Fake Plastic Peace

Por Keli Freitas

Esses dias, Letícia me contou do filho de um amigo que perguntou:

“Pai, táxi é tipo um uber?”

Raquel me disse “Tenho saudade dos percursos”, André me falou: “Sinto falta de descansar no metro”.

Assim vamos levando. Algum rainbow tem que ser the new black.

Esses dias comprei uns fones de ouvido caríssimos. Em português de Portugal se diz auriculares, digo, auscultadores, palavra rebuscada que na minha cabeça está mais associada à função de um estetoscópio. Estive meses a pesquisar auscultadores. Meses a auscultar.  É surpreendentemente complexo o mundo que inventaram para os fones de ouvido. Aquela velha história de tudo muito organizadinho para a gente se convencer bem rapidinho de que precisa urgentemente de algo que até ontem nem sabia que existia.

Os meus novos fones caríssimos têm um sistema especial chamado «noise cancelling», ou cancelamento de ruído, uma tecnologia maravilhosa e assustadora que não desejo para ninguém. Como funciona: o coiso detecta o ruído ao redor e produz, em resposta, um ruído igual, mas oposto, que anula matematicamente o ruído exterior. Ou seja: uma fábrica particular de silêncio. Um silêncio pseudo. Um silêncio fake news. É triste, mas sai mais barato, por exemplo, do que uma casa de campo com horta e jardim. É útil, é horrível, é perigoso, eu sei: uma pessoa humana, a essa altura do campeonato, pagando caro para ouvir mal.

O manual de instruções dos fones está escrito em letra muito pequena, num papel muitas vezes desdobrável, como um mapa de um país inexistente e que, depois de aberto, não há cristo que volte a fechar do jeito certo. Vem traduzido em português, inglês, alemão, francês, espanhol, italiano, holandês, dinamarquês, finlandês, norueguês, sueco, polonês, húngaro, checo, búlgaro, romeno, croata, neerlandês e grego. O manual não entra em detalhes mas, imagino eu, o silêncio, seja qual for a língua, segue sendo produzido pelos mesmos mecanismos.

Esses dias também tive que fazer óculos novos. Me sentei sem querer nos antigos e quando levantei já era muito tarde demais. Já fazia tempo que precisava ver, ou melhor, ser vista por uma oftalmologista, e nada como uma estupidez desta magnitude para servir de motivação. Entro na óptica, faço o exame, a senhora confirma: eu tinha os olhos desatualizados.

É verdade que tenho uns olhos bastante idiossincráticos: um olho vê relativamente muito bem e o outro vê absolutamente muito mal. Já estou acostumada com o desequilíbrio da deficiência, mas a senhora da óptica não resistiu a pensar alto o bastante para que eu pudesse ouvir: “Como é que é possível? Ver tão mal de um olho só…” Em vez de me ofender, fiz uma cara simpática, que por trás da máscara foi o mesmo que nada, e concordei, ainda simpaticamente invisível, num misto de preguiça e sinceridade: “Tem razão. Como é que é possível?”

Ela começou a preencher um papel com os dados da compra e um silêncio de chumbo natural se instaurou entre nós. Em minha defesa, eu quase disse para ela que apesar dos olhos maus, minha maior questão no momento é ter ouvidos demasiado bons. Pensei em lhe contar sobre meus fones que falsificam paz em pelo menos 19 idiomas e com os quais eu finalmente posso ouvir pior do que nunca, dos dois ouvidos por igual. Pensei em dizer que, enquanto ela escrevia a data, eu me dei conta de que era aniversário da minha mãe, que minha mãe faria 70 anos naquele dia, e tive vontade de perguntar se ela também não achava curioso isso de a gente continuar a contar os anos das pessoas que não envelhecem mais, se ela também contava por puro amor os anos de alguém que não faz mais aniversário, e se ela achava, com toda a experiência que tem em visão, se algum dia hão de inventar umas lentes que nos deem a ver os rostos que uma pessoa nunca chegou a ter. Pensei, enfim, em muitas coisas, mas não disse nenhuma. Ficou só a caneta Bic a ecoar umas letras azuis, o resto da óptica inteira em noise cancelling. A senhora termina de preencher o papel e sorri, eu pego o comprovante de encomenda dos meus olhos novos e sorrio, agradeço, viro de costas e volto para o mundo que me espera lá fora, o meu, o dela, o de toda a gente: embaciado, turbulento, desigual.

Keli Freitas (1983, Brasil) é criadora, dramaturga e actriz.
Graduada em Letras pela PUC-Rio e mestranda em Estudos Portugueses pela Universidade Nova de Lisboa.

Esta iniciativa resulta de uma parceria Coffeepaste / Prado. A Prado é uma estrutura financiada pela DGArtes / Governo de Portugal para o biénio 2020/2021.

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Comments

  1. Islei Salloker Belsoff Santos says

    Foi como lhe ver. Imaginei a ótica e sua expressão por trás da máscara ao ouvir o comentário da atendente.
    Ótima!!!
    Seguirei lendo suas “ideias”.
    Ah saudade.

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