(In)significância[1] ou um drama humano

Por Inês Lampreia

No século XXI as pessoas vivem transtornos singulares. No âmbito do mundo global da informação e do entretenimento, e através da inevitável mistura entre os mesmos, a fama é muito menos estável. Sedimenta-se a máxima de que “ser famoso já não depende de ter feitos extraordinários”. Basta trabalhar para o sucesso. Pedro escrevia estas palavras no formulário do relatório. Nos seus gabinetes, técnicos das mais variadas áreas preparavam o ‘grande dossier’ sobre as características da persona globalis – os habitantes da Terra no tempo presente. Era preciso monitorizar continuamente a espécie, relatar, caracterizar e, sobretudo, garantir que o seu comportamento, meticulosamente estudado, permitiria, a seu tempo, que outros técnicos viessem a prever, através da sistematização de dados, o comportamento e a manutenção da espécie nos séculos vindouros.

O grande flagelo demográfico continuava. Em poucas décadas alguns países teriam de reorganizar os seus territórios e fazer coligações para continuarem a existir. A velhice abundaria e mesmo que as populações envelhecidas fossem capazes e trabalhadoras, as dinâmicas sociais estavam, de qualquer forma, em risco. Era preciso estudar mais e mais a persona globalis de forma a tratar e redirecionar o seu comportamento para uma outra ordem de futuro.

Pedro, a trabalhar no Departamento de Comportamento e Adequação Social tinha, juntamente com uma vasta equipa, a árdua tarefa de dissecar uma das características presentes na humanidade do século XXI – o medo da insignificância.  Para além do seu grande conhecimento histórico, Pedro acedia às ‘leituras comportamentais’, que se operavam através de algoritmos previamente alinhados, em múltiplas conjunções de dados, e que estabeleciam a matriz de comportamento de diferentes franjas da população.

A observação desses dados permitia-lhe refletir em como a persona globalis se distanciava profundamente dos heróis da mitologia grega no que respeitava às motivações para obter a fama imortal. Enquanto os heróis gregos teriam desejado morrer fisicamente pela possibilidade de gerações vindouras contarem as suas histórias, a persona globalis, agarrada ao seu individualismo, ao medo da morte e da sua insignificância, vivia dedicada ao reconhecimento social. Pedro verificava, portanto, que a persona globalis necessitava de ser apreciada no quadro cultural em que se inseria. O valor simbólico que atribuía à experiência profissional mobilizava-a para colmatar a necessidade de imortalidade. Esta característica fizera emergir, no entanto, durante as primeiras décadas do século, um problema do foro psico-emocional ainda por resolver e que criara um certo declínio, a longo termo, da vida humana – a gestão quotidiana da autoestima da persona globalis, a patologia da ansiedade e a depressão.

Pedro continuava a preencher o relatório:

Muitas das vezes as carreiras implicam movimentações laterais. A efetividade no trabalho já não garante estabilidade ou, o “diamante” tão esperado, o êxito. A persona globalis tem como característica um certo grau de desapego pelas instituições, visão essa que a impele a ir de lugar em lugar, de relação em relação, numa tentativa de maximizar as suas oportunidades. Há, em simultâneo, uma adaptação rápida à cultura corporativa, sem questionamentos de maior. A persona globalis incorpora o espírito de qualquer equipa em que se insere e os modos da instituição, não pela vertente dos valores, mas pelo jogo complexo de tarefas para atingir o sucesso. É, portanto frequente que, para alcançar o êxito, se subjugue, tenha relações de subordinação, participe em troca de favores que ocorrem entre chefias e assistentes polidos e servis.

Pedro fez uma pausa. Olhou para o lado e apercebeu-se de como fazia parte, ele mesmo, desse perfil. Sempre que superiores hierárquicos apareciam estava prontamente sorridente e servil, mesmo que o dia lhe fosse muito difícil. Ser natural era, por assim dizer, um interdito.

Dentro do quadro de sucesso, a escala de idolatria materializa-se. Os fãs procuram tocar – simbolicamente, mas sobretudo fisicamente – os seus heróis e celebridades, como os crentes desejavam, no século XX, tocar as estátuas dos santos que adoravam como forma de obter fortuna. Agora, muitos dos heróis são tocáveis, estão a parca distância, são CEO`s, presidentes, diretores, desportistas, artistas, considerados bem-sucedidos, e podem proporcionar uma subida nas escalas do êxito. A persona globalis ambiciona pela atenção desses heróis, perpetuando uma cadeia de poder que se alastra aos mais vários âmbitos, da esfera do trabalho à esfera social ou íntima.

Pedro decidiu ainda incluir um parágrafo esclarecendo que esta consideração era fruto de uma herança de comportamento ao longo dos séculos.

Não é novo este sintoma. É uma herança dos séculos anteriores, uma herança do funcionamento humano em sociedade, da qual as cortes e os seus mecanismos de poder são um exemplo paradigmático.

Muitos terão de fazer escolhas esgotantes com frequência. O lema just do it, que surgiu no início do milénio por via de uma campanha publicitária da marca Nike, passou a slogan de emancipação. Just do it, como se tudo fosse possível de se fazer. O lema ganhou ainda mais força pela extrema necessidade de suplantar a angústia de ser mal-sucedido. Deslocação, rapidez, movimento… fazer. Fazer muito. Fazer depressa… cria a sensação de que já se é bem-sucedido.  

