corpo, animal e natureza. É fundamental que noções básicas da ciência contemporânea sejam de conhecimento comum. É imperial uma mudança de paradigma. Pensar o antropoceno, substituindo uma noção da existência em compartimentos por uma visão sistémica e de inter relação fenomenológica.
Desta forma, este projeto, é uma ode ao retorno à simplicidade, à comunhão com a natureza, ao pensamento sistémico e interdependência, procurando conciliar e transpor supostas oposições - corpo /mente, natural /cultural, orgânico /inorgânico, emoção /razão, humano /natureza - reconhecendo-as como aspectos integrantes de um equilíbrio dinâmico de fronteiras diluídas e permeáveis.
Uma chamada de atenção da necessidade de retorno ao corpo e à sua organicidade, como caminho de resgate da conexão com o todo e de uma integração sustentável no ecossistema.
Fala-nos da inspiração para o título da exposição
O título da exposição faz referência à obra de António Damásio - A estranha ordem da coisas - dedicada ao conceito de Homeostasis. Princípio comum regulador da sobrevivência, desenvolvimento e florescimento dos organismos vivos, assim como a base das respostas sociais e culturais complexas que nesta ‘estranha ordem’ têm a sua origem nas formas de vida mais simples.
A Estranha Ordem das Coisas - é uma reflexão marcante que abrange as ciências biológicas e sociais, oferecendo uma forma nova de compreender as origens da vida, dos sentimentos e das culturas.
Associar as culturas aos sentimentos e à homeostasia fortalece-lhes as ligações à natureza e aprofunda a humanização do processo cultural. Uma tal ligação contraria o actual crescente afastamento que separa as ideias, as práticas e os objetos culturais, do processo da vida.
A, Damásio p17
A nossa mente e a nossa cultura estão ligados aos fenómenos biológicos, aos meios e recursos da antiga vida unicelular e aos de muitas formas de vida intermédias. p46 Os sentimentos são os motivos para reagirmos a um problema e monotorizam o êxito da resposta. O sofrimento e o florescimento, os lados opostos do espectro, terão sido os principais motivadores da inteligência criativa que produziu culturas.
A, Damásio p32
O que se procura com o conceito de Deep Ecology?
O termo Deep Ecology, introduzido pelo filósofo Norueguês Arne Næss em 1973, procura enfatizar a necessidade de dar respostas mais profundas à complexidade dos problemas sociais e ecológicos com que nos confrontamos. Propõe questionar o nosso modo de vida, observando as crenças, necessidades e valores que nos movem.
Afirma que procurar responder à questão: Como posso viver de uma maneira que seja boa para mim, para os outros e para o nosso planeta? _ pode conduzir a mudanças profundas na nossa forma de estar que terão impacto em tudo o que nos rodeia.
O que encontras no cruzamento das várias disciplinas sobre as quais trabalhas?
Os cruzamentos disciplinares, com os seus diferentes posicionamentos e abordagens, expandem a experiência e as perspectivas sobre os temas, ao mesmo tempo que afirmam a interligação dos fenómenos.
Apazigua-me a intuição ser validade pela ciência, pelo simples facto de ser a nossa natureza biológica em manifestação.
Com que materiais costumas trabalhar e o que está por detrás dessas escolhas?
Trabalho com técnicas e materiais bastante diversificados. Diria que escolho os meios que melhor se adaptam ao projecto dentro de uma ótica de re aproveitamento. Neste momento, nos projectos que estou a desenvolver, estou a re utilizar a enorme quantidade de filme plástico que resultou da minha mudança de atelier, de Lisboa para o Alentejo. Assim como desperdício têxtil que tenho vindo a recolher.
´As práticas de Salomé Nascimento visam oferecer caminhos de cura e de reflexão em relação a diversas questões sociais e ecológicas, tais como, o impacto industrial, o bem-estar animal e os direitos da natureza. ‘ Katherine Sirois
Que outros artistas te acompanham nesta exposição?
Partindo da minha investigação teórica o corpo de trabalho, a nível formal, apresenta a exploração de elementos naturais recolhidos no jardim botânico e nas mediações do atelier (Alentejo) em fusão com plástico reciclado, integrados na unidade museológica, no mobiliário disponível, em caixas e recipientes de vidro de laboratório (alguns com água), simulando um aparato científico.
