Fumo e Espelhos: Uma Ópera Inaudível

Por Ivo Saraiva e Silva

E se vivêssemos sem cultura? Todos compreendemos que a cultura pode ou não ser útil, e talvez seja o propósito de não servir a sua mais-valia. Da cultura, e especificamente da arte enquanto cultura, espera-se que funde o humano, o narre e o interrogue, o complexifique, que impacientemente debata noções hegemónicas de uma dada conjuntura – um país, uma civilização, a própria natureza. Aquilo que os agentes culturais corporizam na sua contemporaneidade estará, mais cedo ou mais tarde, padronizado, com vista a ser alvo de algo que possa fazer frente à sua estrutura e conceito – é assim que se faz a História. A cultura tem a capacidade de investir no pensamento acerca das coisas, do mundo, no qual, mais do que gerar uma evolução, interessa-lhe fomentá-la.

E se, de supetão, ficássemos mesmo a viver sem cultura? Talvez nos habituássemos, sim, a que uma nuvem fosse só uma nuvem, igual a tantas outras, sem formas que parecessem lebres ou labaredas, como acontece no recente filme de Lorcan Finnegan, Vivarium (2020). As coisas existiriam sempre segundo uma utilidade concreta, e nunca seriam (nem poderiam, como?) mais do que aquilo que eram. Aceitávamos uma vivência que espera a morte, num contexto standard em que a casa e o trabalho elogiavam dias mornos, sem conflito, sem tragédia ou fogos de artifício, onde a comida saberia sempre ao mesmo ou a coisa nenhuma. Acostumávamo-nos às horas a passar e concordávamos que a necessidade vital de um indivíduo assentia em cumprir porque não podia ser de outra forma, não tinha de ser, pois sempre fora assim. O percurso como uma espécie de tradição transparente, sem mistério, sem vento para desconfiar, onde o outro, o diferente, ao invés de ser proibido, era educadamente excluído da equação – já não se pensaria nele porque seria impossível e ilógico articular especulação alguma fora do cinzento quotidiano – a existência destas circunstâncias validaria a inexistência daquilo que lhe é excedente. Sem o outro, sem oposição, sem minorias, todos saberiam o que esperar uns dos outros, e o aborrecimento seria uma qualidade que confirmaria a dignidade de uma qualquer pessoa. O que foge à normatização dos indivíduos seria abolido, desvanecia-se na linguagem da utilidade. O país estaria em silêncio, ou talvez se ouvisse o ruído metódico das metrópoles que fazem avançar os grandes monstros capitalistas. Estaríamos a perpetuar uma idade tacanha de ideias limitadas, sem ideais, sem sonho nem combustão, só um tosco provincianismo que inaugura o regime do Homem estéril.

E um dia, quiçá alguém que mirasse as estrelas dentro da sua caverna, através de uma frecha para o ar livre, achasse um mantra com que se obcecasse: “Já estamos tão longe do início.”, repetisse sem cessar. Sem saber como, sem alguma razão aparente, no vislumbre de tentear um prazer desconhecido na solidão da sua caverna, esse alguém começasse a cantarolar do nada, como acontece nas óperas. E se a cantiga parecesse ganhar eco, formar vento, e do lado de fora outro alguém a ouvisse e a acompanhasse, lhe respondesse em cântico – um soberbo dueto. Então a melodia iria em cadeia, de animal para animal, de pessoa para pessoa, até chegar a algumas léguas de distância, tantas. Num curto espaço de tempo, a civilização assistiria a uma imensa ópera, e faria parte dela mesma, mas uma ópera disruptiva, que quisesse abafar hierarquias, onde se formasse diferentes estímulos para outras linguagens, que quebrasse a monotonia e a convenção, e perscrutasse novos mundos para oferecer ao mundo. Este imenso happening, estranhamente, daria a todos um pouco de esperança porque far-lhes-ia sentir algo para além do medo ou da fome, ou do ódio.

Então a humanidade prosseguiria pela desempoeirada civilização rejuvenescida e, na primavera efervescente, todos cantariam numa apoteose libertadora e disruptiva. Brilho e cor, escadarias, luz, muita luz, um sol tórrido; à sua maneira, cada um se esforçava por acompanhar o outro na intenção de atingir uma escala diversa, tecer discurso urgente, vingar o seu particular modo de existência, numa ópera ainda não programada mas que já era aceite por um coletivo. Todavia, na consciência difusa da sua atividade, as pessoas aperceber-se-iam que a ópera na qual tinham investido toda a sua força, estava isenta de sonoridade – simplesmente, não tinha som. Exibir-se-ia como uma ópera inaudível, como se estivéssemos do lado de fora do cubículo em acrílico encarnado da Fnac, na secção das óperas, a assistir a uma. Tudo o que por que se lutaria, tudo aquilo em que se acreditasse e que se amasse, estaria abreviado numa liberdade que existia mas não era ouvida. Não tinha nome, portanto, porque a sua presença dependeria de uma condição clara: durar sem rumor – um direito de expressão camuflado por um requisito que ditaria um comportamento, como nos lembra Slavoj Zizek no seu O Ano Em Que Sonhamos Perigosamente: “…que tipo de universo é este que habitamos que se celebra a si mesmo como uma sociedade de escolha, mas no qual a única alternativa disponível ao consenso democrático imposto é uma ação cega? O triste facto de uma oposição ao sistema não se possa articular na forma de uma alternativa realista, ou pelo menos de um projeto utópico significativo, mas somente na forma de uma explosão sem sentido, é uma acusação grave à nossa condição. De que serve a nossa famosa liberdade de escolha quando a única escolha que temos é entre as regras e a violência (auto)destrutiva?” (2012, Lisboa: Relógio d’Água, pp. 79 e 80).

E as pessoas, na senda da sua oportuna especulação, desaguariam num infeliz dilema do indivíduo contemporâneo, no qual participar ativamente significaria inevitavelmente aceitar que o seu lugar de fala estaria ameaçado.

Mas quem poderá amar uma ópera inaudível?

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Abram bem os olhos. Agora fitem este pêndulo. Não parem de fitá-lo com o olhar. O vosso olhar começa a humedecer-se. Estão a ver tudo muito turvo. Estão a começar a sentir sonolência e apatia? Não desistam. Conseguem ver para além dessa fumaça? Conseguem perder-se no labirinto de espelhos? Agora repetimos tudo outra vez, mas de olhos fechados. Oiçam apenas o som da nossa voz: Isto é tudo smoke and mirrors. Uma rubrica dos SillySeason em parceria com o Coffeepaste, na eminência dos perigos hipnóticos da sociedade atual.

Foto: Alípio Padilha

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