Festival Cumplicidades

600_cumplicidadesDe 13 a 29 de Março decorre em Lisboa o Cumplicidades, um festival dedicado à dança contemporânea. Falámos com o programador Ezequiel Santos para saber mais sobre esta iniciativa.

O que é o Festival Cumplicidades e qual é o seu grande objectivo?
O Cumplicidades é um festival de dança. Isto quer dizer que a sua programação congrega autores, intérpretes, conferencistas e professores cuja biografia está fortemente e explicitamente associada à dança, sobretudo na sua vertente contemporânea. Trata-se de uma forma artística com modos de representação e códigos de recepção particulares, e com uma produção discursiva especializada. Afirmamo-nos como pertencentes ao mundo da dança. Afastamo-nos da nomenclatura, algo imprecisa e preguiçosa, que designa como performance qualquer objecto de representação cénica e como performer todo o intérprete envolvido. O principal objectivo desta primeira edição é o de facilitar momentos de encontro enquanto comunidade alargada: entre diferentes gerações de coreógrafos e, entre estes e o público. Por outro lado, como objectivo interno, ao sintonizarmo-nos com o estado das coisas perceberemos melhor quais serão os enunciados a comunicar em edições futuras.

Como surgiu este projecto?
Em finais de 2012 fui convidado pela direcção da EIRA, através do Francisco Camacho e do Rui Silveira, para programar esta primeira edição e aceitei com gosto. Foi-me dada liberdade na estrutura de programação. Houve um pedido inicial, com o qual concordei: dar oportunidade a criadores mais jovens, com menos visibilidade no circuito, e acompanhar a produção coreográfica no norte do país.

ezequiel-santos-470x470Qual é o maior desafio de programar um festival como este?
A maior dificuldade foi a de reunir condições financeiras suficientes. Penso que o orçamento total do festival deverá assemelhar-se ao custo que um festival do centro da europa terá na festa de abertura… apenas com as bebidas. E esta afirmação não me parece sequer uma hipérbole. Trata-se de uma dificuldade que actualmente caracteriza o cenário da produção das distintas áreas artísticas, não apenas em Portugal como entre outros parceiros do espaço europeu. E penso que o assunto ainda não teve a merecida discussão. Depois, esta crise fomentou o factor incerteza no desenho de programação e de produção: uma vez que existe uma grande interdependência e organicidade entre as diferentes rubricas do festival, o atraso na confirmação de alguns apoios logísticos inerente a um espectáculo, por exemplo, foi suficiente para arrastar temporalmente a definição de datas e espaços para realizar um workshop ou para uma visita guiada. Felizmente estes imprevistos têm sido bem geridos pois existe afinidade e sinergia na nossa equipa.

O que destacaria desta edição?
Cada um dos elementos programados tem uma relação de sentido, ou celular, com os restantes. Por isso torna-se difícil seleccionar. Convido o público a estar atento aos espectáculos de âmbito mais experimental. O espectáculo de abertura –Hale-, a decorrer no espaço exterior da estação do Rossio, ou Pequenos Mundos,  proposta para pais e bebés a decorrer no fim de semana em que chega a primavera, são bastante plásticos e sensoriais. Depois, talvez dirigido às pessoas menos conhecedoras, existem as visitas guiadas pela cidade, passando por lugares que evocam memórias  e experiências do nosso património coreográfico desde o início do Séc. XX. Destaco ainda a rubrica de divulgação com a Antena 2, já iniciada: diariamente, um pouco antes das nove da manhã é apresentada uma música que remete para uma coreografia da nossa produção nacional dos últimos 40 anos.

Que coreógrafos têm cativado a sua atenção nos últimos tempos?
Tenho acompanhado os criadores nacionais e há uns poucos (jovens) nomes que me interessará acompanhar. Assim como outros na América do Sul. No entanto, como tenho pendor para os clássicos, a minha lista pessoal mantém-se inalterada e revisito-a com frequência: alguns protagonistas da dança europeia entre as décadas de 10 e 30, como Nijinski e Kurt Jooss; Merce Cunningham, sempre, e a americana Trisha Brown. Sorry…

Acha que a maior exposição da dança em programas de TV tem atraído mais espectadores e despertado maior curiosidade no público?
Sim, e não é um fenómeno novo. A minha geração nos anos 80 já havia sido atraída para aprender dança ao ver a série televisiva Fame, por exemplo. Actualmente existem programas na televisão pública que fazem uma boa divulgação do roteiro dos espectáculos. Outros, como Achas que sabes dançar, se por um lado contribuem para divulgar a ideia da dança como uma forma de arte acessível e não elitista, por outro perpetuam algumas crenças adquiridas e antiquadas: a da coreografia como narrativa que veicula uma mensagem ou a exigência obsessiva de que o bailarino deve saber dominar diferentes estilos de dança. Considero que faltam também programas com outro nível de erudição. Há vinte ou trinta anos atrás era frequente visionar documentários excelentes sobre história da dança no serviço público de televisão.

cartaz_facebookO que é que ainda pode ser mais trabalhado no sector da dança em Portugal?
Nos últimos vinte anos o nível de educação melhorou consideravelmente, a rede de espaços de apresentação ampliou-se e parece-me suficiente e o discurso que os criadores têm sobre o seu próprio trabalho é muito mais coerente. Houve uma grande evolução na comunidade e actualmente assistimos a uma pluralidade de linguagens na dança que é saudável. Falta, a meu ver e a nível das propostas coreográficas que observo, trabalhar radicalmente a componente ética ou da definição da responsabilidade do artista na sua relação com a sociedade: afirmar melhor o sentido que cada um pretende dar à sua voz. Este elemento já se vem pressentindo no caso de alguns criadores, e também é facto que a dança portuguesa sempre teve um punhado de vozes mais inquietas e tem sido politicamente activa desde os anos 80. Mas penso que há um certo abrandamento, e pode existir uma explicação para tal: os criadores e as estruturas estão no limiar de sobrevivência. Falta dinheiro para a criação e difusão. Dinheiro. Usemos a palavra. Se os criadores não têm as suas necessidades básicas e de segurança garantidas no longo prazo, se a precariedade e o medo estão instalados então não há engenho que se sustenha. Sem ovos não se fazem omoletas. Se não é possível ou não há vontade política para aumentar a dotação orçamental para a cultura, ao menos que se revejam os critérios de submissão a pedidos de apoio à DGArtes: acho absurdo que os coreógrafos e as estruturas desperdicem demasiado tempo a preencher formulários e a comprovar requisitos de gestão que são descontextualizados da realidade da gestão artística.

Que projectos tem para o futuro?
Primeiro, viver um dia de cada vez. Depois, conforme o resultado, trabalhar a médio prazo na elaboração do livro-documento desta primeira edição do festival. Por fim, no longo prazo interessa-me continuar a programar dança e pretendo investigar sobre a tradição do ballet no Brasil a partir do Séc XVII.

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