Indignai-vos: A guerra é um atraso civilizacional

Por Inês Lampreia

Quando Nuno frequentava o liceu eclodiu a guerra na ex-Jugoslávia. Acompanhava as notícias pela televisão com um gosto amargo na boca, um sentimento de impotência e uma vontade enorme de se tornar jornalista de guerra para contribuir de alguma forma. Certa vez, ainda na adolescência, surgiram conversas ao jantar. Os seus avós e a sua mãe combinavam preparar sacos de comida para levar a um monte abandonado, onde uma família do Kosovo se refugiara. A avó, particularmente, revoltava-se com as condições insalubres daquela casa e lamentava não conseguir comunicar melhor com a família. Lembrava-se particularmente do dia em que preparam os sacos e caminharam, a pé, até lá. Ele, a sua mãe e a sua avó seguiram pela estrada com dois grandes sacos de plástico brancos cheios de latas de conserva, batatas, cenouras, pão e outros alimentos. Debaixo de um dos braços levavam mantas enroscadas, almofadas e lençóis, que a avó tinha herdado e a que não dava uso.

A memória já não lhe permitia saber o que acontecera a essa família de kosovares, mas recordava agora os olhares tristes e simultaneamente assustados da mulher, do homem e das duas crianças que, naquela tarde da sua adolescência, surgiram à porta do monte em ruínas, onde não havia água potável, luz, gás ou o que fosse. Foi a população da vila que os acolheu, lhes deu de comer, os aqueceu e protegeu.

Ao longo de semanas, pessoas dirigiam-se até ao monte. Sem conseguirem falar na mesma língua que os refugiados trocavam sorrisos, gestos e olhares, na tentativa de dizer tudo o que as palavras não explanavam.

Anos depois, longe da vila, já na universidade, Nuno seguia as manifestações em Lisboa, cantando pelo povo de Timor-Leste e acordava de sonhos lúcidos, à noite, com as imagens dos timorenses a serem massacrados pelas mãos dos indonésios. Nessa altura, estudava informática e pensava que podia contribuir para a literacia digital de países como Timor.

Em 2001, assistiu ao 11 de setembro e depois à segunda guerra no Iraque, às guerras do Afeganistão, da Síria, da República Centro Africana, do Iémen e tantos outros conflitos que foram marcando os seus dias. As guerras, a violência armada e as disputas por território, poder, soberba… sucediam-se no mundo. Indagava, muitas vezes, se haveria na história algum ser humano que tivesse vivido toda a sua vida sem a perceção de uma guerra. Não era o seu caso, decerto não era o caso dos seus pais e muito menos dos seus avós.

Para si, a guerra, ao contrário de outros acontecimentos que se iam revelando no mundo, era um atraso civilizacional. Parecia-lhe que não só emergia de pessoas ignóbeis como perpetrava visões do mundo retrógradas. Além disso, continha sempre o vil desfeche de matar e arruinar vidas inocentes.

Viver e ver como um vírus invisível provocava uma pandemia e as consequentes disfunções nos sistemas sociais era hediondo. Mas, mais hediondo, ou aliás aviltante, era a guerra que igualmente impunha a disfunção total dos sistemas sociais de um momento para o outro, mas não surgia de um vírus, surgia de humanos contra outros humanos. Nuno lembrava a palavra certeira de Hessel: indignai-vos.

Há um mês atrás pessoas na cidade de Kiev viviam como outros europeus. Há umas semanas atrás faziam as suas vidas, tinham planos, viajavam, eram livres e sonhavam sobre os seus futuros, como todos no resto da Europa e, subitamente, eram privadas de tudo, pela mão de um ditador e por um exército militante inumano e cego. Que culpa têm os povos na maior parte das guerras que perfazem a nossa história?

