Há-de ser eterna a mulher do fim do mundo

Por Sara Figueiredo Costa

Da favela para a ribalta musical, a vida de Elza Soares esteve longe de ser um conto de fadas, mas foi uma história de lutas várias: pela dignidade, pelos direitos dos mais desprotegidos e pela alegria de estarmos vivos e termos força para recusar aquilo que não queremos.

Nasceu e cresceu numa favela do Rio de Janeiro. Aos 12 anos, o pai obrigou-a a casar, viu dois dos seus sete filhos morrerem de fome e trabalhou em fábricas, nas limpezas e em tantos outros sítios para assegurar a sua sobrevivência. Em 1953, entrou num concurso de canto na Rádio Tupi cujo prémio era monetário, porque precisava de dinheiro para comprar medicamentos para um filho acabado de nascer. Nesse momento, nasceu também a lenda: quando o apresentador da Rádio Tupi, Ary Barroso, perguntou a Elza Soares de que planeta ela vinha, provavelmente desdenhado da figura magra e das roupas pouco glamorosas que a cantora envergava, Elza respondeu que vinha do mesmo planeta que Barroso, e quando este perguntou que planeta era esse, ouviu como resposta que era o “Planeta Fome”. Começou então uma carreira musicalmente promissora, mas sobretudo pautada pela força, pela recusa de baixar a cabeça perante o poder (e a ditadura militar brasileira bem o tentou, quando considerou Elza Soares um perigo e quando mandou metralhar-lhe a casa), pela vontade de nunca deixar calar a voz nem as palavras que com ela transmitia. Elza Soares morreu no passado dia 20 e é caso para dizer que continuará viva por muitos anos através da sua obra, que conta com mais de três dezenas de discos, e da sua intervenção nas diferentes comunidades que compunham o seu – e nosso – mundo.

Em 2016, a cantora passou por Portugal para uma série de concertos onde apresentou o álbum A Mulher do Fim do Mundo. Nessa altura, o Expresso entrevistou-a, num trabalho assinado pela jornalista Lia Pereira. Essa entrevista volta agora a estar disponível on-line, confirmando que Elza Soares tinha razão quando afirmava que queria «cantar até ao fim»: «Quando lhe perguntamos qual o momento mais incrível de uma trajetória carregada de glória mas também de incontáveis tragédias, não hesita: “Esse CD de agora. Com músicas inéditas e tão prestigiado, tão premiado. Dá-me muita alegria”. As gravações do mesmo, com «os garotos formados, músicos excelentes» que a deixaram «bem à-vontade», encheram-na de ânimo (“perfeito” e “sensacional” são os predicados que atribui a todo processo). Também porque, através de canções como “Maria da Vila Matilde”, pôde pôr o dedo nas feridas que lhe interessa debater. «É uma denúncia», explica. “Chega de mulher sofrer, chega de mulher apanhar calada e de ter de andar com medo em casa, com medo da denúncia. E com razão porque, se denunciava, voltava para casa como? Mais medo ainda. Esta denúncia foi muito positiva, porque as mulheres agora têm mais confiança, estão a unir-se mais. Acho que estamos a chegar a um ponto bom. A mulher está a valorizar-se mais, sabe?”.»

Entrevista ao Expresso

Este artigo foi publicado ao abrigo da nossa parceria com a Fundação José Saramago. Foi publicado na Revista Blimunda.

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