Index – Bienal de Arte e Tecnologia

Por Margarida Alves

Há indícios que nos dizem que entre as superfícies tecnológicas há caminhos que se desdobram, pois os mesmos podem ser usados como uma força dual, ou seja: como instrumentos de alienação simbólica, ou, por oposição, como recurso para o conhecimento ou para a emergência de iniciativas de responsabilidade ecológica e social.

É neste sentido que o INDEX regressa este ano – entre 12 e 22 de maio, em diversos lugares da cidade de Braga1 e online com uma proposta de exploração do conceito de Superfície.

De acordo com Luís Fernandes, diretor artístico da bienal, o tema explora criticamente a ideia inicial de superficialidade, ou seja, da tendência geral para se considerar os outputs artísticos baseados na tecnologia como potencialmente superficiais ou subordinados a um deslumbramento técnico. Neste contexto, o conceito de Superfície abre caminho para um questionamento que se aprofunda, como o extrativismo, ou ainda, como zonas de emergência – no sentido do ganho de conhecimento ou como interfaces tecnológicas.

Do ponto de vista curatorial, o programa conta também com Liliana Coutinho, (curadora convidada do programa de conferências) e Mariana Pestana (curadora convidada do programa de exposições), sendo desenvolvido de forma articulada entre os três organizadores.

Se, por um lado, Mariana Pestana se coloca numa posição autocrítica num contexto de uma bienal de arte e tecnologia, questionando o que está implícito quando se desenvolve este tipo de obras tecnológicas (como o caso da extração do lítio para o desenvolvimento de baterias), há, por outro lado, uma reflexão em torno da transfiguração para o digital como sintoma da sociedade contemporânea: a existência cada vez mais significativa de realidades ou espaços sociais de encontro no digital. Salienta-se, por isso, a narrativa paralela entre o processo de extração e a superfície do digital. Indo ao encontro do tema, o artista convidado Tiago Patatas irá desenvolver uma obra de cariz de ativismo político, centrada nos processos de mineração (a prospeção do lítio no território português e a sua extração, que já aconteceu, por exemplo, na América latina, estabelecendo-se relações entre estes diferentes lugares). A artista Bethany Rigby será convidada a desenvolver uma obra em torno da mineração no espaço (da forma como a Estação Espacial Europeia e a NASA têm programas de prospeção de minério em asteroides). Adicionalmente, mantendo o sentido materialista, uma instalação de Christien Meindertsma irá explorar os elementos da matéria que formam o corpo humano. A artista questiona-se acerca da transfiguração das formas, ou seja, do modo como os elementos se imiscuem entre si, transmutando o nosso corpo em mundo: “O que me constitui? De onde vêm os elementos que me compõem? E para onde vão? Como me relaciono com todos esses elementos que me circundam?”2

Mergulhando no digital, a artista e designer Ginevra Petrozzi irá desenvolver uma obra de esoterismo: um conjunto de objetos e performance na qual faz divinação, utilizando algoritmos de previsão que existem nos nossos telemóveis, ou seja, há uma leitura do futuro ancorada nos algoritmos e nos dados que as plataformas digitais têm acerca dos nossos padrões de vida, centrando-se este trabalho numa crítica ao capitalismo de vigilância, e funcionando assim como uma ferramenta de resistência ao mundo do Big Data.

No programa performativo, a INDEX contará também com diversos artistas, como Florian Hecker, que explora o som enquanto elemento textural e tímbrico, e Jonathan Uliel Saldanha, que irá apresentar um lago munido de tecnologia e de avaliação de parâmetros biológicos e químicos. Retomando as questões da prospeção do lítio em Portugal, a dupla Matthew Biederman and Pierce Warnecke vão desenvolver um espetáculo que apresenta mapeamentos do terreno, permitindo especular como é que o território se vai modificar após esta hipotética intervenção. A artista sonora Jana Winderen apresentará uma obra de captação de sons de animais em vias de extinção, neste caso insetos subaquáticos, que, para poderem aumentar a sua capacidade respiratória, acoplam à sua superfície corporal uma bolha de ar com propriedades acústicas muito particulares. Explorando a era digital, Vicki Bennett (aka People Like Us) irá desenvolver uma peça audiovisual a partir da torrente de informação em tempo real, confrontando-nos com o bombardeamento do data a que somos sujeitos através de plataformas de cultura popular, como o YouTube ou o TikTok.

