Julián Fuks em direção aos outros

Por Ricardo Viel

“Não há sangue dos outros. Em cada um que sangra todos nós esvaímos”, lê-se na epígrafe de A ocupação, romance de Julián Fuks publicado recentemente no Brasil – e previsto para chegar às livrarias portuguesas no mês de abril. A frase que serve como carta de navegação para embarcarmos no livro é de Mia Couto, que também tem um papel importante na construção da obra. O consagrado autor moçambicano foi uma espécie de mentor do brasileiro num programa artístico financiado por uma marca de relógio.

Se em A resistência, título com o qual venceu o Prémio José Saramago, Fuks tinha como proposta uma viagem interior e rumo ao passado, em busca das suas origens familiares, no seu novo livro o escritor vai em busca dos outros. O gatilho para essa caminhada deu-se quando o escritor visitou, a convite do MSTC (Movimento Sem Teto do Centro), um hotel abandonado em São Paulo que havia sido ocupado por pessoas em busca de moradia digna. A experiência do convívio com aquele grupo, assim o cenário política do país, são retratados pelo escritor em sua obra.

A ocupação e A resistência têm o mesmo narrador, mas penso que há uma mudança de foco entre os dois livros que vai de um olhar mais íntimo para uma preocupação pelo coletivo. Você também passou por esse processo de dar mais atenção ao que está além das paredes de casa?
Considero, sim, que passei por uma espécie de processo expansivo de um eu em direção aos outros. O meu livro anterior a A resistência, que se chama À procura de um romance, era um romance sobre um escritor tentando escrever um romance, a metalinguagem totalmente incrustada ali, um livro muito mais narcisista, com certeza. A resistência, que continua centrado nessa mesma casa, na família, irmãos e pais desse sujeito, já é, em  algum sentido, uma expansão, mas uma expansão que foi feita só até a metade. N’ A ocupação a proposta era, de facto, quase com em círculos concêntricos, chegar um pouco mais longe, chegar a esses outros que não me são tão íntimos, que não participam tão diretamente da minha vida cotidiana. E sem dúvida essa passagem é uma passagem em direção ao social, ao coletivo, porque há uma ideia de comunidade que existe fortemente nesses ambientes do movimento social. E isso, esse movimento meu, é algo que se deu de forma proposital, não tem nada de acaso nesse processo, foi pensado por mim e foi na tentativa, talvez, de explorar os limites do que eu podia escrever, tentando expandir esses limites. E me levou na direção deste livro.

E esse movimento tem mais a ver com o passar dos anos, como você estar mais velho, ou com o momento político do Brasil?
Talvez os dois elementos estejam presentes. Em certo sentido, já pude explorar aquilo de mais íntimo que precisei dizer num primeiro momento. Então me vi um pouco liberado de mim para falar de outras coisas. Mas o momento politico que a gente vive no Brasil hoje também convoca, sem dúvida, uma produção literária mais consciente, mais incisiva, mais contundente que fale de facto sobre o nosso tempo.

E você vê mais diferenças entre esses dois romances?
Há um outro deslocamente que é a saída de um ambiente mais argentino e a chegada, finalmente, a São Paulo. Eu, que vivi praticamente a minha vida toda em São Paulo, não vinha escrevendo sobre a cidade até chegar n‘A Ocupação.  E de facto é uma passagem para o meu próprio país e para o meu próprio tempo.

No livro, sabemos da história daqueles moradores do prédio ocupado através do olhar do narrador. Escrever esse livro foi um exercício de empatia? Uma tentativa de compreender uma realidade distante?
Sem dúvida, escrever esse livro era uma tentativa de se aproximar do coletivo, do comunitário, do social. Aquele espaço da militância do movimento por moradia era o lugar que me descentrava de mim, que rompia o individualismo que marca a sociedade em que vivemos, e me impelia em outra direção. Era, sem dúvida, a tentativa de um exercício de empatia, de ouvir os outros, de conseguir dar voz, conseguir encontrar essas vozes e refleti-las no próprio livro. E foi muito libertador. A noção de ocupação foi  ganhando aos poucos esse sentido, a ideia de que essas outras vozes das pessoas com quem eu cruzava tinham que ocupar o meu livro, tinham que tomar o meu próprio espaço, tomar as minhas próprias palavras, e que era assim que se constituiria uma  narrativa que de fato conseguisse incluir o outro. Mas isso não se dá evidentemente de uma forma harmónica, esse tem sido desde sempre o desafio da literatura, a melhor maneira de contemplar o outro, a alteridade, encontrar palavras para personagens distantes de nós mesmos. Esse tem sido não só um desafio literário mas um desafio político, como exercer uma atuação política que seja também empática, que não seja em defesa de interesses próprios, que seja em defesa de interesses alheios que são, nesses casos, os mais justos?

