Hugo Cruz – Entrevista

Hoje conversamos com Hugo Cruz, director artístico do festival MEXE, um encontro bienal que se dedica a mostrar, criar e debater arte comunitária, e que acontece na cidade do Porto. Fez-se o balanço das edições anteriores, e falou-se desta quinta edição, das suas linhas de programação e principais temas. Falou-se também do envolvimento da comunidade local, e do futuro.

Que balanço fazes das edições passadas do Festival?
O balanço é muito positivo. Foram anos para gerar, construir e sedimentar a proposta localmente, mas sempre muito em diálogo com grupos nacionais e internacionais. O Mexe tem uma frequência bianual, por questões de sustentabilidade e identidade. Faz sentido que haja este tempo de intervalo para que os projectos possam desenvolver-se de forma continuada com as comunidades locais, e privilegiando o intercâmbio. De uma forma sintética, quando o MEXE aparece em 2011 fá-lo com uma proposta atípica no contexto dos festivais nacionais, e até europeus, principalmente pela relação próxima com a criação artística e as comunidades. Hoje em dia o cenário evoluiu bastante nesta área, e ainda bem, o que nos levou a repensar o universo de implementação do festival que, cada vez mais, é um festival de arte e política, que cruza criação e pensamento a partir as realidades. Procuramos não falar sobre as realidades mas sim a partir delas.

Fala-nos um pouco do tema desta quinta edição do MEXE, “o comum”.
A proposta é que a programação instigue uma reflexão sobre o que é “o comum” hoje. Como é que nos conseguimos organizar de forma colectiva, como é que perante uma desilusão com as democracias ocidentais, perante as propostas de organização e funcionamento do sistema político os cidadãos podem encontrar novas formas de fazerem “junto”, de fazerem “com”. No fundo, como podemos encontrar novos formatos de viver do ponto de vista social. Ora, se olharmos para a criação artística nos últimos anos, percebemos que esta tem estado sempre conectada com esta urgência do real, manifestando também a vontade de contribuir para este momento decisivo da humanidade. É inegável que estamos a viver um momento marcado pelo medo, o bloqueio, a indecisão, a confusão e o pessimismo. Neste contexto a criação artística é fundamental, pois permite experimentar alternativas e estimular poeticamente realidades ainda impossíveis. Por tudo isto, queremos que um MEXE focado noss grandes impasses do hoje. Para isso convocamos na programação as geografias do sul (Europa Mediterrânea, África e América Latina) e sublinhamos uma preocupação transversal para que em todas as áreas propostas (pensamento, documentação, oficinas e apresentação) ventilem ideias e práticas sobre a forma como podemos, de facto, construir novos espaços para estar e ser em colectivo.

Quais as principais linhas da programação?
Para além do que já foi dito acima sobre o tema, apresentamos este ano novidades em termos de estrutura. Para tal criamos o MEXE casa, O MEXE praça e o MEXE cidade. A primeira proposta permite que as pessoas possam viver com os grupos e artistas que integram a programação. Vamos ocupar uma “ilha” da cidade onde as pessoas poderão de facto estar mais próximos dos protagonistas do festival. O MEXE praça será o epicentro do festival. Está localizado no Jardim de São Lázaro no Porto e é uma espécie de busca e pesquisa do conceito de praça, enquanto um ponto de encontro e construção do comum dos envolvidos nesta semana. Para além desta função, este espaço terá uma programação diária de música e a apresentação de uma fanzine que acompanhará a vivência diária do Mexe. O MEXE cidade é um convite-provocação que fizemos a diversos espaços da cidade, desde cafés a galerias de arte, para que, durante o festival, se associassem a nós e integrando na sua actividade quotidiana algo que se ligasse com o nosso tema. Nesta acção, destacaria a parceria com uma loja que disponibilizará aluguer de bicicletas a preços especiais, para que as pessoas se possam deslocar de forma sustentável entre os mais de 22 espaços de programação.

Como se processa o envolvimento com a comunidade local?
Para termos noção, o MEXE envolve mais de 400 pessoas e mais de 34 parceiros, portanto o trabalho em rede e em esquema comunitário é algo que faz parte do ADN do festival. A cada edição procura-se o envolvimento diferentes pessoas e comunidades na produção, programação, acolhimento ou acompanhamento de artistas. Fazêmo-lo porque acreditamos que os festivais devem ser, cada vez mais, um encontro e não apenas uma mostra de espectáculos. Importa-nos que as pessoas que compõem a cidade façam parte da sua estrutura e contribuam para ela. Achamos que é este o percurso que os agentes culturais, e não só, devem fazer, procurando envolver os cidadãos nos processos de decisão e criação e não apenas na sua convocação para participarem, algumas vezes de forma pouca ativa.

Praticamente toda a programação é gratuita. Em que fundamentaram essa decisão?
O processo de democratização cultural em Portugal está ainda por cumprir. Apesar dos passos dados muito importantes desde o pós 25 de Abril, a verdade é que há ainda muitos cidadãos para os quais o acesso à oferta cultural é ainda muito distante. É importante entender que quando falamos desta dificuldade de acesso não falamos só do facto das pessoas poderem ou não ter dinheiro para pagar o bilhete, mas também do acesso ao nível dos transportes públicos e sua compatibilidade com os horários dos espetáculos. Neste assunto é importante olhar de forma crítica para informação que chega às pessoas, como é trabalhada, como é percebida por elas e quem realmente se procura que venha aos espetáculos. Numa outra dimensão, mas com relação à anterior, temos também que perceber que, em Portugal, ser artista não é propriamente acessível aos cidadãos com maiores dificuldades económicas. Em geral em Portugal, os pobres não podem ser artistas, isso ainda é percebido como um privilégio de certas elites. Por tudo isto, não fazia sentido para nós a criação de barreiras de acesso, porque, independente do tema que escolhemos a cada ano, o MEXE é, na sua génese, um festival que procura cruzar pessoas e comunidades distintas celebrando o diálogo e construção a partira da diversidade e não anulando-a.

O que consegues destacar da programação?
Destacaria, na nossa programação de sala, “Isto é Um Negro”, da autoria de um colectivo brasileiro, e que apresenta uma reflexão que vai muito além da negritude. O “Colectivo Lisarco”, um espectáculo de dança contemporânea, e também de dança o espetáculo do Uganda de António Bukhar e Faizal Ddamba, que apresenta um diálogo muito interessante entre dança urbana e dança tradicional africana. A fechar o MEXE, “Quando Quebra Queima”, um espectáculo construído por um grupo de jovens que integraram as ocupações estudantis de São Paulo em 2015. Destaque ainda para a grande parada que envolverá cerca de 300 pessoas, com 8 grupos musicais do Porto, celebrando o tema do festival, que terminará com um concerto e baile comunitário. E obviamente as mais de 60 ações que ocuparão mais de 22 espaços públicos da cidade.

Como vês o festival a evoluir nos próximos anos?
A edição de 2021 será necessariamente diferente. Estabelecemos como objectivo que esta seria a última edição do festival como o conhecemos hoje. O que perspectivamos para o futuro é um reforço do orçamento que permita a consolidação do MEXE, enquanto proposta madura com 10 anos de existência, permitindo criar condições para que os projectos possam ocupar a cidade por mais tempo e com outra continuidade. Outro desafio será o de concretizar as extensões noutros lugares do país, à semelhança do que aconteceu em Faro no ano de 2018.

Mais sobre o Festival em https://www.mexe.org.pt

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