Então… Que comece a festa!

Por Joana Neto

A companhia Musgo tem um novo espetáculo em cena até dia 20 de março, de quarta a domingo, no Porto. «Algo Azul» é um texto original de Joana Moraes que já nos habituou às suas talentosas radiografias sociais. O local onde decorre a peça, uma sala na Travessa das Águas, merece visita e é a prova de como é importante que a cidade esteja aberta a novos espaços de produção cultural. E é natural que se surpreendam com esta sala improvável.

Os textos da Joana Moraes e a qualidade dos atores que nos habituamos a encontrar na Companhia Musgo são motivo mais que suficiente para os acompanhar. É por isso que, desde a peça de 2011 «Gostava de ter um periquito» _ depois da qual se forma a companhia _ só se pode lamentar caso se tenha, por um triste acaso, perdido algum dos espetáculos.

Quando lerem a folha de sala é provável que se questionem sobre o que os espera, mas no texto avança-se que a peça será sobre uma espécie de procura da perfeição e o conflito que se gera «quando a procura de uns, não é a procura de outros».

O contexto escolhido para se poder evidenciar aquela imperfeiçãozinha alheia exponenciada ao máximo não podia ser melhor: um casamento. Será que existe algum lugar onde seja possível concentrar um número tão grande de pessoas improvavelmente juntas e forçadas a interagir? Talvez não.

Em cena estão Emílio Gomes, Gilberto Oliveira, Inês Mariana Moitas, Joana Moraes, João Pamplona, Nuno J Loureiro e Sara Costa que vão proporcionar momentos hilariantes. Na figuração Gisela Maria Matos, Luís Almeida, José Carlos Pereira e Sara Moreira. O trabalho de cenografia e figurinos Mónica Santos e Andreia Ribeiro, o desenho de luz (António Pacheco), a operação de luz e som (Bernardo Santo Tirso) são também importantes na montagem de um espetáculo desta natureza.

Provavelmente nem todos seremos capazes de ver naquelas personagens trejeitos que reconheçamos como nossos, mas dificilmente não encontrarão ali um resquício do quotidiano possível do contexto de festa.

Há o casal com empresas em Frankfurt, Hong Kong e, claro, Famalicão, que faz questão de transpirar pedantismo enquanto introduz frases em alemão no meio dos diálogos : ela insiste na necessidade daquele momento ser perfeito para os noivos e de chamar atenção de qualquer pobre ser desviante que fuja da sua clarividente visão de como tudo deve funcionar e nunca se esquece de advertir que tem se olhar nos olhos e não se pode cruzar os copos (Joana Moraes) e ele vai deixando fluir todos os seus traços de empregador explorador e de manipulador machista (João Pamplona).

Não falta, claro, o casal em ascensão meteórica na escada social rumo ao sucesso e que disserta sobre o seu magnífico negócio de regueifas «Pão pão queijo queijo»: ele (Nuno J Loureiro) é um fala barato que faz lives para as redes sociais a todo tempo e ela (Inês Mariana Moitas) termina os finais das palavras dele partilhando, assim, com o marido a (des)elegante condição de novo riquismo com laca no cabelo.

Nas personagens encontra-se ainda a responsável de recursos humanos (Sara Costa) que atribui um nome chique e em inglês (obviamente) à sua tarefa de analisar pessoas e, bem assim, ler as mãos e que faz furor no seu vestido insinuante, o hiperativo (Emílio Gomes) que se dedica a animar os colegas e seduz, em ritmo frenético, as convidadas  e o hipocondríaco depressivo (Gilberto Oliveira) que faz questão de ir contra a corrente da felicidade para sempre e, talvez por isso, nesse modo anti clímax se torne uma das personagens mais divertidas em cena.

Não fosse um casamento da vida real existe ainda o animador que nos inunda com os habituais lugares comuns sobre a sua dedicação extrema ao evento e noivos que aguentam discursos inconvenientes dos amigos sobre as suas experiências passadas.

Claro, qualquer semelhança com a realidade é mera coincidência… O espetáculo é hilariante e mostra, sobretudo, como no fim do dia, as nossas imperfeições e as dos outros nunca são assim tão diferentes e percebê-lo não é de todo pouco. Ver a realidade ao espelho e rirmo-nos de nós mesmos é o primeiro passo para se poder “fazer a festa” ou rirmo-nos da dos outros.  Não arranjem motivos para perder a oportunidade de um momento de diversão como este ou podem ter efeitos colaterais graves de arrependimento. E têm até ao dia 20 para aparecer.

Algo Azul
Companhia Musgo
6 de março de 2022
LUGAR – Travessa das Águas – Porto

Foto por Celine Marie

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