Gabirus

Por Rui Zink

Olhe lá, o que é que julga que está a fazer? Está a tirar-me uma fotografia? Desculpe lá, mas não o pode fazer. Posso andar aos caixotes, a vasculhar o lixo dos outros, e sei que já não sou nova nem ninguém me vai pedir em casamento, mas conheço os meus direitos.

Psst, ó estafeta, já viu isto? Ah, não viu, coitado, já foi embora. Andam sempre acelerados, estes desgraçados. Parece que levam a casa às costas, não a comida dos outros. Dos que a podem pagar. A mim é que não trazem nada, que eu não sou cliente deles. Quer dizer, até sou, mas só depois de os clientes pagantes deitarem fora os restos. Com sorte, há restos. Agora é tudo muito fino, ninguém gosta de nada. E isso é bom, mais fica cá para a amiga. E com azar? Com azar lambe-se a caixa, que tem sempre pelo menos um resto do molho.

Vá, pronto, fique lá com a minha foto, eu não me zango. Não é para publicar no jornal, pois não? É que se for, aí temos muita pena mas ao menos vai escrever bem o meu nome. Agora, o que era mesmo simpático e justo da sua parte era pagar-me o servicinho. Ou ajudar, se preferir. Você tem cara de ser daqueles que gostam de ajudar. Vá lá, não se faça de atado. Ajude aí com uma moedinha e eu não me zango. Garanto-lhe que não é para vinho, é para comer.

Não tem moedas? E que culpa tenho eu disso? Quem começou não fui eu, foi o senhor. Vá lá, se é pelo troco, eu arranjo-lhe troco. Sou uma sem-abrigo prevenida. Até lhe passo recibo para descontar no IRS, não seja por isso.

Ah, bom menino. Assim está melhor. Ora faça lá cantar a carteira. Pode ser essa nota mesmo, essa aí, que se está a rir para mim. Vá lá, não vai ficar mais pobre.

Ena, cinco euros! Assim, sim! Mas não pense que vai ganhar o céu. Acha-se muito generoso? Deu cinco euros à sem-abrigo que anda aos caixotes e já acha que comprou um bilhete só de ida, em primeira classe, para o paraíso? Um Algarve eterno, cortesia de Nosso Senhor Lda., que, em vez de bifas sabidas, tem virgens? Não, não estou a insinuar que o senhor é islâmico, e, se for, não é problema meu. Só acho graça ao seu ar de Santo António de porcelana, só por ter dado cinco euros aqui à pobre de mim.

Não acha que seria muito barato, o paraíso por apenas cinco euros?

Olhe, sabe uma coisa? O senhor é um gabiru. Não, não, não, desculpe lá, é um gabiru. Arma-se em generoso, mas é um gabiru.

Espere lá, eu estou a reconhecê-lo. Você não era da televisão? Pois era, agora estou a reconhecê-lo. Aqui, com a falta de luz, estava difícil. Ora chegue-se cá mais ao candeeiro, que eu não mordo. Sim, o algodão não engana. O senhor era da televisão. E também é escritor, não é? Olhe, nunca li nada seu, nunca calhou. E não o quero ofender, mas, a julgar pela sua cara, as coisas que escreve devem ser umas estuchas, páginas e páginas que nem para limpar o rabo servem.

Ah, agora percebo a sua raça. Então você era da televisão, é escritor, e tem a suprema lata de só me dar cinco euros?

Olhe, a escrever, não sei quanto fazem, mas na televisão ganham fortunas. Podia dar-me mais algum pilim. Sei lá, se está armado em somítico, cinco euros e meio. Ou seis. Ah, já sei, não tem moedas. Então dê dez, filho. Ou vinte.

Se quer comprar o paraíso, assegurar que depois de morrer não vai ficar a viver na rua mas sim num apartamento todo modernaço, já agora, seja um bocado mais generoso.

Até porque estamos no natal.

Sim, eu sei que ainda não estamos no natal. Mas é como se estivéssemos, afinal quantas semanas faltam? Então você vê uma pobre mulher aos caixotes, não resiste a sacar-lhe uma fotografia, e depois, quando ela o topa, quando ela o interpela, você sente-se envergonhado e tenta comprar o seu silêncio? Tenta comprar a sua pobreza, pagando mal e porcamente a falta de respeito que foi tentar fotografá-la pela surra? Pois olhe, tem azar, aposto que a foto ficou tremida. Ou apanhou também o estafeta das comidas, sem querer. Coitados… Parecem uns caracolinhos, não é? Com aquele capacete e aquela casa quadrada às costas. Só lhes faltam os corninhos. Ah, não? Também o queria apanhar? Já percebi, também o queria apanhar. Não negue, está na sua cara. Não se faça mais parvo do que o que é.

Para quê negar? Só cá estou eu, o coitado do estafeta só estava aqui à procura do número da porta, e lá encontrou, mas só depois de tocar na porta errada… Provavelmente nem lhe deram gorjeta, coitado, com a desculpa do «ai agora tem de ser tudo com cartão». E ala, que há outra casa onde querem piza – ou então sushi, que agora a moda é comida japonesa. Não faça esse ar espantado, só porque estou a par das modas. Ando aos caixotes, lembra-se? Aprende-se muito com o lixo das pessoas. Somos nós e os agentes da CIA ou do KGB ou do raio que os parta.

Sabe lá você o que é a vida… Olhe, a vida anda boa é pròs gabirus. Como você.

Vá lá, arrote mais uma moedinha – ou melhor, uma notinha – e eu não conto a ninguém. Se for de cinquenta eurekas, até digo que você é um grande escritor. Olhe, com sorte, ainda ganha o Nobel.

Ah, assim é que é falar! Essa é mêmo à gandascritor. E não se preocupe, não vou gastar o dinheiro todo em vinho, vou tirar um curso de escrita criativa!

Rui Zink (Lisboa, 1961)
Escritor e professor. Autor, entre outros, de Apocalipse Nau (1996) e A Instalação do Medo (2012). Livros mais recentes: Manual do Bom Fascista e O avô tem uma borracha na cabeça.

Esta iniciativa resulta de uma parceria Coffeepaste / Prado. A Prado é uma estrutura financiada pela DGArtes / Governo de Portugal para o biénio 2020/2021.

Se quiseres apoiar o Coffeepaste, para continuarmos a fazer mais e melhor por ti e pela comunidade, vê como aqui.

Deixa o teu Comentário

Este site utiliza o Akismet para reduzir spam. Fica a saber como são processados os dados dos comentários.