Agora, vinha este bárbaro do século XIX massacrar civis e pôr em causa um país? Não bastava todos os problemas com que a civilização já se confrontava como a pandemia, o clima, a pobreza de milhões e tantos outros conflitos no mundo que não cessavam? Vinha um imperialista saudosista e narcísico, atropelar acordos internacionais e valores universais mandando matar civis, deitando abaixo cidades, implantando o terror na vida de milhões de pessoas? E ainda por cima ameaçando com armas nucleares?

Em 2010, com 93 anos, Stéphane Hessel, herói da resistência francesa, sobrevivente dos campos de concentração nazis, um dos redatores da Declaração Universal dos Direitos Humanos escreveu o breve manifesto Indignai-vos![1], contra as tantas e sérias razões para a indignação com que o mundo se confrontava. As suas palavras lidas atentamente pelo Nuno em 2010 ecoavam agora firmes no seu interior. Indignai-vos. E ecoava também a lição de Primo Levi quando escreveu “Aconteceu contra todas as previsões; aconteceu na Europa, incrivelmente, aconteceu que um povo inteiro civilizado, acabado de sair do fervilhante florescer cultural de Weimar, seguisse um histrião cuja figura hoje provoca riso; e, no entanto, Adolf Hitler foi obedecido e gabado até à catástrofe… Aconteceu, portanto, pode acontecer de novo”[2].

Não estavam assim tão longe, pensava Nuno. A Ucrânia era ali mesmo, na Europa, num país vizinho. Cerca de 4000 km de estrada. As suas emoções e sentimentos levavam-no a imaginar uma escalada de situações. Se tivesse na mesma condição que aqueles homens entre os 18 e os 60 anos? Se viesse a ter de se ver obrigado a pegar numa arma para defender o seu país, seria capaz? Seria capaz de dar a vida por Portugal como os Ucranianos davam a sua?

Afinal precisávamos mesmo de exércitos, pessoas que davam as suas vidas pelas nossas, que pegavam em armas e se lançavam a defender os nossos interesses. Pareciam-lhe, subitamente, absurdos muitos dos discursos dos seus amigos “antitudo”, que vivendo nas suas bolhas ocidentalizadas e à margem das vidas reais e difíceis de tantos povos do mundo, criticavam, à boca cheia, muitas das ações de política internacional e geoestratégica. Via-os como pequenos grupos, que rodopiavam à volta de si próprios, dos seus umbigos, em busca de prazeres e reconhecimento de pares. Limitavam-se a papaguear meia dúzia de referências estruturalistas e defender os seus interesses de grupo, criticando o que desconheciam e protegendo-se de possíveis agressões. De resto, o mundo político, era para eles, uma nuvem de informações que mascavam de acordo com a necessidade de seguirem a ordem do dia.

Inevitável parecia-lhe aquele sentimento que comprimia o seu peito, a angústia de perda do mundo criada pela culpa de que falava Bruno Latour[3], quando em face de questões tão complexas se apercebia da sua pequenez, enquanto indivíduo, para fazer a diferença. Contudo, a pequenez podia ser impactante. Bastava pensar no Coronavírus ou num mosquito dentro de um quarto, quando queria dormir, para perceber que a pequenez importa.

Qualquer pessoa se podia indignar e logo resistir. Essa talvez fosse uma das melhores sensações de viver no seu tempo. Os ucranianos que se juntavam para lutar demonstravam isso mesmo. E as populações europeias e mundiais que se aglomeravam nas suas cidades em manifesto contra a ação de Putin, eram exemplo também. Assim como o movimento da sociedade civil para criar a linha de apoio https://wehelpukraine.org/ e outros que emergiam da atroz guerra.

Um espírito de união internacional havia-se levantado, a União Europeia e os líderes dos diferentes países eram obrigados a ouvir os povos que os legitimavam fazendo emergir o valor crucial da democracia. As sanções impostas à Rússia, as ajudas humanitárias, monetárias e militares, entretanto garantidas, produziam um sentimento de esperança em Nuno. Afinal, talvez, a decadência moral da europa que Ortega y Gasset anunciara em A rebelião das massas, não fosse assim tão certa.

