Eu, Lixo

Por Patrícia Portela

Diz o dicionário que LIXO é tudo o que se varre de casa, tudo o que não presta, tudo o que se deita fora, o que vai parar a um caixote, a um esgoto, a um aterro.

O LIXO é uma imundície, são detritos, sobras, é tudo o que pode ser eliminado. O LIXO é um excesso. Mas é também uma condição. Hoje não se vive sem produzir LIXO, e talvez por isso acabemos com os nossos dias neste planeta, tudo por não termos conseguido viver sem ele, o LIXO. A única forma de combater o LIXO é não o produzir e, no entanto, a nossa sobrevivência, o nosso quotidiano, o nosso prazer, a nossa arte, produzem LIXO, coisas que se podem eliminar, que, depois, se varrem de casa, que não prestam, que  acabam por se deitar fora, por se esquecer, ou por se reciclar, ou por se deitar no esgoto, por se abandonar num aterro. Há LIXO mais tóxico do que outro, é certo. Um mais reciclável do que outro, um mais nocivo, outro mais discreto. Não podemos falar de LIXO no geral, mas, na verdade, não sabemos o que é LIXO em particular. E também não sabemos onde termina, mas às vezes sabemos onde começa, e se em algum momento foi útil ou belo ou o ganha-pão de alguém antes de ser só LIXO.

Não é fácil pensar em LIXO e no entanto é muito fácil produzi-lo, acumulá-lo, alimentá-lo, reproduzi-lo. Nem sei se há algo mais multiplicável do que o LIXO. Tudo parece ter tendência a perder-se com mais facilidade, a extinguir-se, a sumir-se, a desintegrar-se Se a paixão se esbanjasse com tanta destreza e de tantas maneiras como o LIXO, se a graça ou o vinho ou as ideias ou os chapéus… Mas não. Não se pense que o LIXO digital é menos danoso do que o LIXO clássico. A energia que consumimos com a quantidade de emails, sms’s, vídeos e Gifs que enviamos (e que, na verdade, mais valia estarmos calados) dava para iluminar cidades durante anos a fio e manter muitos fogões a funcionar sem descanso…

Se ao menos o LIXO alimentasse… na verdade, alimenta, ou enche, há muito bom LIXO que se come, mas que o corpo rapidamente deita fora.

O LIXO é uma miséria civilizacional que nos persegue.

LIXO é também a primeira pessoa do singular do presente do indicativo do verbo lixar… uma mesa ou uma pessoa, tanto faz.

É lixado, portanto, quando, para nos tornarmos relevantes, nos sentimos obrigados a produzir LIXO! A fazer pedidos de take away, porque, civilizadamente (achamos nós), contribuímos para o comércio local (e para o comércio das embalagens de plástico), a usar máscaras descartáveis (recomendadas pelas DGS’s, OMS’s e SS’s afins), porque, disciplinadamente, defendemos a saúde (e, a médio prazo, a doença para o planeta), a usarmos produtos uma só vez (assim nos dizem para fazer), porque temos de evitar passar de mão em mão tudo o que pode levar consigo o contágio… Pior ainda: a executar todas as tarefas digitalmente, para anularmos todas as presenciais, para não perdermos o emprego e para não perdermos o  barco, para não perdermos o escritório, o armazém, o teatro, o cinema e tudo o que continua fechado. O pouco que nos é permitido é viver para produzir LIXO e para vendermos o nosso tempo, a nossa convicção, a nossa arte, o nosso lugar, as nossas paixões– tudo ao postigo.

Patricia Portela
Nascida pela altura da Intentona das Caldas, Patrícia Portela aprendeu a respirar pouco antes da revolução. Interessou-se por livros e bonecos já livre da ditadura. Segue à risca a máxima grega: transforma o mundo sem estrondo mas com esperança. Gosta de formigas físicas e metafísicas, de viajar e de olhar e ouvir a filha.” (por Raul J. Contumélias)

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