FIM

Por Fernanda Mira Barros

No primeiro desta série de quatro textos, prometi ler convosco, acto a acto, “Hedda Gabler”. No segundo, divaguei pela figura bisonha e apaixonante de Henrik Ibsen, e acabei voltando àquela promessa. No terceiro, as minhas ideias tinham mudado e encaminhei o leitor para dentro da cabeça e do coração de Hedda Gabler. Escrever sobre cada acto sequencialmente deixara de fazer sentido para mim. Não por aparentar ser uma ideia didáctica mas porque analisar bem a complexidade de cada acto desta peça exige muito tempo de escrita e preparação. Acontece que estamos no tenebroso ano de 2020: ninguém tem muito tempo para nada. A angústia consome muito.

Pensando no que queria dizer no último texto desta série sobre a extraordinária “Hedda Gabler” do extraordinário Henrik Ibsen, hesitei, risquei, optei, porque havia ainda tanto por dizer, e, a certa altura, detive-me na palavra “extraordinário” e nesse momento percebi. Esta palavra contém tudo o que eu queria hoje dizer: e o que eu queria hoje dizer é: sejamos, como a peça e como o autor, extra-ordinários. Fora do ordinário.

Falo de nós, leitores, espectadores, ouvintes – público, em suma. Porque não estou certa de que tenhamos consciência de como somos necessários.

Pensando num texto para teatro, e excluindo os profissionais da área ou os estudiosos, quantas pessoas conhecemos que leiam teatro? No entanto, ele está ali, o mundo maravilhoso dos textos para teatro, de acesso fácil e barato, mas pouca gente se interessa por ele. São o pobre de pedir da literatura, mesmo tendo a sedução de serem, como também acontece com quase toda a poesia, amigos dos preguiçosos e dos sem tempo.

Não seria difícil responder à pergunta “Porque não lemos textos para teatro?” mas demoraria; prefiro repetir aquele apelo. Vale para todas as artes, creio. Não ignoremos como somos imprescindíveis para as excepções artísticas.

Chamo “excepção artística” às manifestações artísticas que não apelam às massas.

Talvez por a fruição ser íntima e frequentemente solitária nos esqueçamos de que ela nos faz participantes de uma coisa extra-ordinária: a continuação dos processos criativos dos criadores excepcionais. É isso o que acontece quando compramos um livro marginal, ou um disco, ou um bilhete para ouvir uma orquestra, uma ópera, para ir ao cinema ou ao teatro. Permitimos que eles continuem, e a troco de praticamente nada. Porque esse bilhete, como esse livro ou disco, é sempre, se pensarmos um instante, impressionantemente barato. Podemos não ter dinheiro para o comprar, mas isso não altera o facto de ser barato. Isso é outra coisa, e bem importante, mas outra coisa.

Quanto custa pensar, preparar, montar e, finalmente, apresentar uma ópera, uma orquestra, um filme, uma peça de teatro? Além desses custos altíssimos, quanto de cada vida se apostou ali? Noites de insónia, de nervos, de bebedeiras, quantas? Quantas inseguranças, discussões, zangas, quantas desistências, quantos divórcios? Dedicação, tempo de aprendizagem e de pensamento roubado a tantas outras coisas da vida pessoal e muitas vezes deitado fora para depois se continuar a gastar tempo recomeçando até chegar ao momento em que realmente a obra nasce. Quanto vale tudo isso? Quanto custa?

Neste ano sinistro, neste tempo pouco físico e demasiado virtual, neste planeta mais cego e surdo e ainda mais entregue a interesses sinistros, termino pedindo – por absurdo que pareça nestas circunstâncias: tomemos consciência do nosso papel de elo vital na cadeia que sustenta a excepção artística. Os livros, os discos, os espectáculos extra-ordinários. Sem nós, eles acabarão, como vêm acabando um pouco por todo o lado – e restará pouco mais que grosseria.

Fernanda Mira Barros
(1967 – ?), editora da Livros Cotovia

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