Imagens: em movimento para construir novos imaginários

Por Sérgio Silva

O cinema brasileiro tem existido e desaparecido em ciclos, belas épocas, oscilando do ânimo esperançoso, promessas de estabilidade, sucessos de público, fechos e reaberturas de salas, encerramentos e retomas. Se houver vontade de conhecer este cinema, será preciso enfrentar estes obstáculos. Esta parece também a história da Cinemateca Brasileira. O arquivo de filmes está fechado em decorrência de um desmonte cultural em curso no Brasil dos tempos atuais.

Institucionalmente, a Cinemateca Brasileira é um órgão federal, com gestão via Organização Social, sob responsabilidade da Secretaria Especial de Cultura do Ministério do Turismo, do Governo Federal. A quantidade de pastas faz a distância entre a Cinemateca e o Estado brasileiro nunca ter parecido tão grande. A Presidência da República viu-se envolvida em uma série de escândalos, acumulando denúncias de desvios na saúde, num país que tem quase 600 mil mortos por COVID 19 até o momento. Foi exatamente o início da quarentena, em março de 2020, que serviu de motivo para que o pequeno grupo do qual eu fazia parte passasse a realizar os seus trabalhos de casa.

Aos salários já atrasados, se somaram outros meses não pagos e, passado um ano e dois meses da entrega das chaves da instituição para a União, ainda não tivemos nenhuma posição da Organização Social responsável sobre o encerramento destes contratos. Evidentemente, mesmo com todos os alertas dos colegas de preservação audiovisual, associações, cineastas, arquivos, instituições, ninguém consegue ainda acreditar ou aceitar o incêndio ocorrido no final de julho de 2021. É sempre importante frisar que o material que entrou em combustão não eram películas produzidas em nitrato de celulose (como já ocorreram outros; o último, em 2016, aconteceu exatamente quando a equipe estava sem contratos de trabalho e reduzida). Desta vez foram destruídos, sobretudo, documentos em papel e cópias de difusão em acetato, e quem já tentou assistir ou exibir um filme em seu suporte original 16mm ou 35mm certamente compreenderá a dimensão desta tragédia.

O Brasil faz o melhor cinema brasileiro do mundo. Nos seus melhores momentos, costuma desafiar algumas regras da linguagem cinematográfica universal, seja por poesia, risco ou ingenuidade. Procure conhecer o cinema brasileiro, mas não comece pelos maiores filmes, procure pelos pequenos.

Conheça a aventura brasileira na tela e também leia o cinema brasileiro. Um dos cinemas mais livres do mundo produziu vasta literatura e pesquisa sobre este cinema de invenção, trajetória no subdesenvolvimento de vocação experimental e que merece mais vivas que lamento. Enquanto os arquivos físicos estejam enjaulados e impossíveis de serem acessados, será também esta a ação capaz de tornar este cinema, brasileiro, para um futuro.

Sergio Silva
Cineasta e argumentista. Curador da Cinemateca Brasileira entre 2012 e 2020, com experiência nos sectores de preservação, expedição e documentação. Realizador e argumentista de A Terra segue Azul quando saio do Trabalho (2021), Estamos todos na Sarjeta, mas alguns de nós olham as Estrelas (2020), Minha Única Terra é na Lua (2017) e A Vida do Fósforo não é Bolinho, Gatinho (2014). Homenageado com a Filmes do Caixote na Mostra Tiradentes 2020.

Foto de Samuel Regan-Asante

Se quiseres apoiar o Coffeepaste, para continuarmos a fazer mais e melhor por ti e pela comunidade, vê como aqui.

Deixa o teu Comentário

Este site utiliza o Akismet para reduzir spam. Fica a saber como são processados os dados dos comentários.