Para muitos a motivação para a glória não é o lucro, mas sim a procura de ter significado, de ser importante. Por isso, o trabalho do eu-mercadoria ou eu-produto torna-se primordial e espera-se que continue nas próximas décadas. Este trabalho exige à persona globalis um conjunto de produções da sua persona física e digital, através da marketização de si próprio. No digital exige a criação de conteúdos, sobre si ou não, que constroem o seu perfil e, de acordo com a visibilidade desses conteúdos, é-se bem ou mal-sucedido. Este trabalho do eu-mercadoria cria, em simultâneo, incertezas angustiantes: o que faz é suficiente? É reconhecido e famoso em que circuito? Qual o grau de sucesso que obtém? Que retorno?

A estas preocupações estão também ligadas outras de carácter financeiro. O sucesso, sempre aliado ao valor, enquadra um diferente grau de reconhecimento. A persona globalis vive paralelamente a angústia daquilo a que o sociólogo Dalton Conley [2]refere como sendo “o efeito económico do desvio para o vermelho”, ou seja, a sensação de que nunca se ganha o suficiente porque a vida bem-sucedida está relacionada com abundância e porque os êxitos alcançados estão sujeitos ao mercado do capital e do material.  

Neste sistema complexo e viciado, a persona globalis vive ansiosa, mesmo quando tudo corre bem, e a sensação de satisfação é momentânea. Os processos de auto-reflexão são escamoteados com fármacos, com gestos de luxo presentâneos ou com a procura de espiritualidades pop. A busca de um sistema de crenças que garanta conforto responde ao slogan publicitário de que a realização pelo trabalho e o bem-estar espiritual concorrem para o mesmo – o sucesso.

Neste mercado global em que habita, a persona globalis quantifica-se e seria-se. O valor da pessoa pode depender do sucesso do marketing pessoal, alcançado por diferentes vias. Não é pouco comum as listas anuais dos “melhores” em diversas áreas, assim como os rankings, que estão em todos os âmbitos.

Por conseguinte, a quantificação alastra-se, assim, a todos os foros da vida da persona globalis. Quantos desejos concretizados? Quantos países visitados? Quantas aventuras realizadas? E quantos amigos bem relacionados dentro e fora do digital?

Pedro decidiu, entretanto, que era agora necessário introduzir fatores de enquadramento.

A ambição de fama ou sucesso não deve, contudo, ser demonizada. Essa tentativa será sinónima de falta de atenção às várias circunstâncias da psique da persona globalis. A busca pela fama, numa versão atualizada, é a forma de lidar com o maior horror – ser mortal -, que se torna ainda mais evidente devido ao mercado da concorrência do “eu bem-sucedido”. A persona globalis é constantemente derrotada pelas outras bem-sucedidas e espetaculares personas globalis que habitam no mundo. A comparação é local, regional e internacional, e também de âmbito relacional e emocional. As vidas são a sucessão das experiências de trabalho, numa espécie de gráfico de realização que abrange também os domínios das relações, da excitação, da experiência, afastando a persona de uma biografia humana com profundidade.

Como qualquer formulário para o ‘grande dossier’ o número de caracteres constrangia Pedro de se estender demasiado em elucubrações, remetendo-o a um conjunto de conclusões:

A persona globalis é um gestor do seu portfólio e ganhou hábeis capacidades de construção da sua realidade, afastando-se com frequência do seu eu primordial.

A persona globalis tem um valor de mercadoria que depende de vários fatores e a maior parte deles não está sobre o seu controlo.

O impacto da significância no bem-estar da persona globalis é ainda parcamente identificável. Sabe-se que o grau de perturbações da ansiedade e a utilização de inibidores da recaptação de serotonina são amplamente utilizados e o seu mercado é crescente.

A vida no século XXI é considerada cansativa pela persona globalis, no seu esforço contínuo de alcançar etapas para se sentir bem-sucedido e significante.

A ilusão e a fantasia são extremamente vívidas na psique da persona globalis que as almeja, ampliando ainda mais as suas frustrações.

Nota final: necessária investigação psicopatológica mais aprofundada sobre a permanência do fenómeno (In)significância. A persona globalis padece de sentimento persistente de que não vive uma vida verdadeiramente significativa e sofre de pânico existencial de não alcançar a vida invejável.

[1] https://dicionario.priberam.org/insignific%C3%A2ncia

[2] in Carlo Strenger, O Medo da Insignificância, Lua de Papel, Alfragide 2011/ a partir de: https://books.google.pt/books/about/Elsewhere_U_S_A.html?id=OKVzPwAACAAJ&redir_esc=y

Inês Lampreia (Lisboa/1979) foi premiada pela Casa do Alentejo na categoria de conto em 2012 e tem sido publicada pela Edições Pasárgada. A par do conto, os seus escritos atravessam áreas como argumento, instalação literária e escrita experimental.
Conceptualiza e desenvolve projectos no âmbito das metodologias pedagógicas alternativas nas áreas da poesia visual, códigos de linguagem e educação para os media, ao longo dos últimos quinze anos, na Fundação Calouste Gulbenkian e em outras instituições. É uma das escritoras do projeto Young Writers Lab – An international Collaborative Laboratory for Writers&Students.

Foto por Melani Sosa

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Comments

  1. Paulo J. S. Barata says

    Parecendo distópica, a reflexão não o é tanto assim… Mas o «medo da insignificância» é, na realidade, uma outra versão, ainda que mais desviante, do velho «desejo de ser amado» que sempre existiu no seu humano…

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