LEVART, de Pedro Barreiro

Depois do sucesso retumbante do projeto HIGIENIZART, que levou a vários lares não só a arte performativa como os aromas amoniacais, cítricos, e florestais, Pedro Barreiro e respetiva entourage criaram uma nova versão da ideia vencedora. A proposta inaugural partia de um racional bastante coeso: se muitas/os das/os artistas que se encontram em situações precárias e desfavoráveis têm necessidade de recorrer a trabalhos paralelos para cofinanciar o seu percurso artístico — senão mesmo para sobreviver —, normalmente em detrimento das suas carreiras, então, que se combinem ambas as ocupações. Assim, em jeito de revolução e de chamada de atenção para as dificuldades do setor das Artes, um grupo de nove performers abriu candidaturas para que qualquer civil pudesse receber em sua casa uma performance muito higiénica, capaz de chegar ao cotão dos cantos mais recônditos, não se ficando por “tirar a maior”.

Sempre astuto e atento ao circundante, o criador e programador Pedro Barreiro arrancou, no passado mês de Fevereiro, com o LEVART, a segunda etapa do seu projeto de vida — mais sobre este tema daqui a nada. LEVART é uma reformulação do anterior conceito, agora aplicado ao transporte de pessoas. O programador da Rua das Gaivotas 6 disponibilizou uma inovadora aplicação móvel que qualquer artista poderá obter para o seu smartphone, a LEVArPP: são agora 22 artistas que se disponibilizam, por toda a grande Lisboa, a transportar os seus pares a custo zero, desde que essa boleia aconteça sob duas condições: a comuta deverá compreender, como Meta ou partida, um ensaio; a/o transportada/o terá de estar disponível para acolher e assistir à performance que a/o condutor/a terá preparado para a totalidade da viagem. A experiência vale cada segundo mas, se é daquelas/es pensadoras/es que gosta de tomar o tempo da sua viagem para refletir sobre o ensaio de onde acabou de sair, então esta Proposta não é, definitivamente, para si.

Tive oportunidade de ver carros apetrechados do tejadilho à embraiagem, experienciei ambientes discosound, flowerpower e retro pop, uma all-white-party num Clio negro, um Smart que se transformou num consultório amoroso de assento (pouco) reclinável e até um Fiat Punto de 1990 transformado numa casa assombrada, tirando proveito do chiar da carroçaria para sublinhar o ambiente tenebroso. Houve declamações de poesia, lançamento dos búzios, toques indecentes e ainda oportunidade de viajar com cinco gatos domesticados — atenção às malhas.

Como seria de esperar, a HIGIENIZART, a LEVART e a LEVArPP tornaram-se rapidamente instituições no meio artístico da capital e em boa hora vieram dar apoio e trabalho a artistas que tinham de optar ou pela sua subsistência, ou pelo seu ofício. Nos planos de Pedro Barreiro está, obviamente, o alargamento das performances-laborais por mais zonas do território nacional. Confessa-me, entre dentes, que novas ideias já saíram do papel e estão neste momento prestes a ver a luz do dia: COZINHART, TRATART e ENTERRART são apenas alguns dos conceitos que poderemos vir a conhecer brevemente. Espera-se que esta catadupa de franchisings continue a crescer: não tarda, Pedro Barreiro empregará mais artistas que a Direção Geral das Artes.

Critic@ Sombr@
sombra.critic@gmail.com

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