No ciclo de conferências da bienal, junta-se um pensamento interdisciplinar, pessoas com diferentes trajetórias, como o filósofo Michael Marder, que irá ajudar a refletir acerca das questões ecológicas e do seu enquadramento num ecossistema maior, onde se delineia uma alternativa à ideia de que temos de furar para ir buscar energia ao fundo da Terra, inspirando-nos, pelo contrário, nas plantas e na sua sensibilidade da superfície. Serão feitas pontes com o artista Tiago Patatas, que irá conversar acerca da exploração do lítio, não só no contexto português, mas como um fenómeno complexo global que incorpora questões geopolíticas. As designers e investigadoras Virginia Tassinari e Delfina Fantini van Ditmar estarão também em diálogo, ajudando-nos a pensar acerca dos impactos dos mundos que desenhamos e imaginamos, e o artista Miguel Carvalhais e o engenheiro Mário Figueiredo irão refletir acerca da experiência estética em articulação com a inteligência artificial e a computação. O filósofo Federico Campagna irá centrar-se na história do pensamento sobre a magia, defendendo que estamos num momento de transição da idade da técnica para a época da magia. Acresce um debate que parte da instalação de Jonathan Uliel Saldanha, e, por fim, uma conferência encenada de Bruno Latour e Frédérique Aït-Touati, em que se propõe uma representação do mundo virada do avesso, um olhar para o que está debaixo da superfície.

Neste ciclo de conferências, exposições e performances, haverá ressonâncias entre os artistas e os oradores, mudanças de perceção que poderão impelir a forma como agimos.

As obras a apresentar irão não só centrar-se na intersecção formal entre a Arte e a Tecnologia, mas sobretudo no sentido crítico que esta interseção nos propõe, ou seja, o foco não consiste na exposição das conquistas técnicas associadas a novos meios tecnológicos, mas sim no seu questionamento e nas respetivas possibilidades de exploração artística.

Na INDEX, a Superfície manifesta-se para além do simulacro, constitui-se em complexidade e profundidade, constituindo, no sujeito, a capacidade de ver. Pois os media tecnológicos têm materialidade. A superfície dos dispositivos é constituída por um corpo onde as matérias se mapeiam até aos processos de mineração e consumo, ou ainda, no fim do seu ciclo, como parte dos despojos ou das matérias tóxicas que demoram muito tempo a deteriorar-se, por oposição à sua velocidade de extração, produção e consumo.

O tema fica em aberto e a vasta programação da bienal incluirá exposições, performances, conferências e ações educativas.

Mais informação em: http://indexmediaarts.com

Referências:

1 – Braga é uma Cidade Criativa da UNESCO em Media Arts. “Desde 2017, Braga faz parte de uma rede de 284 cidades espalhadas pelo mundo que colocam a criatividade no centro do seu desenvolvimento social, cultural e económico. No momento em que foi designada Cidade Criativa da UNESCO em Media Arts, a cidade assumiu um compromisso e plano de ação para os quatro anos seguintes, que fundamentam a presença das Media Arts na cidade através da criação de equipamentos dedicados, de um serviço educativo, de uma programação regular e exclusivamente pensada no âmbito deste domínio artístico, entre outras ações. Este plano está neste momento em implementação e o INDEX é uma das suas formas visíveis.”, disponível em: indexmediaarts.com.

2 – Tradução a partir do original de Christien Meindertsma: “What am I made of? Where do my elements come from, and where do they go to? And how do I relate to all these elements of matter around me?”, disponível em: christienmeindertsma.com/Sharing-Elements.

Nota Final: Artigo desenvolvido a partir de entrevista online realizada a Luís Fernandes, Liliana Coutinho e Mariana Pestana, a 28 de janeiro de 2022.

Este artigo foi publicado ao abrigo da nossa parceria com a Umbigo Magazine. A UMBIGO é uma plataforma independente dedicada à arte e cultura, que inclui uma revista trimestral impressa, uma publicação online diária, uma rede social virada para arte e um programa de várias atividades de curadoria.

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