Ideias Fortes. Ativismo Silencioso

Entrevista a Gabriela Albergaria
Por Mafalda Ruão

Na ambiguidade entre o natural e a natureza, o trabalho de Gabriela Albergaria debruça-se sobre a paisagem como forma de abrandar o tempo – um vetor de conexão e intervenção sobre o envolvente, mais profundo, e uma verdadeira meditação estética de nuances históricas, políticas e ativistas, onde a natureza comunica connosco, tanto do ponto de vista conceptual como material. Na sua obra, o jardim reflete uma cronologia milenar investida de várias narrativas – um eco de obstinada apropriação, dominação e manipulação da natureza ao longo da história. Como constructo humano, condensa valores, crenças e desejos de representação da sociedade capazes de revelar como esta se relaciona com o envolvente e se desdobram processos de aculturação de uma época. Assim se reproduz a vegetação fora do seu ambiente original, assim se criam quase novas formas de vida. O mundo real é-nos oferecido pelo confronto com novas visões da paisagem, as mesmas que repensam os sistemas de conhecimento e de poder.

O que chegou primeiro: começar a desenvolver um corpo de trabalho ou a necessidade de comunicar a paisagem?
O lugar onde nasci e passei a minha infância foi o campo. E, ainda que o vivesse, em certo sentido, de uma forma urbana, eu sempre tive um contacto muito próximo, por exemplo através da jardinagem com o meu pai. Essa vivência é-me assim de tal forma natural, que este processo é algo mais produzido do que construído. Nunca pensei a paisagem como um tema de interesse. É com a distância ao campo e, de alguma forma, com uma crise após a minha formação, já em Lisboa, que se deu a reviravolta. Nessa altura, só desenhava, até que um dia resolvi construir uma maquete de um jardim, que só mais tarde constatei ser o da minha infância. É quando me apercebo da importância da paisagem.

E porquê a natureza?
O interesse pelos jardins é fortalecido com a minha ida para Berlim, onde me deparo com outro tipo de natureza, onde faz falta o sol, as diferenças de luz na vegetação… Coincide também com uma leitura que fiz na altura e afirmava todas as praças lisboetas serem um jardim botânico. Aí identifico o que me falta: a diversidade de espécies em Portugal. Desenvolvem-se então outras questões: como é que Portugal tem plantas do norte da Europa ou tropicais? De onde vieram? E se comecei a trabalhar através da memória, pelo facto de me sentir bem a manipular intuitivamente certos materiais, ao mesmo tempo aproximava-me à história da arte, movida por questões de representação da paisagem; de repente, a natureza começa a assumir outro papel e o trabalho altera-se. Começo a estudar as questões dos enxertos, as viagens dos exploradores, as migrações das plantas… Quais os objetos inventados e as técnicas desenvolvidas para o transporte e a germinação das sementes fora do local de origem.

Dizia Richard Payne Knight , e a Gabriela?
Esta ideia é forte e acompanha-me já há algum tempo. É uma frase do século XVIII, que parte da primeira grande discussão sobre qual o melhor jardim, o francês ou o inglês. Cronologicamente e enquanto conceito, o jardim francês nasce primeiro por uma necessidade de controlar a natureza. Surgem a topiaria e a geometria do jardim, os canteiros, as linhas retas… E de súbito, ergue-se outra forma de fazer, que aproveita a depressão do terreno e proporciona longas vistas, mas que é igualmente manipuladora. É a primeira vez que se fala de natureza, ainda que o jardim seja algo artificial. Interessou-me como título para a exposição, porque nos habituámos a falar de natureza, ainda que inconscientemente, da perspetiva do humano que a subjuga. Na verdade, ela estaria muito bem sem nós.

Essa outra perspetiva sobre a natureza confirma que o trabalho da Gabriela tem várias camadas…
Diria que há dois momentos distintos no trabalho: a investigação e a produção. A investigação vem-me do mundo, da antropologia, das ciências, da experiência do local. Parto sempre de um lugar real que me desperta curiosidade para estudá-lo. Muitas vezes em aspetos não pensados, já outros fruto de referências e leituras passadas. É mais difícil tornar visível a parte investigativa, mas com essa preocupação comecei a perceber que a produção das obras lhe pode ser mais fiel. Por exemplo, numa viagem de investigação à Amazónia recolho amostras de terra, com as quais faço os desenhos posteriores. Ou, por observação dos jardins da Alemanha e do norte da Europa, aprendi a fazer encaixes de madeira, por meio das suas construções tão díspares ao sul da Europa, nas quais a madeira está num estado natural e a estrutura toda visível. Gosto de contemplar e refletir sobre detalhes que mais tarde serão potenciais soluções físicas para a minha escultura. A complexidade de cada trabalho revela-se, assim, pelos vários layers [camadas], sejam eles detalhes e soluções da ordem da arte, da carpintaria, ou simplesmente uma linguagem mais política e social.

A propósito desse lado político-social, alguma vez poderá considerar o trabalho environmental art”?
O meu trabalho passa de facto a ter um discurso mais sociopolítico que de início não tinha, ou, pelo menos, passa a sê-lo de forma mais consciente. Durante muito tempo nem o queria, rejeitava qualquer ligação à ecologia, pois o “discurso verde” é perversamente utilizado em prol de interesses financeiros de quem detém o poder. Além disso, sempre me incomodou a necessidade de rótulos. Conscientemente, não designo o meu trabalho assim; no entanto, debruçando-me sobre o termo environmental art, não posso negar que existem muitos pontos comuns. O discurso político interessa-me e a consciência sobre a natureza também. Não utilizo, todavia, apenas elementos naturais, ainda que me aproxime pela finitude da peça. Interessa-me controlar a sua degradação, utilizar materiais retirados da natureza e que a ela voltarão, irremediavelmente. Respeitando o ciclo natural.

