Fumo e Espelhos: A ditadura da imagem

Por Ivo Saraiva e Silva

Imaginemo-nos à frente de um espelho: vemos o nosso reflexo, e o reflexo é uma mentira. As leis da reflexão da luz observam que uma superfície altamente polida – seja um metal, a água ou o próprio espelho – devolve-nos uma imagem de dimensões ligeiramente alteradas da realidade e que dependem da perspetiva com que as visualizamos. É, neste seguimento, que o espelho parece dar-nos um conselho ilusório e errático, fazendo com que construamos a apresentação do nosso “EU” mediante um retrato falso. O facto é que, ao confiarmos nesse retrato de nós próprios, e conscientes ou não, trabalhamos a nossa exposição ante o outro copiando a imagem criada pela superfície e nunca por nós. A fixação da própria imagem, a apresentação do “EU”, acontece na passagem do «eu sou assim» para «eu quero ser assim».

Num conto coreano do século XVIII, que Sabine Melchior-Bonnet lembra na sua História do Espelho (Orfeu Negro, 2016, pp. 15 e 16), um homem oferece à sua esposa um espelho de grandes dimensões como presente. Ao vê-lo chegar a casa com o objeto debaixo do braço, a mulher confronta-se pela primeira vez com o seu próprio reflexo. Não se reconhecendo, enfurece-se com o marido por tomar como amante dele aquela mulher que observa – ou seja, ela própria. Por sua vez, o marido, ao ver no espelho um homem que desconhece, ele próprio, assume que a sua mulher o trai com outro sujeito, fazendo assim desembocar uma severa querela de casal. Este conto tão antigo, que nós assumimos como uma leve e cómica parábola dos primórdios da consciência de identidade, traz em si a perceção dos modos de construção da representação do “Eu” contemporâneo.

Sabemos que a construção do “EU” em sociedade exige um modus vivendi assente num código deontológico partilhado pelos indivíduos que vem motivar a necessidade de filtrar os comportamentos em padrões, no sentido de lhes conferir uma leitura mais ágil que estabeleça uma relação mais imediata com outrem. Ora, à força de se inserirem, os sujeitos entendem que forjar uma identidade ocupa uma necessidade que é inerente à sua inscrição social. Na verdade, o indivíduo contemporâneo não pretende reconhecer-se na sua imagem criada, antes potenciar uma imagem dele próprio e que possa seguir, que atue como sua representação para o outro, e que este outro possa aprovar. Na senda desta aprovação, o sujeito encaminha-se para o padrão, para a normatividade, que o faz assemelhar-se aos demais, tornando-os idênticos, como se fossem reflexos uns dos outros.

Na senda de cumprir uma variação à normatividade definida pelas sociedades, quais as possibilidades que as mesmas oferecem para fazer face a esta sociedade de espelhos que se assiste? Na atitude de trair as convenções dos comportamentos, os indivíduos encontram fórmulas de propor uma fuga à normatividade a partir de novos procedimentos que criam dentro de grupos alternativos circunscritos. Estes grupos assumem variações aos comportamentos, preparam contextos específicos para uma dada massa dos indivíduos, permitindo que os mesmos possam existir e relacionar-se dentro de uma renovada liberdade. Não obstante, a solidificação de um grupo – seja ele qual for – e, especificamente, de um grupo não normativo, está irreversivelmente condicionada à estrutura involuntária de posturas que versam uma determinada forma de agir, de se relacionar, por vezes até de se referenciar. Então, na ânsia de pertencer a este segundo grupo, de se inscreverem nele, os sujeitos passam a forjar de novo a sua identidade, ou antes adequá-la ao contexto em que desejam participar. Nestas circunstâncias, o paradoxo individual assenta no ato de se adaptar ao contexto que se quer fazer parte sem que a sua liberdade e os modos de existência de todos não estejam comprometidos. A liberdade não pode ser uma falácia.

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Abram bem os olhos. Agora fitem este pêndulo. Não parem de fitá-lo com o olhar. O vosso olhar começa a humedecer-se. Estão a ver tudo muito turvo. Estão a começar a sentir sonolência e apatia? Não desistam. Conseguem ver para além dessa fumaça? Conseguem perder-se no labirinto de espelhos? Agora repetimos tudo outra vez, mas de olhos fechados. Oiçam apenas o som da nossa voz: Isto é tudo smoke and mirrors. Uma rubrica dos SillySeason em parceria com o Coffeepaste, na eminência dos perigos hipnóticos da sociedade atual.

Foto: Rui Palma

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