Fuck me harshly, de Mário Coelho

Mário Coelho, um dos mais prolíficos artistas emergentes, concluiu com grande estrondo o seu díptico Gently-Harshly no CCB, no passado Setembro. Foi no término da pandemia, enquanto se dá lugar a um antigo normal que ninguém parece reconhecer, que apresentou Fuck Me Harshly, um espetáculo ainda mais cáustico e ainda mais sombrio que o seu original.

A sequela de Fuck Me Gently retoma a linha dramatúrgica previamente inscrita nas tábuas da Rua das Gaivotas 6: dois irmãos encenadores procuram um elenco com o objetivo de criar uma peça teatral entre o autobiográfico, o decay-pop e o oculto. Tendo a ação resvalado, no final desse espetáculo, para uma espécie de rito sacrificial, encontramos agora o duo num limbo qualquer, difícil de classificar. Estarão eles com um pé no inferno, fruto dos maus-tratos perpetrados contra o elenco que duramente selecionaram? Estarão eles na escada ascendente para o paraíso, coMo paga divina pelo martírio que atravessaram na condição de jovens criadores dos seus próprios projetos? Cedo se dissolvem as especulações: encontram-se dentro da mais prestigiada sala de espetáculos do país prestes a serem chamados ao palco para receberem um galardão de novo talento nacional. Uma videoprojeção da sala centenária localiza automaticamente a ação, mas o público carece ainda de enredo: afinal, o que alimenta esta sequela?

Num gesto kármico, olho por olho e dente por dente, são agora estes dois irmãos os que pressionados pelas luzes inquisitoriais a responder a todo o tipo de perguntas e provocações referentes à sua obra e à sua arte. Se antes fizeram vários atores e atrizes atravessar inúmeras provações em sucessivos castings, onde exigiam provas inusitadas — senão mesmo imorais — agora o par de tiranos vê-se subjugado à ficcionada Entidade Reguladora de Apoios (já ERA, ironiza-se na peça), uma instituição que vai beber à Santa Sé, ao FBI, à Maçonaria e, obviamente, à Direção Geral das Artes.

Fuck Me Harshly discorre da premissa do anterior espetáculo: denunciar a podridão do sistema vigente, expor as regras não verbalizadas Pelas quais se regem os poderes instalados e revelar a cultura de temor que se instalou, de forma generalizada, na prática teatral. Mário Coelho conta, para isso, com a entourage já habitual dos seus anteriores espetáculos: representam, todas elas e eles, os capatazes desta ERA, cujo objetivo é averiguar se ambos os criadores são merecedores de uma bolsa financeira para levarem avante os seus projetos. Fuck Me Harshly é, pois, um espetáculo atual, pertinente e especular da realidade vivida pela geração do dramaturgo.

Agora que parece ter encerrado o ciclo Fuck Me (…), tem já na calha dois novos espetáculos que encerram outros ciclo por ele abertos: segue-se, num horizonte próximo, I’m not excited at all, dando como terminada a série de espetáculos com Rita Rocha e Silva, onde retrata as consequências do envelhecimento numa vida romântica e conjugal; começou também a produzir a sequela da performance que teve por base O Ginjal, de Tchekhov, num novo espetáculo intitulado É fácil para mim bolsar, no qual o elenco será desafiado a correr mais de dez quilómetros em cena, durante as duas horas da récita, enquanto representa trechos d’A Gaivota. Ficarei antent@.

Critic@ Sombr@
sombra.critic@gmail.com

@ autor@ não escreve ao abrigo do acordo com a realidade.

Para o comprovar reveja as críticas anteriores:

A Batalha de Aljubarrota, de Ricardo Neves-Neves

V, dos auééu

Antipríncipes, de Cláudia Gaiolas

BoCA, Biennial of Contemporary Arts

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