Há uns dias li uma entrevista do João Cabral de Melo Neto em que ele dizia: o poeta ou outro escritor qualquer, de um país desenvolvido como o Brasil, não pode desprezar a realidade dolorosa que o cerca. E também dizia que o escritor não deve falar de política, deve limitar-se ao social. Gostaria que você comentasse essas ideias e me dissesse se considera que a sua literatura é política.
Acho sempre complicados os imperativos quando se fala em literatura. O que um escritor deve ou não deve fazer, se é aceitável desprezar a realidade, escrever outra coisa, uma fantasia, uma literatura mais fabular? Enfim, acho bem complicado quando as coisas surgem como determinações taxativas. Ainda assim, sinto que é um tempo que convoca a uma literatura um pouco mais política, sinto também que o João Cabral tem razão em dizer que um país como o Brasil nos convoca a um posicionamento, não permite em nenhum momento o conformismo e a aceitação de uma realidade tão desigual, tão extrema, tão tensa. Nada disso permitiria o sossego do escritor e o seu próprio fechamento nas suas mais comezinhas questões. Então, nesse sentido, concordo com a frase, embora não veja que isso deva se tornar uma ordem. Quando ele determina que o escritor não deve falar de política mas do social, imagino o que ele queira dizer, mas prefiro conceber a palavra política de uma forma mais ampla, não reduzindo àquilo que a literatura não deveria tocar, uma política mais partidária, eleitoral – isso de facto, não sei se a literatura não deva tocar, mas na maioria das vezes ela tem pouco a contribuir. Mas se concebemos a política de uma forma mais ampla, com o seu fim maior, ou como define a Hannah Arendt: a política é o que acontece entre as pessoas, então me parece que seria absurdo desconsiderar a possibilidade de tocar a política pela literatura. Sinto que neste momento houve uma transformação no próprio conceito de político, muito devido ao Feminismo, com a concepção de que tudo que é da ordem do pessoal participa da ordem do político. Essa me parece uma sentença fundamental e que norteia boa parte da literatura feita contemporaneamente. E na situação que a gente vive atualmente algo que se manifesta é que o político se fez pessoal, as pessoas têm vivido muito pessoalmente a marca da política, têm sido muito diretamente afetadas pelos acontecimentos políticos, em muitos lugares, simultaneamente, que vão se tornando cada vez mais agudos, sensíveis e indignantes. Acho que este é um momento em que de facto quase nenhum discurso consegue se manter à parte da política e com a literatura não teria por que ser diferente.

Graças a uma bolsa, você conviveu, trabalhou com o Mia Couto enquanto escrevia o livro. Vocês são autores bastante diferentes em termos de prosa, universo criativo e vivências. O que significou para você esse espécie de tutória que ele lhe deu? Até que ponto um trabalho tão solitário como escrever um livro pode ser compartilhado?
Desde o princípio os dois tínhamos plena consciência da diferença que nos marcava como escritores. De facto, não podia ser uma relação em que ele me transmitisse a visão dele de literatura e eu a assimilasse, havia diferenças de mais no nosso modo de escrever e de pensar que não permitiam tão diretamente essa relação mais vertical. Mas o Mia Couto é um sujeito de generosidade impressionante e também de uma extrema sensibilidade que consegue entrar também na lógica do outro, ter a paciência de compreender o que o outro está tentando fazer, e assim contribuir com a sua própria visão sem que ela se faça imperativa. Sinto que foi importantíssimo o trabalho que fiz com ele de concepção do livro. É claro que se preserva a solidão do autor no momento da escrita. De facto, o tempo de escrita do romance foi um tempo em que a gente cessou um pouco os contatos. Mas toda a discussão do que o livro poderia ou deveria ser foi feita em diálogo com ele, e isso foi um privilégio enorme. Parte do que ele fazia me interessava muito em literatura, essa capacidade que ele tem de ouvir os outros, de dar voz aos outros, de encontrar vozes distantes dele próprio.

No final d’A ocupação há uma carta do Mia Couto para o narrador do livro. Nela, o moçambicano diz que “o mundo que nasce da tua escrita e dos teus livros é bem maior que as circunstâncias políticas que nos cercam”. Como você interpreta essa sentença?
É difícil eu me propor a interpretar justamente a passagem do livro que é escrita por um outro autor e que, portanto, escapa ao meu domínio. Ali sou tão leitor como qualquer outro leitor e só posso especular. Pelo contexto, penso que ele quer que a literatura seja maior do que a realidade mesquinha do nosso país, quer que os escritores não sejam tomados pela pequenez do nosso tempo, que isso não tolha as nossas capacidades imaginativas, que a literatura possa se produzir com máxima abrangência como voz de emancipação. Em resumo, defende que a mesquinharia do nosso tempo não deve reduzir o alcance do literário e as possibilidades de um escritor. Generosamente, ele avalia que o meu livro faria isso, expandiria esse alcance e se tornaria assim bem maior do que as circunstancias políticas que nos cercam. Se isso acontece ou não, não sou eu que posso dizer. Simplesmente me orgulho muito dessa declaração do Mia e espero que ela seja verdadeira.

Este artigo foi publicado ao abrigo da nossa parceria com a Fundação José Saramago. Foi publicado originalmente na Revista Blimunda de fevereiro de 2020.

Se quiseres apoiar o Coffeepaste, para continuarmos a fazer mais e melhor por ti e pela comunidade, vê como aqui.

Deixa o teu Comentário

Este site utiliza o Akismet para reduzir spam. Fica a saber como são processados os dados dos comentários.