Lendias d’Encantar – Entrevista

Esta semana entrevistamos Ana Ademar, actriz e parte da direcção das Lendias d’Encantar.

lendias01Como nasceram as Lendias d’Encantar?
A LdE nasceu em 1997 com o objectivo de ser uma companhia de actores. Ou seja, a ideia era centrar as produções e o próprio desenvolvimento da estrutura no trabalho do actor, assim a cada trabalho um novo encenador era contratado, em vez de haver um encenador residente. Com mais ou menos rigor, o objectivo foi sendo cumprido, mas com algumas excepções. O Julio Cesar Ramirez é uma dessas excepções, é encenador, actor e director do Teatro D’Dos de Havana, com quem mantemos uma relação de parceria e de amizade desde 2004. O António Revez é também uma dessas excepções. Ele é fundador da estrutura, actor e director artístico e encena muitas das nossas produções. Naturalmente que a disponibilidade financeira nos restringe e às vezes acaba por ter um peso definitivo no caminho que seguimos, mas há que referir que a actividade regular da estrutura se mantem desde a sua fundação, há 17 anos, ainda que com diferentes ritmos. Esse ritmo esteve sempre dependente dos meios disponíveis, mas fundamentalmente da resiliência de quem esteve desde sempre ao leme da LdE: o António Revez.
Acho que podemos definir 2011 como um ano de ruptura e de muitas mudanças para a LdE: conseguimos um apoio anual da Direcção Geral das Artes o que veio a possibilitar uma série de projectos, nomeadamente o aluguer de um espaço próprio, onde podemos trabalhar de forma mais autónoma.

Que tipo de teatro procuram oferecer aos vossos espectadores?
Uma das características da LdE é precisamente a de não ter um tipo específico. Procurámos sempre trabalhar com diferentes criadores e não criar uma linha estética ou temática rígida que nos defina. Preocupamo-nos com a qualidade dos espectáculos em si. Claro que há opções que são nossas, gostos particulares que acabam por funcionar como linha condutora, por exemplo, trabalhamos muito a dramaturgia e a poesia portuguesas contemporâneas. O primeiro espectáculo que montámos com base em poesia foi o Eroscópio em 2004, que se mantém disponível até hoje. O espectáculo tem por base a poesia de amor e erótica contemporânea portuguesa e música original tocada ao vivo por uma banda de cinco elementos e um performer. O projecto foi criado e desenvolvido pelo António Revez e pelo Paulo Ribeiro, o músico que é responsável pela esmagadora maioria das bandas sonoras dos nossos espectáculos. Depois disso temos vindo a explorar um conceito criado pelo António no “Ciclo Um Actor Um Músico” que são uma série de performances onde um actor e um músico exploram o universo poético de um autor português.

Há também opções das quais não abdicamos como, por exemplo, o trabalho para a infância que apresentamos, pelo menos, uma vez por ano. Fazemos uma série de apresentações em Beja, para escolas, infantários e público em geral e depois levamo-lo um pouco por todo o país e às freguesias da nossa região (que têm o acesso aos espectáculos mais dificultado). Já criámos espectáculos sobre uma série de temas, com textos originais (Abel Neves, por exemplo), com adaptações (Saramago, Shakespeare, etc). Não há uma escolha rígida de repertório, há o que nos faz sentido no momento que vivemos…
Vou dar um exemplo: a nossa mais recente produção, “No Limite da Dor”, (estreada a 24 de Maio) partiu de uma ideia do António Revez e foi encenado pelo Julio Cesar Ramirez. São relatos sobre a tortura a que ex-presos políticos foram sujeitos pela PIDE/DGS durante o fascismo. “No Limite da Dor” é o nome do programa de rádio da Antena 1 da autoria de Ana Aranha e também o título do livro (de Ana Aranha e Carlos Ademar) que transcreve as entrevistas, com um contexto histórico e a partir do qual criámos o nosso espectáculo. Neste caso em particular, pareceu-nos necessário e urgente abordar as experiências destes individuos, esta parte da nossa história. Não só para que esta não seja esquecida, mas principalmente porque atravessamos uma altura em que ouvimos falar com alguma insistência na suposta “ditadura branda”, porque se ouve e lê vezes demais a ideia populista e enganadora de que “antigamente é que era bom”… E o teatro tem a função de intervir, não é? De alertar. De fazer pensar e questionar.

