Fumo e Espelhos: A Arquitetura da Influência

Por Ivo Saraiva e Silva

Há muito tempo que nos acostumamos a que um qualquer evento performativo exista num dispositivo de exposição comum, representado por uma frente ante um público que assiste. Às exceções cabe a resiliente tarefa de pensar a reorganização do espaço cénico, lutando contra a estrutura arquitetónica dos espaços de apresentação, lidando com as árduas questões de produção que uma proposta destas acarreta. De uma ou outra maneira, a criação de objetos artísticos parece estar influenciada à partida pela disposição que a sala de espetáculos onde se exibe a apresentação pratica.

À partida, se a arte é análoga à vida ou, pelo menos, dela discorre, conseguimos detetar um efeito similar do espaço na pessoa que o habita, dentro das nossas metrópoles. A influência invisível que a arquitetura de uma cidade, de um país, faz atuar na (de)formação de preconceitos imiscuídos na sociedade atual releva e defende uma violência paradoxal entre o propósito e a sua execução. Em bom rigor, a arquitetura, ao mesmo tempo que discursa sobre as ideologias predominantes de uma determinada época, as suas crenças e formas de organização, atua igualmente como uma constante recriação do poder instituído.

Baumann, no seu Confiança e Medo na Cidade, fala-nos dos conceitos de mixofilia e de mixofobia, percorrendo a ideia de como os espaços, ou a sua construção, que pretendem desenhar uma relação mais próxima, tolerante e amistosa com o desconhecido (mixofilia) influenciam perversamente uma qualquer dimensão mixofóbia no pensamento da sua arquitetura: “…a segregação dos bairros residenciais e dos espaços abertos ao público, negócio redondo para os promotores e isco ideal para atrair clientes por constituir um expediente rápido contra a angústia suscitada pela mixofobia, acaba por ser, de facto, a causa principal da mixofobia em questão. As soluções existentes criam, por assim dizer, os problemas que pretendem resolver: são as empresas construtoras de áreas residenciais ou prédios de andares em condomínio e sob vigilância, do mesmo modo que os arquitetos que projetam espaços de acesso vedado, que criam, reproduzem e intensificam a necessidade e a procura que se propõem satisfazer.” (BAUMAN, Zygmunt, Confiança e Medo na Cidade, trad. Miguel Serras Pereira, Lisboa: Relógio D’Água, 2006, pp. 45-46). Neste sentido, assumimos o espaço público como um lugar habitado por múltiplos privados mas que não se relacionam entre si. Isto é, à pessoa livre, o espaço (leia-se arquitetura) obriga a um continuado comportamento dentro dos preceitos que dita, e isso influencia a estrutura dessa mesma pessoa, o seu modo de ver e estar no mundo – fazendo-a agir dentro do seu circuito circunscrito, sem uma relação efetiva com o outro – ainda que a ideia para que os espaços foram edificados seja a contrária: “A mixofilia e a mixofobia coexistem em todas as cidades, mas também no íntimo das pessoas que nela habitam.” (idem, p.44).

Dada a conjuntura que estamos a atravessar, parece que os modelos de operar dos objetos artísticos dentro dos teatros podem revelar-se idênticos aos dos grupos de indivíduos em espaço público. Os teatros ou, se quisermos, os espaços culturais, são locais de liberdade, na possibilidade de manifestações alargadas, na interpretação dos contextos correntes, e no efetivo e presencial relacionamento com um público. Mais ainda, ao artista cabe a hipótese de pensar o espaço cénico e alterá-lo, propondo alternativas, novas relações entre objeto e espectador. Ainda que estas premissas não estejam de todo comprometidas, é notório uma assaz resistência para que as mesmas não sejam realizadas, a propósito da pandemia a que se assiste. Neste caso, então a relação entre um objeto artístico e o seu público pode revelar-se autêntica mas só dentro de uma disposição estandardizada que coloca a peça em frente ao espetador, numa distância física considerável. Esta geometria do espaço que, há mais de duzentos anos, nos acostumou e compeliu a forma de ver/fazer o evento performativo, revela-se hoje irreversivelmente influenciadora na criação artística, face às medidas de prevenção de saúde.

As caraterísticas dos tempos correntes motivam uma premente e renovada adequação e pensamento da prática performativa. Na continuidade evolutiva que atua por adição, urge especular, agora mais do que nunca, uma reorganização das cidades e dos teatros.

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Abram bem os olhos. Agora fitem este pêndulo. Não parem de fitá-lo com o olhar. O vosso olhar começa a humedecer-se. Estão a ver tudo muito turvo. Estão a começar a sentir sonolência e apatia? Não desistam. Conseguem ver para além dessa fumaça? Conseguem perder-se no labirinto de espelhos? Agora repetimos tudo outra vez, mas de olhos fechados. Oiçam apenas o som da nossa voz: Isto é tudo smoke and mirrors. Uma rubrica dos SillySeason em parceria com o Coffeepaste, na eminência dos perigos hipnóticos da sociedade atual.

Foto: João Covas

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