Fumo e Espelhos: O retrato de

Por Ivo Saraiva e Silva

“Da perceção e da comunicação atuais desaparece cada vez mais o próximo que temos diante de nós, na medida em que representa a presença do outro. O próximo que temos à nossa frente degrada-se cada vez mais, reduzindo-se a um simples espelho em que cada um de nós se reflete. A nossa atenção, hoje, centra-se completamente no ego.” (in A Expulsão do Outro, Byung-Chul Han)

O outro não pode ser uma ameaça. O outro como desconhecido, o que propõe a diferença e instala lógicas disruptivas no ser e habitar mundanos deve ser incluído na formulação de um modo de vida coletivo que assegura um futuro evolutivo.

O retrato social que o indivíduo contemporâneo se esforça por compor para outrem, que está filiado a um comportamento de códigos semelhantes que formam o social quotidiano, mostra o outro cada vez mais distante, como uma longínqua miragem pouco concretizável. Ao sujeito é dada a possibilidade de se experienciar a si próprio, exponenciar, dentro de comportamentos muito precisos, como se ele percorresse um labirinto de espelhos até se confundir com ele, se fundir nos espelhos, revelando-se ele mesmo um reflexo, um padrão dos procedimentos da sociedade onde transita.

A manifestação do individualismo de cada um passa por acreditar que o cumprimento de uma normatividade comum num qualquer circuito a que se quer pertencer faz parte de um exercício de afirmação. Na verdade, faz parte de um exercício perverso que desvela a forma contemporânea de atuar do poder: afinal, o poder já não atua imperativamente, através de ordens que coajam os indivíduos, mas antes pelos próprios indivíduos, fazendo-os acreditar que estão a cumprir uma certa normatividade porque é aquilo que mais desejam e intencionam realizar profundamente. Em bom rigor, descobrimos a dada altura que o cariz exaustivo e imobilizador das lógicas relacionais individuais faz os sujeitos moldarem-se à matriz normativa vivida no meio no qual se movem, instalando repetidamente o idêntico, na descrença (inconsciente ou não) e consequente expulsão de elementos diferenciadores do comum aceite, de exclusão do outro.

Um dos importantes veículos que possam fazer frente à instalação do idêntico em sociedade, e trazerem o desconhecido para a nossa praça especulativa, é a possibilidade de um pensamento artístico e cultural da construção do outro. A arte e a cultura são territórios importantes de agitação que estimulam o futuro de uma dada democracia, na especulação de soluções variantes a par do retrato de modos de existência diferenciados, alguns do porvir. A arte tem a particularidade de expor e difundir a diversidade das matérias.

Na afirmação de um retrato que inclui o outro, encontramos a inscrição de existências, que só são passíveis de serem exploradas num contexto artístico-cultural amplamente preparado e que assegurem uma regularidade das atividades. Se não tivermos tempo e espaço para conhecer o outro, tudo será visto como um inimigo.

“Definir é limitar.” (in O Retrato de Dorian Gray, Oscar Wilde)

A circunstância ingrata que todos os artistas atravessam hoje, em tempos de pandemia, é sintomática de uma crassa ferida no sector cultural, indelével, há muito identificada e que não confirma um solo estável para períodos como este. De facto, à problemática desta conjuntura que isolou involuntariamente os artistas nas suas casas, fechando os teatros e as galerias, impedindo-os de fazer o seu trabalho – circunstância incontornável cuja solução não é visível por ultrapassar todos os nossos recursos –, acresce-se uma outra mais antiga: a permanente ausência de estrutura no sector cultural, o insuficiente financiamento e apoio, acompanhados por um escasso auxílio num percurso constante e sólido. Mesmo as incubadoras de artistas, que tentam fervorosamente cumprir a missão de oferecer aos criadores artísticos as condições mais amistosas, vêem-se cada vez mais incapacitados de acolher todos os projetos, por serem muito poucas em relação ao espetro alargado das propostas. Assinala-se, pois, uma importante oportunidade para as estruturas responsáveis pela cultura mostrarem que estão do lado de todos os artistas, bem como dos agentes culturais, e a favor de um futuro artístico português, solucionado no auxílio a todos, reforçando apoio e colmatando financiamento, salvando cancelamentos e reagendando espetáculos e outras atividades, dentro uma consensual praticabilidade de agenda.

Em tempos de difícil resolução, e face à circunstância manietada da sua profissão, os modelos virtuais que os artistas assumiram como solução para expor o seu trabalho parecem legítimos e correspondem a uma generosidade, tal como a um exercício de individualismo de uma outra ordem. Notavelmente, assistimos à adequação a novas formas de criação, na produção de perspetivas diferentes das obras. Não obstante, estas propostas não devem comprometer a democratização das expressões artísticas – isto é, de futuro, os objetos que desenham uma relação virtual com o recetor não devem desestimar a importância de outras propostas que privilegiam uma correspondência presencial, na construção de sensações para um público num tempo efémero, continuando a defender e desenvolver os contextos para os quais foram criados. Ao mesmo tempo, das propostas virtuais espera-se uma preocupação acrescida no planeamento dos objetos, no sentido de defenderem a sua natureza virtual, ao invés de se aceitar que a situação pandémica desculpe uma qualidade mais reduzida das os objetos.

Deste modo, não se compromete a integridade de nenhuma das propostas e perpetua-se uma agilidade de pensamento de novos modelos de criação e procura por esse “outro” que descontinua as lógicas criativas validadas. Ante o retrato reflexivo que teima em esboçar-se quotidianamente e na arte, está um retrato dissemelhante que compõe uma fuga para a frente, que questiona, e vai materializando a conquista do outro. Talvez o retrato de um artista qualquer seja o de uma geração em sombras a carecer de afirmação, de uma urgência de liberdade.

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Abram bem os olhos. Agora fitem este pêndulo. Não parem de fitá-lo com o olhar. O vosso olhar começa a humedecer-se. Estão a ver tudo muito turvo. Estão a começar a sentir sonolência e apatia? Não desistam. Conseguem ver para além dessa fumaça? Conseguem perder-se no labirinto de espelhos? Agora repetimos tudo outra vez, mas de olhos fechados. Oiçam apenas o som da nossa voz: Isto é tudo smoke and mirrors. Uma rubrica dos SillySeason em parceria com o Coffeepaste, na eminência dos perigos hipnóticos da sociedade atual.

Foto: João Cristóvão Leitão

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