Kiluanji Kia Henda – Entrevista

Por Mafalda Ruão

Kiluanji Kia Henda navega um vasto espectro artístico, de perspicaz sentido de comicidade e crítica para nos falar da identidade, história e política da cronologia africana. Perceções particulares do colonialismo, do seu pós e da modernidade angolana, cuja cumplicidade é evidente e interpelada de forma multidisciplinar, reinventando o arquivo e descodificando a metáfora, para assim resistir à passagem do tempo. A partir da apropriação e manipulação de espaços públicos e figuras que compõem o real e a memória coletiva, a arte é o veículo ficcional, espelho simbólico que viabiliza a liberdade imensamente fértil de construção de múltiplos possíveis futuros.

Que mensagem tem o trabalho do Kiluanji na atualidade?
O meu trabalho é resultado de um país que foi atropelado pela história. Que percorreu séculos de extrema violência, onde se sucederam vários eventos que moldaram profundamente aquilo que somos, mas os quais não foram alvo de uma reflexão maior e questionamento, tanto no universo artístico como no universo académico. A nossa história não começa nem termina na colonização. É essencial para mim que haja uma plena liberdade sobre os temas que tenciono abordar, desde a ficção científica ao absurdo total, sempre com o compromisso de resgatar a história deste longo e tortuoso silêncio

Sobre o memorial A Plantação, qual é o poder hoje da democratização e acessibilidade da obra no espaço público?
A democratização das obras no espaço público faz parte de um processo que pode tornar a cidade mais inclusiva. A cidade de Lisboa é composta por várias minorias, muitas delas formadas por pessoas oriundas de lugares que têm uma história comum com Portugal. Uma história que marcou profundamente o país. É importante que estas pessoas se sintam representadas no espaço público e que a cidade assuma a sua identidade, tanto histórica quanto cultural. Na falta deste passo, estamos condenados a viver numa realidade fantasiada, um perigo que torna muitos dos habitantes e filhos desta nação invisíveis.

Tendo esta obra resultado de um concurso, de certa forma apresenta-se, mais do que apenas do Kiluanji, de um querer geral de quem compõe a cidade. Que impacto tem para si a participação da comunidade?
O meu trabalho sempre viveu de uma certa interação com a comunidade, tanto em Angola como nos vários lugares onde tive a oportunidade de trabalhar. Interessa-me trabalhar espaços e temas relacionados com a memória coletiva. O que nos resta do passado, o que é importante lembrar, ou exorcizar. No caso de A Plantação isso ainda se torna mais evidente. É um desafio que me leva muito além do que já fiz, porque ultrapassa o que posso considerar como “íntimo” no meu processo criativo. É uma obra que procura alcançar o anseio de muitas vozes sobre um tema delicado, e claro, como qualquer obra pública desta dimensão, dificilmente será consensual. Por outro lado, sempre estive aberto às várias opiniões durante o meu processo de criação, pelo que todo o debate à volta da obra tem sido extremamente rico para aquilo que será o resultado final.

Numa entrevista, dizia “Crio arte para provocar emoções”. No entanto, entendemos que o trabalho do Kiluanji é fortemente marcado por um suporte histórico. É assim uma fusão da emoção com a razão?
Penso que, por mais que um artista tenha um sólido suporte histórico, a sua estratégia de reinterpretar a história na sua criação só se torna eficaz quando uma narrativa é capaz de nos emocionar. Somos muito mais do que um arquivo, já que este pode sempre morrer. A obra do artista pretende-se que resista à passagem do tempo. A razão é algo secundário, pois uma obra de arte pode sempre levar-nos a diversas perspetivas, dependendo do contexto onde se apresenta. Quando partimos para a busca da razão, corremos o risco de impor limites à nossa imaginação. Não é muito aconselhável um artista correr esse risco.

Explorando temas sensíveis e de forte poder reativo, é decisivo no processo de criação garantir o simbolismo? Falar do terror sem o demonstrar?
É da mesma forma que se fala de revolução exibindo cravos. Acredito que a arte podia ser como um simulacro, onde se seria capaz de manipular as emoções, simular todas as situações mais desagradáveis e dolorosas, a fim de não termos de vivê-las no mundo real. Uma aprendizagem muito similar à da história; embora, por mais lições que tenhamos, esta insista em repetir-se, o que nos faz perder fé na humanidade. Talvez a arte seja a salvação, o mágico processo de descodificar a metáfora e ler nas entrelinhas, para nos devolver alguma humanidade e bom senso, e salvar da monotonia.