‘Evocam destroços e matadouros com a sua acumulação de resíduos e tecidos orgânicos. Assim como as peças de latex montados sobre os azulejos recordam restos de carne fresca.´ Katherine Sirois
Acrescentam-se as obras dos 3 artistas convidados, João Filipe Bugalho (Portugal 1942), Paulina Dornfeldt (Alemanha 1994) e Silvia Pallini (Italia 1973) que apesar da visível singularidade e diversas abordagens artísticas, une-nos ´uma ligação consciente e profunda à natureza e aos seus processos espontâneos e essenciais, benéficos, à regeneração, à auto realização e ao florescimento.´ Katherine Sirois
As paisagens naturalistas do João, a acrílico ou óleo sobre tela, reunem e fundem todas as paisagens, numa soma de traços, luzes e sombras integradas internamente no seu corpo e na sua memória.
‘As paisagens interiores produzidas por João Filipe Bugalho evidenciam uma dimensão meditativa, contemplativa, onírica e mnemónica que alimentam o nosso sentido de deslumbramento e a nossa ligação com a natureza.
Os desenhos negros e atmosféricos de Silvia Pallini, realizados com tinta da China, carvão ou grafite Viarco sobre papel e placas de madeira de pequenas dimensões, despertam a imaginação. Apesar do seu caráter abstrato, a artista procura recriar as sensações que experimentamos ao ver paisagens naturais, cursos de água, pedras, arbustos ou o céu noturno. As imagens que produz, são o resultado dessa impregnação de forças orgânicas, refletem algo que está para além delas e mesmo para além da sensibilidade e da experiência da artista. Contêm os quatro elementos essenciais, irrompendo todos juntos em trechos de escuridão e flashes de luz.
As instalações de Paulina Dornfeldt reúnem uma multiplicidade de materiais, formas e materiais em bruto ou feitos pelo homem que evocam a interação permanente entre natureza e cultura. O trabalho da artista realça como o acaso e a vontade se unem para moldar e esculpir a matéria, como o animado e o inanimado se misturam para produzir significado, símbolos e valor. (…) A sua abordagem escultural e performativa, mas ao mesmo tempo silenciosa e poética, realça as alianças secretas e dinâmicas que operam dentro de nós e à nossa volta.´ Katherine Sirois
Como correu a performance de inauguração?
Não é uma resposta óbvia… A performance tem como base a manifestação de uma dimensão/conceito que defino e depois acontece por si só. A acção desenvolve-se como uma resposta ao som, utilizando a mediação do movimento, dos riscadores e em que tudo o que percepciono ao meu redor é integrado na experiência.
Diria que a performance correu. ocorreu. E que é a forma mais clara de estar completamente presente no corpo e no momento.
O que destacas da programação paralela?
Considerando que estamos praticamente a meio da apresentação do projecto… destaco a próxima Talk de quinta feira dia 21, entre ARTE & CIÊNCIA, com 3 convidados de formação cientifica: O nuno Pimentel, oncologista e investigador da Fundação Champalimaud, O Roberto Keller, biólogo do Museu e investigador do Center for Ecology e a Sandra Teles Nascimento, psiquiatra do Hospital Júlio de Matos, também com formação em Pintura e Filosofia. Um aberto ao público debate com os artistas e curadores.
Estou também muito curiosa com a apresentação dia 30, no encerramento da exposição, do resultado do laboratório criativo que estamos a desenvolver com a professora Marta Castelo e um grupo de alunos da Faculdade de Belas Artes.
Do que precisamos para compreender a mente humana?
Seguramente precisamos de compreender que ela decorre das mesmas leis biológicas básicas comuns à totalidade das formas vivas, citando Damásio, ‘Não conseguimos compreender a mente Humana sem a consideração que vivemos num corpo vivo integrado num ecossistema.’
A Arte salva?
Pessoalmente, a mim, sim.
Em geral, acho que também, reage à dor, ao meu estar e indica caminhos.
A arte permite a consciência estética / ética de nós próprios, do outro e do colectivo.
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