Isabel Alves – Entrevista

No âmbito das comemorações sobre o centenário do nascimento do artista, poeta, crítico, curador e cineasta português Ernesto de Sousa, que começaram no passado mês de abril, inauguram no próximo dia 27 de novembro nas Galerias Quadrum e da Índia duas exposições e é exibido o filme “Dom Roberto”, precedido de uma apresentação comentada da artista Salomé Lamas, na Cinemateca Portuguesa – Museu do Cinema, no dia 29 de novembro. Conversámos com Isabel Alves, viuva de Ernesto de Sousa, para saber mais.

O que mais destaca do percurso de Ernesto de Sousa?
A heteregeneidade.

Como tem sido celebrar o seu centenário?
A divulgação da sua obra através de exposições, edição de livros, colóquios. Cito, entre outras:
– Revolution My Body no. 2, na Galeria Vera Cortez, na data do seu centenário, 18 Abril de 2021
– lançamento do livro dedicado à sua fotografia pH6 ernesto de sousa editado pela INCM;
– a reedição de Ser Moderno em Portugal pelas Edições do Saguão;
– Colóquio Internacional Ernesto de Sousa co-organizado ppela Biblioteca de Arte da Fundação Caloute Gulbenkian e o Instituto de História de Arte FCSH (Projeto PIM), em articulação com o Museu Calouste Gulbenkian (2-6-21)
– apresentação do mixed-media Luiz Vaz 73 no palco do Grande Auditório da F.C.G.
– Exposição Meu Amigo – Obras e documentos da Coleção Ernesto de Sousa, no MNAC, que se centrou no cruzamento da coleção pessoal de obras de arte, com a correspondência trocada entre Ernesto de Sousa e muitos protagonistas do meio artístico nacional e internacional, expressando relações de amizade e de cumplicidade intelectual, artística e política.
– Palestra por Miranda Justo no Museu C. Berardo a propósito da obra Revolution my Body no. 1
– As exposições nas Galerias Municipais Quadrum e Galeria da Índia em 27-11-21
– a apresentação de Dom Roberto por Salomé Lamas na Cinemateca em 29-11-21
e o que ainda está por revelar….

Como fazer juz a uma personalidade tão multifacetada?
O feed-back das iniciativas atrás descritas tem sido excelente, tanto da parte da crítica especializada, como do público, com muita adesão dos mais jovens para quem a sua ação e pensamento eram desconhecidos.

O que esperar da exibição do filme “Dom Roberto”, precedido da apresentação de Salomé Lamas?
Será, certamente, uma sessão especial, sensível e intensa, o que é inevitável no encontro de dois grandes criadores.

O filme foi premiado no Festival de Cannes em 1963 mas o autor não conseguiu estar presente. Pode recordar-nos esse episódio?
Ernesto de Sousa foi entrevistado pela jornalista Jacqueline Sieger para jornal o francês Témoignage Chrétien. Esta refere que o marasmo do cinema português até então refletia o regime de Salazar, e que pela primeira vez a camara se interessava pela realidade, a de um povo que a ditadura e a aberração colonial lançara numa economia arcaica, medieval e que por isso era preciso saudar como um acontecimento o filme de Ernesto de Sousa. Segundo Ernesto me contou, este foi o motivo para ter sido preso na fronteira quando se dirigia a Cannes. Mas não deve ter sido o único, visto ele ter sido preso 4 vezes. O filme tinha sido enviado a concurso ao Festival de Cannes pela Federação dos Cineclubes Franceses. (https://www.ernestodesousa.com/bibliografia/du-nouveau-au-portugal)

Fale-nos um pouco da exposição “Ernesto de Sousa, Exercícios de Comunicação Poética com Outros Operadores Estéticos”
Cito a curadora Lilou Vidal:
Esta exposição pretende homenagear a sua visão caleidoscópica da arte através de uma abordagem dialógica trans-histórica e intergeracional com a sua obra e os seus arquivos.
Refletindo questões de hierarquia, autoria e a complexidade de enquadrar, encapsular ou dividir nas múltiplas e complementares práticas de Ernesto de Sousa – cujo lema “O Teu Corpo é Meu Corpo, O Meu Corpo é Teu Corpo” serve de manifesto poético -, esta exposição apresenta os diferentes aspectos de sua obra (visual, poética e teórica), e sua notável inventividade de conceitos.

Como gostaria que Ernesto de Sousa fosse recordado?
Como detonador, como lhe chamou Álvaro Lapa. Pioneiro em tudo que encetou. Travou batalhas, abriu polémicas. Ernesto de Sousa, entusiasmava, dinamizava, era ele a lançar a semente. O seu itinerário foi uma aposta na modernidade. Um grande artista e poeta. Pela generosidade em ter dedicado a vida à evolução do outro, e ao seu país. na escrita, no ensaio, na criação do primeiro cineclube em Portugal, em 1946, ao abrir as portas para o cinema novo, e para o mixed-media. E pela generosidade em ter dedicado a vida à evolução do outro, e ao seu país.

Peço-lhe um desejo para as Artes, para os tempos mais próximos
1,5% do orçamento do Estado.

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