lendias03Como correu o desafio do FITA (Festival Internacional de Teatro do Alentejo) e o que retiraram dessa experiência
O FITA é um projecto da Lendias d’Encantar já com muitos anos, ainda que não tivesse nome ou uma ideia muito concreta do que viria a ser. A criação de um festival internacional de teatro sempre nos agradou e parecia-nos o caminho certo para a estrutura e para a região onde trabalhamos. Em 2013 surge a hipótese de uma parceria com outras associações alentejanas para a criação de um projecto chamado Imaginários ao Sul, onde se inclui o FITA, o FIKE – Festival Internacional de Curtas Metragens e o Raízes do Som – Festival Internacional de Música Tradicional.

Foi um baptismo para toda a equipa da LdE, nenhum de nós tinha tido a experiência de organizar um evento da dimensão do FITA: com tantas estruturas envolvidas, espectáculos, públicos diversos, espaços diferentes, até cidades (o FITA aconteceu em simultâneo em Beja e em Évora). Tivemos ainda a programação paralela de concertos, espectáculos de poesia, etc. E toda a logística: viagens, transportes, alojamentos, alimentação, o acompanhamento das estruturas, etc… Parecendo que não, estamos em Beja: os acessos rodoviários e de transportes estão longe de serem os necessários. A LdE tem uma equipa de seis pessoas, portanto não nos restou alternativa senão contratar pessoas, angariar voluntários e, claro, não dormir muito.

O festival decorreu entre 19 e 29 de Março, mas todo o mês foi de loucura para todos. No fim de contas, sentimos que foi uma aventura com um final muito feliz e muito enriquecedora. Foram duas semanas de programação intensa e de muita qualidade com companhias profissionais do Uruguai, Espanha, Colômbia, Cuba, Brasil e muitas companhias nacionais: O Bando, Artistas Unidos, Baal 17, Art’Imagem, Acert – Trigo Limpo, Teatro do Mar, A Bruxa Teatro. A programação de concertos contou com o Nuno do Ó, Pó da Alma, Nau, Márcia e JP Simões.

A afluência de público foi surpreendemente boa, o feedback e a nossa avaliação foram de tal forma positivos, que no momento em que encerrávamos a primeira edição começámos a pensar na segunda, cuja candidatura, soubemos há poucos dias, foi aprovada. Assim, em 2015 temos um FITA ainda maior e melhor: vai acontecer simultaneamente em Beja, Évora e Portalegre e decorrerá durante todo o mês de Março.

O que retiramos desta experiência? Do ponto de vista mais pessoal (por parte da equipa LdE) percebemos que as grandes empreitadas fazem-se fazendo. Não há truques… É avançar sem medos, como dizia o outro.

Já no que toca à LdE, o FITA tem vindo a ter um impacto muito grande na projecção e na vida interna da estrutura. Temos recebido convites para participar em festivais (nacionais e internacionais), propostas para co-produções internacionais… Abriu-nos imensas portas que esperamos manter abertas e escancará-las se possível, nos próximos anos. E o Alentejo merece um festival desta dimensão, merece a vida que este arrasta consigo, a dinâmica, merece estar no mapa da cultura nacional. Falamos de um terço do território nacional que tem marcos arquitectónicos, centros museológicos, paisagens maravilhosas, é riquíssimo culturalmente, tem as suas tradições vivas e merece ser conhecido e reconhecido, ao invés de ser sistematicamente esquecido pelos outros dois terços do país.

Como tem sido programar em Beja o espaço “Os Infantes”?
Um desafio. A história é simples: chegámos à conclusão que sem um espaço não conseguíamos trabalhar, portanto arrendámos um antigo restaurante, bar e discoteca. A ideia, desde o início, era explorar o bar para tornar o espaço sustentável – como se diz agora. A programação regular acabou por surgir um pouco por pressão do público.

Quando abriu em 1983, Os Infantes era o único espaço cultural da cidade, tocaram aqui os Xutos & Pontapés, António Variações, GNR, Mler Ife Dada, para mencionar alguns. O facto de o espaço estar a ser gerido por uma companhia de teatro acabou por criar expectativas no público. Muitas sugestões depois, começámos a fazer concertos de forma intermitente, mas a certa altura decidimos levar a coisa mais a sério, fazer uma programação pensada e cuidada.

