Ensaio para uma Topografia, de Mónica Calle

A atriz, criadora e encenadora Mónica Calle só nos tem habituado ao inesperado. Começando pelo seu percurso periférico, na melhor das aceções, cujo trabalho incide sobre geografias desprestigiadas ou com comunidades que não constituem o cânone do chamado meio artístico, terminando nas escolhas cénicas onde nos conduz habitualmente para o privado, para o obscuro, para o afastamento do quotidiano e para a aproximação do humano e do sensível. Quem segue o percurso da Casa Conveniente e da Mónica sabe que vai encontrar a dor de Mão dada com o amor, a religião atravessada pela sexualidade, a palavra poluída pelo corpo – mas nunca sabe o que esperar, de facto. E, num volte face deste caminho, Mónica tira-nos novamente o chão e faz exatamente aquilo que ninguém esperava: o óbvio.

Talvez nenhum espetáculo tivesse já tão feito ou fosse tão antecipado, antes mesmo da sua concretização, como este Ensaio para uma Topografia. Já desde o Genesis que um sexo aguarda o outro para o equilíbrio do universo — daí se concluí que Mónica nada mais fez que equilibrar a balança da oferta artística deixada enviesada pelo anterior díptico, Cartografia. Neste caso, Adão seguiu-se a Eva.

Hoje, e já aos ombros do incremento de apoios e da visibilidade que os seus últimos trabalhos lhe valeram, convoca 33 indivíduos que se identificam com o sexo masculino não excluindo à partida a realidade trans que tem vindo a lutar por espaço na comunidade portuguesa. São 33 homens de variadíssimas compleições físicas, etnias e vivências que, a despirem-se, formam o quadro inicial do espetáculo.

Voltamos a elogiar a falha — e a criadora teve a sagacidade de trabalhar com este elenco o estereótipo de género que lhes é reservado. Não temos agora um Bolero dançado em coro grego por corpos femininos no limite da exaustão, mas um Cânone em Ré Maior, de Pachelbel, que anima um grupo quase militarizado em flexão de braços, e que acompanha com o corpo a dinâmica do tema clássico. Nesta coreografia de ombros, bíceps e tríceps é impossível não ficar hipnotizado pelo aspeto marítimo que as três filas de homens ganham, ao moverem-se, em cânone, com a fluidez só característica do oceano.

Estes torsos, insuflados por terem navegado um Pachelbel durante o que pareceram quinze minutos, descansam agora para dar lugar aos membros inferiores. Um a um, tomam o seu tempo para calçar chuteiras cujas animadas cores contrastam com o sucesso da tarefa: dar os famosos toques na bola. Se há quem goze de perícia para concretizar até os truques mais complexos, outros (a grande maioria) conseguem tão-somente raspar a superfície da bola um par de vezes, deixando-a por vezes escapar Para a boca de cena de onde são prontamente devolvidas por expeditos espectadores.

E se as cordas foram convocadas na Cartografia pela mitológica semelhança, do violino ao contrabaixo, com o corpo feminino, em Topografia é a vez dos sopros ganharem destaque. Quando damos por isso contamos 66 formas fálicas em cena, metade delas a tentar reproduzir uma das famosas árias da Flauta Mágica, com um sucesso pouco palpável.

Para todos os efeitos este é um espetáculo diferente do seu gémeo — como todos os gémeos, formalmente igual mas distinto na substância. Apesar de poder suscitar tais comparações, também em nada se assemelha a outros do género, nomeadamente a Letra Escarlate da sua contraparte (se me for permitido aventurar nesta comparação) espanhola Angélica Liddell. Esta Topografia propõe ao sexo masculino um espaço que lhe está pouco afeto: o da sensibilidade, o da resiliência, o da humildade e da falha. Ver aquele mosaico de homens em cena, cuidando-se mutuamente, admirando e orquestrando os corpos uns dos outros, perdendo as forças ou encontrando-as onde já ninguém as descobria, é um exercício de generosidade e de humanismo comoventes — e talvez seja uma das formas mais competentes de horizontalizar qualquer discussão onde entrem conceitos como a heteronormatividade, transfobia, feminismo e ideologias de género. Estes 33 homens (idade de Cristo), em conjunto com todos os respetivos elencos das Cartografia’s, imolaram-se para salvar o corpo.

Critic@ Sombr@
sombra.critic@gmail.com

@ autor@ não escreve ao abrigo do acordo com a realidade.

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