Vê nesta forma de criar – não explícita e com comicidade – o afastamento necessário que, segundo Susan Sontag em Regarding the Pain of Others, faz com que uma sociedade constantemente bombardeada com imagens de dor, horror e atrocidade, a elas se torne imune?
Vivi até aos 23 anos num país mergulhado numa guerra civil e o que mais me preocupava era exatamente a possibilidade de tornar-me imune à miséria circundante. É difícil que a poesia se mantenha viva quando somos confrontados diariamente com imagens que nos remetem aos nossos pesadelos. Por isso, a busca da metáfora, de um sentido mais poético na criação artística, é um ato de resistência. Por vezes apetece mostrar a realidade nua e crua, todavia espelhar simplesmente a realidade é extremamente limitativo, deixamos de parte muitos questionamentos; e, sobretudo, é importante usufruirmos da liberdade que nos dá a ficção de construirmos possíveis futuros.

Pode a arte envolver e tocar o observador, se este não viveu tais experiências, a ponto de as entender ou imaginar quando estão representadas?
A obra de arte só existe quando é capaz de envolver o espectador. Mais do que um meio, uma linguagem que nos pode transmitir conhecimento sobre um determinado evento ou contexto, o seu poder vai muito além, uma vez que se pretende, acima de tudo, criar um vínculo emocional; e este sobrepõe-se muitas vezes às nossas vivências e memórias.

A propósito de Redefining the Power, é a arte contemporânea veículo essencial para “anti-monumentizar”?
O facto de ter nascido no período do pós-independência e ter assistido à transformação do espaço público, em resposta às repercussões do poder que acabava de instituir-se, sempre teve grande influência na minha relação com a memória e as narrativas que aspiramos eternizar. E, simultaneamente, como elas podem ser alteradas e até mesmo manipuladas. É difícil falarmos de contemporaneidade e defendermos certos valores hoje considerados inalienáveis à humanidade, quando no espaço público ainda se celebra uma história que omite o seu lado opressivo e violento, elevando em pedestais heróis sem glória.

Em 2020, desenvolveu uma residência artística no Instituto, no Porto. No que resultou Red Light Square?
O projeto Resetting Birds’ Memories conta a história do Largo do Kinaxixi em Luanda, um perímetro da cidade onde já habitaram distintos monumentos, incluindo um tanque de combate de origem russa. A estória, contada por uma personagem que representa uma trabalhadora de sexo, tem por vezes o espaço físico do Largo, a confundir-se com o seu corpo. Além dos traumas vividos em épocas distintas, o Largo do Kinaxixi é um exemplo de como podemos sempre adequar o espaço público consoante os tempos vividos. O que não representa, de maneira alguma, um atentado contra a história, antes a bendita possibilidade de nos redimirmos e corrigirmos a forma como nos queremos sentir representados no espaço comum.

O Fuckin’ Globo é cada vez mais visível pela forma como foge ao convencional para explorar livre, estética e conceptualmente diversos temas; o que apresentou este ano?
Sou co-fundador do Fuckin´Globo e tive imenso prazer em participar em todas as edições, desde o início em Dezembro de 2015, tanto como artista como parte da equipa de produção. Nas residências artísticas, visamos a interação entre artistas; priorizando, para a próxima edição, um espaço de promoção do debate sobre as várias questões e inquietações do seu universo individual. Desde a sua fundação que optámos por uma autonomia financeira, o que nos liberta das restrições impostas pelos espaços institucionais, ou até mesmo existentes nos espaços comerciais. O Fuckin´Globo conferiu-nos essa possibilidade de abordar a arte mediante a análise de muitas questões sociopolíticas e estéticas que, durante décadas, estavam praticamente silenciadas na criação contemporânea angolana.

Sobre o projeto que apresenta no Art Project da Umbigo, o que pode revelar?
Trata-se de uma entrevista fictícia com um arquiteto russo, Anatoli Vitayev, que participou no primeiro programa espacial em África. A mesma relaciona-se com o meu projeto de 2008, Icarus 13 – A Primeira Viagem ao Sol, que nos fala sobre celebração, e também sobre o fracasso do projeto político em Angola no pós-independência. No fundo, alcançar o sol é uma conquista condenada a terminar em tragédia.

É o pós-colonialismo ainda um problema em Portugal?
Tal como os países que foram colonizados, aos quais ainda lhes resta um longo e complexo processo para uma descolonização efetiva, os antigos países colonizadores também precisam confrontar-se com esse processo. É inaceitável que ainda se olhe para o colonialismo como algo honrado e glorioso. Se calhar o problema neste caso nem se chamaria “pós-colonialismo”, ainda se está num estágio mais recuado. Será preciso descolonizar muitas mentes que ainda vivem deste nefasto legado. Descolonizar a língua e o corpo.

Este artigo foi publicado ao abrigo da nossa parceria com a Umbigo Magazine. A UMBIGO é uma plataforma independente dedicada à arte e cultura, que inclui uma revista trimestral impressa, uma publicação online diária, uma rede social virada para arte e um programa de várias atividades de curadoria.

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