Filipe Abreu e Miguel Maia (Esta noite grita-se) – Entrevista

Primeira leitura mensal do festim de 2019, a 18,19 e 20 de Janeiro, no Teatro da Trindade, Fábrica Braço de Prata e Biblioteca de Marvila respectivamente.

“Esta noite grita-se” é um festim de leituras de textos de teatro, organizado por Filipe Abreu e Miguel Maia. Conversámos com ambos para saber mais sobre a iniciativa, sobre a palavra dita, sobre os eventos que se seguem, e sobre o teatro em Portugal.

O que esteve na origem do Festim de Leituras de Textos de Teatro “Esta noite grita-se”?
Filipe Abreu: Gostamos de teatro. E sempre gostámos de ler teatro. Essencialmente, é isso. Infelizmente as peças de teatro são muitas vezes colocadas num canto inferior da literatura. Talvez por ganharem vida em palco, pensa-se muitas vezes que as peças não têm a mesma força ao serem lidas no conforto de uma cadeira.

Quando comecei a estudar teatro passava quase quatro horas por dia em transportes públicos. Horas para pensar e para ler. Li muito nesses anos da minha vida. E como estava a estudar teatro, lia muitas peças de teatro. Foi o momento em que me apercebi que estava apaixonado pelo teatro. Quando me sentava no comboio a ler O Fazedor de Teatro, O Pato Selvagem, o À Espera de Godot, era como se vislumbrasse universos paralelos, onde a mesma peça, as mesmas palavras, poderiam ganhar infinitas formas.

E por outro lado, quando me juntava com colegas e líamos em conjunto, em voz alta, as palavras ganhavam força, mas não se fixavam numa forma definitiva. Os actores eram como portais para um universo desconhecido que ainda faltava organizar, encenar, criticar e explorar dentro de quem os ouvia.

Quando o Miguel me convidou para fazer leituras, ainda em 2016, chegámos a este formato e voltei a apaixonar-me. Acho que me apaixono com muita facilidade.

Miguel Maia: O Filipe é um lamechas, mas tem razão. Penso que hoje a palavra cada vez menos é dita e ouvida – a tecnologia afasta-nos desse acto de ouvir alguém (só ouvir). O teatro também tem esse lugar, o de ouvirmos actores que nos falam de outro lugar, de outra dimensão. As nossas leituras são simples e minimalistas para colocarmos a palavra no centro, em momentos que queremos íntimos, e em que tentamos ao máximo ouvir o texto que partiu do dramaturgo. Quando começámos a juntar colegas para lerem textos de que gostamos, vimos isso a acontecer à nossa frente e sentimos um grande privilégio – e decidimos continuar.

Que características marcantes tem este Festim?
FA: Este festim é único por vários motivos. Em primeiro lugar pela sua periodicidade e por ser uma iniciativa exclusivamente dedicada à leitura interpretada de textos para teatro. Porquê «leitura interpretada» e não «encenada»? Porque achamos que a palavra, dita de forma intimista e até informal, sem a pretensão de encenar (e com isso fixar o texto numa forma, numa acção concreta), pode ser interpretada de múltiplas formas por quem as ouve. Como um leitor que se debruça sobre as palavras do livro e que inevitavelmente lhes dá formas, voz, cores, ambientes… Gostamos de pensar que o Esta noite grita-se tem o seu potencial máximo na cabeça do público que nos acompanha durante as apresentações. Isso pode acontecer num espectáculo de teatro “normal” claro, mas aqui quisemos dar protagonismo ao texto enquanto objecto artístico.

Para além da periodicidade, temos uma grande variedade de espaços que visitamos (tão diferentes como o Teatro da Trindade, a Galeria Monumental, a Fábrica Braço de Prata, o IFICT, a Biblioteca de Marvila ou o One Your First Stop, em Marvila) e de textos, que foram escritos entre 1884, com O Pato Selvagem, de Henrik Ibsen e 2015, com Bilingue, de José Maria Vieira Mendes.

Outra característica que nos marca desde o início é a leitura de grande parte das didascálias, que transmite a voz do autor e que muitas vezes nos ajuda a procurar o verdadeiro sentido das palavras. Em A Cabra, Ou Quem É Sylvia, do Edward Albee, que lemos em Abril de 2017, no meio de uma discussão entre marido e mulher, o autor escrevia algo como «Onde estará ela, emocionalmente?». Isto coloca-nos, espectadores, numa posição de igualdade e de partilha com o autor que não é comum. E talvez seja a razão pela qual muito do nosso público chega com medo de achar a leitura de uma peça de teatro entediante, e no entanto sai com a programação completa na mão e com vontade de voltar, o que nos tem deixado muito satisfeitos.

