Filipe Abreu – Entrevista

Estreou no dia 19 de maio (e fica em cena até dia 29) no Centro Cultural Malaposta “A Barca dos Loucos”, de Filipe Abreu, um espetáculo que apresenta um retrato dos impactos humanos no planeta ao longo da história e na atualidade, desde as primeiras extinções em massa com a chegada do ser humano à Austrália, em 45000 a.c., às ilhas de plástico que colonizaram recentemente grandes áreas do Pacífico. Conversámos com o criador para saber mais.

Que inquietações te levaram a criar o espectáculo “A Barca dos Loucos”?
“A Barca dos Loucos” surge da necessidade de falar sobre ecologia, sobre o impacto que temos vindo a causar no planeta, e sobre a minha demanda por um mundo melhor. São temas que me acompanham há vários anos e que, desde 2019, tenho vindo a imaginar em palco. Sinto que precisamos de outra abordagem a este tema. Que chega de falar em números e estatísticas e que temos de usar outro tipo de discurso.

Porque optaste pelo formato de conferência-performance?
Gosto de ser casamenteiro. Não quero que as pessoas venham ver este espetáculo à espera de um grande drama, ou de uma comédia. É acima de tudo, um ator que conta a sua história e aquilo que foi sentindo e descobrindo ao longo dos anos. É também uma história contada com o intuito de marcar uma posição e de defender um argumento. Este tema é extremamente complexo e pareceu-me que, para falar dele, teria de se assemelhar também a uma conferência.

O que faz deste espectáculo um espetáculo ecológico?
Procurámos uma forma de produzir um espetáculo de teatro que não estivesse ligado à rede elétrica e que fizesse o máximo por usar materiais reciclados, ou reutilizados. Conseguimos. Através de uma bicicleta e de um gerador, são as minhas pernas a criar toda a energia utilizada pelo espetáculo. O problema é que, nesta tentativa de fazer um espetáculo convencional, posso confessar que falhámos em fazer um espetáculo realmente ecológico. Simplesmente porque acabámos a comprar uma catrefada de materiais elétricos e mecânicos que enchem o nosso cenário e fazem a iluminação do espetáculo. Em suma, criámos um espetáculo energeticamente auto-suficiente, mas que nunca será tão ecológico como se o tivéssemos feito ao ar livre, com um ator iluminado pelo sol. Tentámos, conseguimos e falhámos, ao mesmo tempo. Mas com isso, aprendemos alguma coisa para o futuro. E continuo a achar que é muito mais ecológico do que o normal.

Como está a correr o processo criativo?
Este processo foi incrivelmente difícil. Por um lado porque este tema é difícil e muito complexo. São temas bastante deprimentes, na grande maioria dos casos, e que parecem demasiado grandes para sentirmos que podemos fazer a diferença. Mas podemos e conseguimos fazer a diferença. Foi uma viagem por milhares de páginas de relatórios sobre as alterações climáticas, sobre ecologia, sobre o futuro do mundo e sobre pânico, desespero e esperança. Centenas de horas de conferências e documentários e conversas infinitas com os que me rodeiam, a trocar impressões, a tentar perceber o que sentem e o que pensam. Por outro lado, além de ter sido a minha primeira criação a título individual – embora com muito acompanhamento e com muito apoio da equipa do espetáculo, em especial da Rita Pico, que fez a cenografia e me acompanhou o tempo todo com o apoio à criação -, vi-me confinado na maior patologia que parece afetar a criação artística em Portugal: falta de tempo. Gostava de ter tido mais um mês de preparação. Gostava de estar mais seguro. Apesar de tudo isto, acabei por encontrar algum amparo em soluções e numa nova forma de ver o mundo.

O que esperas que o público leve consigo depois de assistir ao espectáculo?
Acho que as artes performativas têm imenso poder para mudar o mundo, mas que o fazem de uma forma extremamente subtil. Espero que o público deixe o café-concerto da Malaposta com uma mala cheia de preocupações, com um nó na garganta, e com um toque de esperança. Quero que mastiguem e que façam a digestão de toda esta informação e que depois façam o que bem entenderem com ela. Espero ajudar a criar uma nova visão sobre o mundo, mas não tenho forma de controlar essa parte da equação. O que sempre me fascinou no teatro – tal como na literatura – é a possibilidade de assistir a uma história diferente da nossa, com atenção e empatia. Ao conhecer essa história, tornamo-nos maiores, mais amplos, mais capazes de compreender o mundo e os outros sobre diferentes pontos de vista. Se conseguir contribuir para uma mudança interna, ficarei extremamente feliz.

A humanidade tem sido ingrata para com o planeta?
Sim. Mas acima de tudo sinto que tem decidido ignorar todos os seus problemas. Vivemos numa civilização que defende a hegemonia do homem perante a natureza. Que estamos aqui para explorar e comandar o mundo. É essa perceção, de que o mundo é um recurso por explorar, independentemente das atrocidades necessárias para continuar a gerar crescimento económico e riqueza material, que nos leva a destruir o planeta. Esquecemo-nos que vivemos todos no mesmo barco, que a espécie humana depende intrinsecamente da restante vida no planeta e que, com um planeta mais pobre, também nós ficamos mais pobres.

Ainda é possível mudar?
É sempre possível mudar. Aqui a grande questão é se iremos mudar a tempo. As pessoas sentem uma ligação muito forte à natureza e nos últimos anos tem-se tornado impossível ignorar o ecocídio que estamos a provocar. Mas, infelizmente, há grandes poderes a controlar o leme da barca. Temos subestimado o poder do marketing. No último século, fomos sendo cada vez mais e melhor controlados pelo marketing. Transformámo-nos numa sociedade do consumo. E todos os dias somos bombardeados por milhares de imagens publicitárias que nos levam a comprar mais e mais. Este consumo desenfreado é um dos maiores problemas ecológicos do mundo. E há alguém, que controla este sistema de manipulação, e que quer continuar a fazer dinheiro. Basta pensarmos no greenwashing, por exemplo. Mudar é possível, mas exige uma grande tomada de consciência sobre os danos que estamos a causar ao planeta, sobre os mecanismos que nos fazem continuar e sobre o impacto que a natureza tem em nós.

Peço-te um desejo para o Teatro.
Que continue a contar histórias e a provocar sensações inesperadas. Mas que o faça com outro tipo de consciência. Com mais tempo, com maior consciência ecológica, com menos serventia para com o sistema e com mais garra.

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