Desde a abertura (em Outubro de 2011) que já apresentámos um pouco de tudo: concertos, espectáculos de teatro, de poesia, fizemos conferências, ciclos de cinema, apresentações de livros, exposições de artes plásticas, performances… e é o que pretendemos continuar a fazer. É um trabalho a tempo inteiro e há que referir que esta não é a nossa actividade principal, somos em primeiro lugar, uma companhia de teatro, o que quer dizer que temos de conciliar estas duas vertentes. A equipa, como já referi, é pequena, e somos nós que tratamos de tudo: a programação, os contactos, receber os artistas, montagens, logística, bilheteira, produção, divulgação, o bar… Mas o cansaço tem sido amplamente recompensado. O público marca presença e temos a perfeita noção de estar a fazer um trabalho importante na cidade. Daí a nossa intenção de o manter.

lendias02Quais os destaques da vossa programação para este ano?
A programação do Espaço Os Infantes actualmente conta com duas actividades mensais: os Concertos Versáteis e os Concertos da Terra. Os primeiros são concertos de pequeno formato, com músicos conhecidos, tivemos já o Manuel João Vieira, o JP Simões, o Sebastião Antunes, Verónica Ferriani, a Márcia, Couple Coffee… e temos os Concertos da Terra que nasceram de uma proposta que fizemos às freguesias da cidade de Beja: eles apoiam financeiramente através do pagamento de um cachet e nós damos o espaço, a divulgação, o acompanhamento técnico a músicos ou bandas da cidade. Estamos também a ponderar o regresso de algumas actividades que já fizemos com regularidade, como é o caso das exposições de artes plásticas e dos ciclos de cinema. Em Julho recebemos o Raízes do Som – Festival Internacional de Música Tradicional e em Outubro o FIKE – Festival Internacional de Curtas Metragens. No entanto, o espaço está sempre aberto a propostas para acolher espectáculos ou eventos.

A companhia de teatro para já, está em digressão com o novo espectáculo “No Limite da Dor” criado a partir do livro da Ana Aranha e do Carlos Ademar, de que já falei, cuja estreia foi a 24 de Maio no nosso espaço.

Em Setembro vamos repor, em Beja, o espectáculo para a infância que estreámos em Fevereiro deste ano: “Espantalhadas” que fica disponível para circulação.

A segunda edição do FITA está em andamento e em Agosto a LdE vai marcar presença no Festival Internacional de Teatro Manizales (Colômbia) e no Cena Contemporânea – Festival Internacional de Teatro de Brasília. Ainda este ano esperamos começar os ensaios da co-produção da LdE com as companhias El Mura (Uruguai), Cena Contemporânea (Brasil), Teatro Tierra (Colômbia) e D’Dos (Cuba).

Qual a medida que gostariam de ver implementada pelo secretário de estado da cultura já amanhã?
Não há medidas milagrosas. Nenhuma medida vai alterar o estado das coisas (ou de sítio) da cultura nacional. Pensando no nosso trabalho em particular, gostava de ver o interior do país positivamente descriminado, cremos que não há noção de que os custos de produção são muito mais elevados aqui, do que nos grandes centros urbanos, por exemplo… Podia enumerar dezenas de pequenas medidas, necessárias é certo, mas de alcance curto. O que precisamos é de uma mudança de fundo. A única forma eficaz que vejo de alterar o estado de coisas (ou de sítio) em que estamos, passa necessariamente por uma mudança radical de postura por parte do governo em relação à cultura. É fundamental que a cultura, em todas as suas formas e a par da educação, seja tratada como um dos pontos fundamentais de desenvolvimento do país. E que esta importância lhe seja de facto reconhecida e atribuída e não apenas referida em discursos nas cerimónias solenes.

É sintomático da importância que a cultura tem para um governo quando este faz desaparecer um ministério para dar lugar a um secretário de estado. Não que a pouca consideração pela cultura seja um problema exclusivo deste governo, a situação dura desde sempre. Mas é certo que as condições de trabalho e de desenvolvimento das áreas artísticas estão a piorar rapidamente. Não tenho dúvidas que a partir do momento em que esta mudança de postura se efectivasse tudo o resto viria por acréscimo…

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