E essa resiliência da natureza é mote para o Art Project aqui desenvolvido.
Sim. A ideia, que já tem acompanhado o meu percurso, parte de uma passagem da obra Trees: Their Natural History, de P.A. Thomas: “The essential difference between plants, including trees, and an animal is that most animals act as a whole unit (one heart, one set of eyes, one liver acting for the whole animal) whereas plants are modular, made up of similar parts added together, each acting largely independently, each replaceable.”

Making Earth, assim se designa, parte do grande enigma da recuperação da natureza – uma certa metafísica – para falar do ciclo de vida, através do ciclo da natureza. O qual é abordado pela capacidade de renovação da vegetação perante a ação inevitável do tempo. Para mim, a decomposição é uma promessa de vida.

À luz dessa impermanência e meditando sobre a ação humana na paisagem, o “jardim” da Gabriela já virou “planeta”?  Há mensagem ambiental?
Sem dúvida, e já o assumo. Um caso particular decorre na primeira visita à exposição A Natureza Detesta Linhas Retas , onde foi visível a evolução do meu trabalho, e quiçá, por isso, se levantaram muitas questões. Um caso concreto foi com a peça Trianon, feita a partir do parque Tenente Siqueira Campos, em São Paulo, mais conhecido como Jardim Trianon, cuja história parte de uma decisão de desenhar a cidade, deixando apenas um quadrado destinado ao futuro jardim. Ora, durante muitos anos não há obra e o espaço floresce. Quando mais tarde se convida um designer francês para o desenho do jardim, aquando da execução, verifica-se a existência de árvores no meio dos caminhos. E o projeto, respeitando a natureza, abraça as árvores. É inconcebível para alguém que trabalha jardins destruir aquele ser vivo.

As pessoas que vou conhecendo vão-me despertando para assuntos que depois se materializam na obra e lhe conferem um layer maior e mais profundo. Outro exemplo, quando na Amazónia me mostraram umas árvores cuja madeira, diziam, “não serve para nada” e que, por que não têm uso comercial, crescem enormes, sendo hoje marcos de referência à navegação. Reconheço nas árvores o poder de se protegerem; quando por falta de um propósito, ganham outro. Ainda que isto, claro, se apresente segundo a perspetiva do ser humano.

Percebe-se que as intenções da Gabriela já não são as mesmas do início.
Por força dos tempos que correm. Sinto-me uma pessoa do meu tempo, informada. O mundo nunca está fora do meu ateliê. O ter vivido outras realidades, valores e culturas, também me elucidou para as diferenças. Precisamos de sentido crítico e consciência do envolvente.

Quais as ferramentas de que a arte dispõe para uma maior consciencialização para a natureza e as mudanças climáticas?
Nesse sentido, o meu trabalho é manipulador, pois sempre considerei importante encontrar uma maneira de trabalhar que pudesse comunicar com o maior número de pessoas. Por exemplo, recorro ao desenho, quase numa aproximação ao século XIX, acreditando que sendo este mais onírico ou holístico, posso aproximar-me mais das pessoas. E o mesmo acontece ao fundir vários layers – as questões da história, a vertente poética, as referências literárias… Especialmente quem não está habituado a relacionar-se com arte e a questionar-se sobre certo tema a partir dela. Pela arte, tento que se comece a olhar cada assunto de outra maneira. Eu acredito que a arte pode criar veículos de pensamento e de atenção para as questões climáticas e da natureza. Mais ainda hoje, quando as consequências são inegáveis; é cada vez menos difícil comunicar. Acontece é que usufruímos da paisagem em nosso benefício. Ela carece de direitos próprios. Esta falta de respeito que tarda em surgir é fruto de uma demorada rutura entre a perceção da natureza per se e a sua representação, e de um distanciamento proporcional ao avanço das cidades.

Revê-se, nesse sentido, como artista-ativista?
Em 2003, fiz uma peça com os eucaliptos dos jardins da Gulbenkian, quando fui convidada a desenvolver algumas intervenções para uma exposição organizada por Teresa Andresen sobre a arquitetura paisagista em Portugal. Tive oportunidade de folhear os arquivos dos esboços de construção do edifício, onde me deparei com projetos específicos de proteção das árvores. A minha intervenção foi precisamente criar um fosso para destacar a consciência com que cortaram a raiz de uma árvore que se encaminhava para o edifício, a qual preencheram com argila para sarar o corte e evitar a sua morte. Foi de um respeito profundo. Mas, mesmo em 2003, era difícil entender-se este cuidado e o porquê deste trabalho, daí que tenha sido uma obra tão bem recebida como incompreendida.

Diria que sou uma ativista silenciosa, que pelo trabalho prefere encontrar outros veículos de informação mais efetivos. Um trabalho exaustivamente ativista comporta o risco de perder mais facilmente o respeito. É essencial que as pessoas acreditem no nosso discurso e em nós.

Este artigo foi publicado ao abrigo da nossa parceria com a Umbigo Magazine. A UMBIGO é uma plataforma independente dedicada à arte e cultura, que inclui uma revista trimestral impressa, uma publicação online diária, uma rede social virada para arte e um programa de várias atividades de curadoria.

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