Stéphane Hessel tinha razão. Indignarmo-nos era um gesto, tinha de ser um apelo, um aviso de contágio dos cidadãos para que os seus clamores, os seus gritos de ordem, de alarme, tivessem ressonância nos governantes.

Devíamos, portanto, maximizar as nossas ações individuais e coletivas: chamar a atenção dos políticos que elegíamos, ir para a rua manifestarmo-nos, partilhar informação, dizer e repetir as palavras necessárias. Agir… agir com vontade… porque vivíamos num país democrático onde a palavra era livre para ser dita e a manifestação pública acolhida como um bem.

Desta vez, Nuno detinha ferramentas. Se outrora ambicionara participar ativamente, agora podia fazê-lo. Nuno não gostava de conflitos e não fora educado para reagir à violência. Era um privilegiado porque vivera sempre num território sem guerras, mas na vizinha Ucrânia despontara uma guerra. Era preciso agir para não sucumbir à culpa e à angústia.

Vivíamos tempos brutais e a não violência, a tolerância e a paz eram o caminho do futuro, o caminho a seguir. Mas, para já, tínhamos de nos indignar e derrubar o ditador. Acima de tudo derrubá-lo, descredibilizá-lo, fazer com que o mundo tivesse vergonha de conter um indivíduo assim dentro dele. Não se podia continuar a entregar o poder a charlatães, loucos narcísicos, demagogos e ditadores cheios de ódio e ressentimento.

Nuno entrou na darkweb, ligou-se aos três hackers com quem avançava desde há dias, cada um a partir de um canto do mundo, numa demanda colaborativa. A sua pequena contribuição iria aparecer nos ecrãs das famílias russas, numa mensagem em letra helvética, tamanho 16. Objetivo comum: disseminar mensagens na internet russa sobre a ação de Putin.

Nuno escreveu no chat encriptado: “Para casos extremos, ações extremas. Abaixo Putin. Indignai-vos!”.

[1] https://books.google.pt/books/about/Indignai_vos.html?id=tM_HAgAAQBAJ&printsec=frontcover&source=kp_read_button&hl=pt-PT&redir_esc=y#v=onepage&q&f=false

[2] Os que sucumbem e os que salvam, trad. de José Colaço Barreiros, Lisboa, Teorema, 2000 (Outras estórias), p. 200 (N. da T.)

[3] https://brasil.elpais.com/brasil/2019/03/29/internacional/1553888812_652680.html

Inês Lampreia (Lisboa/1979) foi premiada pela Casa do Alentejo na categoria de conto em 2012 e tem sido publicada pela Edições Pasárgada. A par do conto, os seus escritos atravessam áreas como argumento, instalação literária e escrita experimental.
Conceptualiza e desenvolve projectos no âmbito das metodologias pedagógicas alternativas nas áreas da poesia visual, códigos de linguagem e educação para os media, ao longo dos últimos quinze anos, na Fundação Calouste Gulbenkian e em outras instituições. É uma das escritoras do projeto Young Writers Lab – An international Collaborative Laboratory for Writers&Students.

Foto: Blackieshoot

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Comments

  1. Muito bom e actual parabéns…paz…

  2. ❤️

  3. Muito obrigado, Inês Lampreia, pelo teu texto. Amor e Paz é preciso pois como dizes já temos graves problemas com nos defrontar. Um deles é a escassez derivado aos modelos de consumo em especial no mundo ocidental, nomeadamente ambiental, que daí advém. Assim participo ativamente num Festival pela Transformação. Deixando a ligação para o nosso site: https://www.umundu.pt/ para que tu ou quem estiver interessado, possa colaborar.

  4. Teresa Caeiro says

    Gostei muito, Inês. Muito actual, bem visto e muito bem escrito, como sempre. Parabéns. É um prazer ler o que escreves, que não se limita a uma história mas provoca muita reflexão, sustentada em várias visões de filósofos e escritores de renome. Muito obrigada!!!

  5. Indignação: uma só palavra e tanto poder!👏

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