Frankenstein e a quarta mulher

Por Patrícia Portela

Estava numa conferência sobre a situação actual no Brasil, num festival literário intitulado Primavera Brasileira em março de 2018. O encontro acontecia num edifício do estado português em Paris, com o apoio de uma Fundação, também ela portuguesa mas fundada por um arménio detentor de uma fortuna graças a poços de petróleo na Turquia.

Ao meu lado, três mulheres. A moderadora definiu-se como académica, investigadora, emigrante (em França) e independente. A segunda apresentou-se como autora negra, italiana da Somália, que lançava um livro, traduzido em francês, sobre um músico e compositor da Baía.

O currículo da terceira convidada era incrível: feminista, lésbica e activista, cuja obra literária mudava o planeta a partir de São Paulo, numa luta incansável contra a desigualdade e a exclusão. Um painel perfeito.

O problema era a quarta mulher. Eu compunha o ramalhete, é certo, mas era o «homem branco». Arranhando muito mal o francês, porque a língua neerlandesa me ocupava desenfreadamente o cérebro e por excesso de utilização do inglês, eu era branca, heterossexual, oficialmente casada (na altura), e europeia de classe média (mas uma portuguesa de gema, quase mediterrânica, valha-nos isso!).

Eu representava ainda o opressor. Eu era ainda o resultado de uma herança literária burguesa (e masculina) que ainda não abandonou o pedestal. E eu não queria ser esse lugar. Queria escolher o miradouro de onde dar a conhecer o meu mundo. Eu não queria ser apenas a minha circunstância histórica, genética e geográfica. Mas também não a queria ignorar.

O momento em que teria de me apresentar aproximava-se.

Quando chegou a minha vez, disse o meu nome e, instintivamente, escolhi o meu lugar:

– Sou descendente de Mary Shelley.

Todos se riram.

Eu não perdi o medo que já tinha mas continuei:

– Sou uma escritora-mãe.

Voltaram a rir, mas agora menos.

Desenvolvi:

– A grande mutação no que escrevo deu-se quando fui mãe. Uma mãe não escreve igual a um pai, muito menos igual a uma mulher sem filhos. Quando falo de uma mãe, não falo necessariamente de uma mãe que deu à luz, que passou por um parto, apesar de fazer toda a diferença. Uma mãe é aquela que cuida todos os dias daqueles que crescem para que aprendam a pensar por si próprios a partir das ferramentas que usamos para pensar sobre nós; uma mãe é aquela que cuida da sua mãe doente; ou do seu companheiro ou companheira incapacitados; mãe é aquela que cuida dos que podem menos e dos que querem mais.

Por exemplo, uma mãe que abandona um filho por uma causa e uma mulher que não se junta a essa mesma causa por causa de um filho têm mais em comum do que duas mulheres que vestem um uniforme na mesma batalha, uma com, outra sem filhos.

Ninguém se riu.

Terão compreendido?

Na verdade, eu também ainda não sabia o que estava a dizer. Estava a descobrir: e por isso continuei:

– Enquanto mulher,não posso dizer outra coisa que não seja «Sou uma privilegiada: Mas enquanto mãe …

Preciso de uma pausa. A mulher que está ao meu lado dá-me a mão, por debaixo da mesa, e quando eu abro a boca para voltar a falar, ela antecipa-se:

– Eu também sou descendente de Mary Shelley.

Filha de Wollstonecraft, uma mulher feminista que morre 10 dias após o parto da segunda filha, Mary é educada por um pai filósofo e iluminista, de seu nome William Godwin. Aos 19 anos, é mãe, mas o seu filho morre prematuramente aos 2 anos de idade. É nesta altura que escreve Frankenstein.

Considerada a primeira obra de ficção científica da História, Frankenstein talvez não seja bem uma história sobre alquimia nem sobre a vontade humana  de querer conhecer o segredo da criação da vida. Se seguirmos apenas a sua escorreita narrativa, Frankenstein não conta mais do que a história de um filho que nunca se sentiu amado, ou a de um pai que não soube amar o filho.

Mais do que ter sido escrito por uma mulher, Frankenstein só poderia ter sido escrito por uma mãe. Uma mãe sem filhos.

Talvez seja isto o que todos os escritores são quando escrevem: mães órfãs de filhos que procuram reescrever-se. Enquanto negras, enquanto emigrantes, enquanto oprimidas, enquanto seres cuja voz perderam ou não chegaram a ter.

Como escritoras-mães, todos escrevemos o futuro, aquele que começa porque alguém escreve,  mesmo quando em linhas tortas. E a escolha é nossa, se o escrevemos a lápis, ou se preferimos não colocar um ponto final

Patricia Portela
Nascida pela altura da Intentona das Caldas, Patrícia Portela aprendeu a respirar pouco antes da revolução. Interessou-se por livros e bonecos já livre da ditadura. Segue à risca a máxima grega: transforma o mundo sem estrondo mas com esperança. Gosta de formigas físicas e metafísicas, de viajar e de olhar e ouvir a filha.” (por Raul J. Contumélias)

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