Felizmente, desde o início deste projecto, temos conseguido convidar “elencos de luxo” (como gostamos de lhes chamar). Nomes de actores brilhantes e com uma extensa carreira como João Lagarto, Teresa Sobral, Paulo Pinto, Rita Loureiro, José Wallenstein ou Pedro Lacerda, juntam-se a outros mais jovens, e também maravilhosos, como a Rita Cabaço, o Tomás Alves, a Erica Rodrigues, o João Vicente, o Isac Graça… Isto permite-nos explorar textos muito difíceis em muito pouco tempo e apresentar publicamente o momento em que os actores, nos ensaios, ainda estão a descobrir o texto, com as suas dúvidas e inseguranças. É um trabalho assustador e que exige de toda a gente uma descoberta muito rápida e intensa do texto, das personagens, do tom…

Miguel Maia e FIlipe Abreu

O que está na base da escolha dos textos?
FA: Sem dúvida tudo começa pelo nosso gosto pessoal. Inicialmente escolhiamos os textos seguintes enquanto estávamos a ensaiar o anterior. Era meio improvisado.

Depois começou a ser um trabalho feito com mais antecedência. Para esta terceira temporada escolhemos os textos há quase um ano atrás. Quisemos abranger o espectro da dramaturgia desde o final do século XIX até à actualidade. Arriscámos na escolha de três grandes textos que envolvem a participação de elencos numerosos, por oposição a outros três textos, menos convencionais, e de elenco reduzido. Achámos que seria importante ler um texto de um autor português contemporâneo e escolhemos o José Maria Vieira Mendes.

MM: Enquanto conjunto, temos como ponto comum a ideia de crise, conflito e identidade. Vivemos num momento de ruptura constante, em que a aceleração do mundo e a morte de Deus e de outros cânones que organizavam as sociedades nos deixam à deriva, numa procura constante pela identidade, pelo concreto, pelos afetos… Com Ibsen, exploramos a escolha entre a verdade justa e a mentira vital.

Com Genet, perscrutamos através do Papa a questão da imagem, dos ídolos e da solidão. Na peça de Tchekhov, a desolação de continuar a viver quando se foi mortalmente ferido. O Vieira Mendes coloca-nos o problema da linguagem, dos símbolos e da subjectividade. Com Brecht, a transformação que um homem pode sofrer se não souber tomar posições. E com Greig, uma história de um amor improvável em que o que foi dito e o que se quis dizer nos contam as dúvidas e os medos que todos sentimos. Esta selecção acompanha a preocupação que temos com a contemporaneidade, numa era em que ressurgem movimentos intolerantes – e centra-se na ideia do Homem e nas suas máscaras – e da procura da sua natureza e identidade.

Um outro aspecto decisivo na escolha destas peças é a sua capacidade para ganhar vida apenas através do som e da oralidade. Normalmente, se os textos foram escritos para ser a base do espectáculo, funcionam.

Qual a mais-valia da palavra dita?
FA: A ideia da acumulação de experiência e conhecimento alheios está intrinsecamente ligada à palavra escrita. A palavra escrita tornou-se o arquivo do conhecimento universal. Mas tal como contadores de histórias como o rapsodos da grécia antiga recitavam a Ilíada e a Odisseia, ainda hoje os seres humanos tendem a reunir-se e a (parecendo óbvio demais:) falar.

A palavra dita, na sua qualidade performativa de “aqui e agora”, é o que dá ao teatro a sua força. Senão já teríamos sido substituídos (por completo) pelo cinema ou pela literatura. É esta a nossa origem. Somos contadores de histórias. É pela partilha de uma história entre quem a transmite e quem a recebe, que se cria a comunhão do teatro.

MM: Acho que hoje mais que nunca a palavra dita e o encontro in loco das pessoas não é um dado adquirido – cada vez mais gente vive sem isso. Ou seja, o perigo da desumanização reside exatamente no fim do discurso, no fim da possibilidade da retórica e na tendência, crescente, de conversarmos intermediados pela tecnologia (que é um meio que altera o discurso, que o pode simplificar e reduzir). O teatro mantém-se, neste aspecto, revolucionário: para além de efémero é irrepetível, e por isso depende do encontro. Dos actores e do público, naquele lugar, àquela hora.

Que “gritos” podemos esperar nos próximos meses?
MM: Ainda temos muito para gritar até ao fim deste festim. Em Março, de 15 a 17, leremos O Tio Vânia, do Tchékhov, com a Sara Carinhas, o José Wallenstein, a Érica Rodrigues, o Pedro Gil, o Paulo Pinto, entre outros. É um texto muito bonito e sê-lo-á ainda mais quando o ouvirmos nestas vozes. Depois em Abril, entre 12 e 14, espera-nos um desafio completamente diferente, pós-dramático, com o Bilingue, do José Maria Vieira Mendes. Em Maio teremos como convidados uma leitura Da Voz Humana (dia 11), da Escola de Mulheres, e de 24 a 26, o incrível Um Homem é um Homem, do Bertolt Brecht, e que irá contar com o maior elenco de todo o Festim, com 10 actores em palco. Fecharemos em Junho, entre 21 e 23, com Cantigas de uma Noite de Verão, um estranhamente divertido texto do David Greig, em que nós os dois entramos também enquanto actores leitores.

Segunda leitura mensal do festim de 2019, a 15,16 e 17 de Fevereiro, na Galeria Monumental, Fábrica Braço de Prata e IFICT respectivamente. Na foto (da esquerda para a direita) – Actores Filipe Abreu, Dinarte Branco, João Lagarto, Alfredo Brito e Miguel Maia.

Como vai o Teatro em Portugal?
MM: O meio cultural português é pobre. Há razões históricas que enquadram isso, é certo, mas neste momento parece-me que a nossa situação é a de sermos periféricos – da Europa e do Atlântico – somos laterais, e por isso a nossa identidade é permeável ao que os outros mais centrais conseguem realizar. Sempre achei engraçado falar-se da Alemanha, por exemplo, como um país de engenheiros e de máquinas mas que, se formos a ver, produziu filósofos e dramaturgos de uma enorme relevância, essenciais na criação da identidade de um país poderoso. Portanto, fazer o que se tem feito, que é relegar a cultura para um lugar de adorno, de coisa que só se pode ter quando há dinheiro, é de uma falta de visão enorme. O Estado tem que fazer o seu papel – tem que apoiar, delegando e confiando nos artistas para criarem. Tal como faz com os professores para educarem, com os médicos para curarem e com os gestores públicos para gerirem o que é bem comum. Por outro lado estamos em desencontro com os públicos porque os públicos não nos procuram. Não temos uma tradição de ir ao teatro e não será decerto agora que ela surgirá, com tanta oferta de entretenimento ao percorrer os menus das nossas boxes de TV. E perguntam-me: é tudo mau? Não, porque paralelamente vemos que os artistas têm continuado a produzir, a não desistir e a propor coisas novas, o que é revelador. Mas não basta. Para mudarmos o estado das coisas é necessário trabalharmos em rede e mostrarmos de facto ao público que ir ao teatro pode ser tão incrível (e tão natural) como assistir ao último episódio do Black Mirror. Estas leituras que fazemos são isso também: tentamos trabalhar com muita gente e levar pessoas que normalmente não vão ao teatro e que, no fim, nos dizem coisas como: “Nunca pensei que pudesse ser assim. Não falto a mais nenhuma.” Por isso, enquanto houver capacidade de nos espantarmos, há esperança.

FA: Concordo com o Miguel quando diz que precisamos de trabalhar em rede. Depois da polémica atribuição dos últimos apoios sustentados da DGArtes, acabei por tentar contrariar esta individualidade que enferma a classe teatral com a criação do actual Encontro de Profissionais das Artes. Acho que temos feito um trabalho interessante e que me tem feito crescer ao nível pessoal. Mas é desconcertante ver a força de um primeiro encontro com mais de sessenta participantes agora transformada em meia dúzia de curiosos e activistas. Ao passo que as gerações anteriores pareciam estar em guerra entre si, a nossa tem realmente vontade de se unir, mas o ritmo desenfreado do trabalho e a falta de remunerações mínimas têm minado quase todas as tentativas de criar projectos comuns ao nível mais abstracto, do diálogo e do pensamento. Vivemos entre o sub-financiamento, a falta de oportunidades gerada por um enorme aumento do número de profissionais e da própria produção artística, e os poucos hábitos de consumo de cultura da população portuguesa.

E apesar de tudo, cria-se. E espanta-me esta capacidade de criar mais e mais, com menos e menos. Talvez seja uma das provas de que o teatro é um bem comum e necessário: precisamos dele. Mas é possível que nos falte pensar um pouco menos na criação artística e um pouco mais na fruição artística para dar a volta à situação e sermos capazes de envolver a população em arte de alta qualidade.

SESSÕES DE MARÇO 2019
Dia 15 – Sexta-feira, Teatro da Trindade, 17h00
Dia 16 – Sábado, Fábrica Braço de Prata, 21h30
Dia 17 – Domingo, Biblioteca de Marvila, 16h00

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Fotos de Sónia Godinho

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